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Author: filhos-das-sombras
Fiction Rated: T - Portuguese - Suspense - Reviews: 3 - Published: 05-27-03 - Updated: 05-27-03 - id:1313090

Capítulo 2

Nova Iorque, Estados Unidos

"Nunca vou te esquecer..."

Palavras nunca machucaram tanto uma mente humana. Meras palavras, colocadas de tal maneira e em dado momento que fugir delas é praticamente impossível. Palavras essas que poderiam significar a desistência de uma vida por outra e também sua perdição. No final, não passam de palavras jogadas ao léu, sem qualquer significado específico e que no fundo, não deveriam escravizar um jovem. Ainda mais um padre em formação...

Os ecos de uma doce voz ainda permanecem na mente de Matteo. Matteo Meneghinni Fresi, italiano, 22 anos, ex-membro do Vaticano. Um nome e reputação como a dele poderiam deixar com um décimo de preocupação o mais poderoso dos vampiros. Apenas um décimo, mas ainda se tratava de preocupação. Ele tinha uma vida extraordinária a ser seguida e quem poderia imaginar o que o destino lhe traria?

- São U$ 4,00, senhor.

Chinatown, NY. Ninguém ali passa desapercebido, nem mesmo ele. Até o mais inocente vendedor, como o que estava à sua frente, cuja barraca o jovem tinha acabado de comer um prato de Yakisoba, sabia muito bem quem o italiano era e o que fazia ali. Senhor... Era apenas uma maneira melhor de tratá-lo. Para qualquer desavisado, poderia parece hipocrisia do chinês. Para um melhor observador, era possível concluir que Matt não queria ouvir seu próprio nome.

- Fique com o troco – a velha nota de U$ 5,00 deslizou suavemente pelo balcão, acabando na mão do baixinho escondido do frio nova-iorquino dentro de um casaco, enquanto a voz do ex-abade foi ouvida apenas pelo chinês esfomeado que jantava ao seu lado.

O jovem ergueu o capuz anexado à sua blusa, cobrindo suas orelhas do frio impiedoso de Nova Iorque. Uma vestimenta comum para qualquer mendigo da metrópole, calças cinzas de algodão amarrotadas, cobertas por uma pesada blusa de flanela também escura. O dizer "Skate or die" em suas costas era insignificante para ele, assim como o par de tênis velho e gasto que cobria seus pés.

(Música: Linkin' Park – Somewhere I Belong)

A calmos passos, Fresi fitou os dois lados da rua antes de atravessar. A noite na Big Apple era movimentada em toda cidade, menos no bairro chinês. Mas, se é tão fácil descobrir algo em Chinatown, por que sua escolha de permanecer lá? Simples. As gangues do lugar o acobertariam de qualquer sinal dele caso houvesse algum indício de procura do Vaticano. Matteo era sim conhecido por todos ali, mas conhecê-lo implicava em respeitá-lo. Ter respeito pelas suas ações anteriores, e não pelo o que trouxera a tal lugar, uma vez que ele próprio não se perdoava por isso. A opção mais provável seria a Little Italy, mais ao norte da cidade, mas estando lá ele seria um alvo fácil demais.

- Sai da rua! – gritou um motorista de táxi a uma velha chinesa que atravessava a rua à sua frente, após enfiar a mão na buzina.

"Cretino.", Matteo xingou o homem para si mesmo. Por sorte não seria mais um caso de atropelamento por avanço do sinal vermelho, o que não seria atípico na capital mundial do comércio.

- A senhora está bem? – o ex-abade perguntou ao mesmo tempo que recolhia a sacola que a velha derrubara, acentuando o sotaque italiano nas palavras.

Trêmula em decorrência do susto, ela não conseguia dizer uma palavra em inglês. Seus pensamentos pareciam se confundir aos olhos do jovem, que ainda segurava a sacola erguida na direção da chinesa.

- Shie-shie – agradeceu a velhota pegando a sacola de volta, agora sim atravessando a rua, sem dizer mais nada.

Matt deu de ombros. Suas mãos voltaram para dentro do bolso da blusa, assim como ele voltou à sua caminhada na noite nova-iorquina. Seu apartamento ficava há poucas quadras dali. Era mais seguro comer longe de onde morava, se bem que um bom caçador seguiria-o facilmente até lá.

Tal pensamento fez o italiano olhar para trás preocupado. Inutilmente. Insistia na mania de perseguição, por mais seguro que se sentisse em Chinatown. Também pudera, após um ano de fuga de qualquer coisa ou pessoa que lhe deixasse desconfiado sobre uma ação do Vaticano. Já tinha perdido a conta de quantos metros havia corrido, de quantos tiros haviam sido perdidos e quantos inocentes já haviam sido mortos em cada tentativa dos padres romanos de chegarem até ele. Quantas vidas eles tiravam em prol da salvação de outras. Como se Matteo fosse um perigo à sociedade que tantas vezes salvou.

Mais alguns metros e estaria em casa. O bairro chinês era bem grande e, sem uma boa memória, era fácil se perder entre as ruas. E o perigo se tornava ainda maior sabendo das gangues que rondavam por aquelas áreas. No escuro, qualquer um seria um alvo fácil, inclusive vampiros, o que deixava Matteo um pouco menos incomodado em sua caminhada.

Vampiros, a razão de seu karma. Sua tortura eterna seria lembrar-se de tudo o que aconteceu. As vezes pensava se não seria vantajoso entregar-se de vez aos padres do Vaticano e aceitar seu destino com Deus, se é que Ele ainda o queria. Que verdadeiro filho do Senhor deixaria um ser da noite escapar, ainda mais quando esse mesmo filho não se arrependia do acontecido? A imagem de Isabella dizendo que nunca o esqueceria vinha à sua mente mais uma vez...

O barulho das chaves sendo colocadas na entrada do prédio interrompe seus pensamentos. O jovem olhou dos dois lados antes de entrar no seu prédio, uma última checada para se ter certeza de que não foi seguido. As escadas escuras que levavam-no até seu apartamento emanavam um aroma de madeira velha, desgastada durante o tempo. No corredor, silencioso e também escurecido, apenas os passos de Matteo colocavam algum som no ambiente.

Ali estava, apartamento 198, era o seu. Alugara-o de um velho chinês que morava no andar de cima. Metade do prédio pertencia a ele, a outra metade era de sua mulher, divorciada. Ling era um bom homem, honrado e honesto, apesar de ter casado com a chinesa errada. Tiraram-lhe metade de tudo o que conseguira naquele bairro, em menos de dois meses de casamento. A acusação de estupro denegriu sua imagem para todos do prédio, menos para Matteo, que o conhecia melhor.

A luz néon refletida no vidro de sua janela vinha do motel da frente. Era a única coisa possivelmente vista na imensa escuridão, que cobria inclusive a enorme cama de casal no centro do quarto, desgastada, assim como o mesmo, pelo tempo. A "suíte presidencial", como Ling fazia piada do local, era sim velha, porém extremamente aconchegante. Se encontrava vazia principalmente pela situação financeira de seu habitante, tendo apenas uma cama e um velho armário ao lado. Era o luxo que Matteo podia pagar com o que seu tio mandava.

Jogou as chaves por cima do mediano armário de cerejeira. Admirou por alguns segundos a foto de Isabella que estava há alguns centímetros de onde a chave parara. Por que essa lembrança o perseguia tanto? Tentar tira-la de sua mente às vezes só piorava cada vez mais a situação. Mas como manter-se longe disso? Tantas perguntas e poucas ou talvez nenhuma resposta.

Nove e meia indicavam as luzes do relógio. Matteo esparramou-se pela cama, levando as duas mãos a cabeça, espremendo os cabelos após uma pausada respiração. Usar roupas do jeito que estava vestido era muito diferente de uma batina, principalmente após vários anos de uso. Se fosse há alguns meses atrás, estaria rezando essa hora. E se fosse há algumas semanas atrás, estaria tentando se concentrar para tal.

Poderia considera-la o motivo de tudo isso, mas não conseguia. Culpar Isabella seria culpar a si mesmo. Ele teve a chance, o momento, a arma, tudo... E ainda assim a italiana escapou. Remorso? Nenhum. Fez o que devia ter feito. Deu a garota que ama uma segunda chance.

Quem ele tentava enganar? Ela não nem ao menos uma alma agora! Era uma vampira, um ser das trevas capaz de matar a mais inocente das criaturas apenas por diversão. Sua alma, sua essência, sua doçura, tudo isso já fazia parte do passado. Tentar lembrar-se dela como a garota que foi um dia era como esquecer-se do presente e tentar viver no passado. Isabella Paradisi estava morta!

Duas horas da madrugada. Em meio a tantos pensamentos Matteo acabou por cochilar um pouco. O néon ainda refletia em sua janela da mesma maneira que o barulho dos carros também podia ser ouvido desde que chegou ao apartamento. Nova Iorque nunca dormia. E o italiano se penalizava por ter feito o mesmo. Quanto descuido! Alguns minutos de ono poderiam significar uma chance de chegar até ele.

Os olhos abriram calmamente, na mesma velocidade que sua mão pegava a Glock escondida debaixo do travesseiro. E, em um rápido movimento, Matteo estava de pé, procurando o que fosse estranho em relação ao seu apartamento. Mais um fracasso… Não havia nada nem ninguém naquele lugar, apenas ele. Ele e sua loucura de que alguém o acharia mais cedo ou mais tarde. Muitos em sua situação buscariam o suicídio, mas isso era contra sua crença.

Depois de vasculhar o apartamento por inteiro, caminhou vagarosamente de volta a cama, arremessando-se contra ela. Mais uma vez, o italiano tentaria relaxar, porém com a segurança de uma Glock em sua mão direita agora. Talvez se parasse de se preocupar a manhã chegasse mais rápido e, com ela, a segurança de que apenas o Vaticano o caçaria. Vampiros eram problemas noturnos. Aos poucos, seus olhos foram fechando para, novamente, cair num sono profundo, mas ao mesmo tempo bastante leve.

É, talvez estivesse seguro ali…

Los Angeles, Califórnia

Bob McKeaning dirigia sua moto sem se preocupar com o trânsito. Os headphones impediam que ele ouvisse os xingamentos dos outros motoristas por causa de suas manobras arriscadas, mas ele gostava de dirigir assim. Gostava de sentir o vento frio tocar sua pele escura, coberta por tatuagens. Era quase como sentir o abraço da mãe que nunca teve.

"Que se fodam todos...", ele pensou, dobrando a North Square, em direção a Sunset Park. Ele olhou o número. "173... Não está tão longe assim... logo chegarei lá... Logo tudo estará terminado."

-x-x-x-

*A câmera focaliza a placa da rua, Sunset Park, e em seguida, um número, 173. Visão geral do Museu de Los Angeles, até um guarda, fechando as portas, e entrando*

Katherine conferia os papeis pela terceira vez. Seus cabelos presos num rabo de cavalo e a expressão compenetrada indicavam que não era um trabalho fácil. Suspirando, ela levou a xícara de café até a boca.

- Precisa de ajuda?

A mão de Katherine tremeu, assustada pela voz, derramando um pouco de café na mesa.

- Ah, meu Deus! - Katherine quase gritou, levando a mão ao peito. - Kevin, você me assustou!

- Desculpe... - ele disse, com uma expressão de culpa no rosto. No mesmo instante, Katherine o desculpou. Ela não conseguia resistir ao jeito infantil de Kevin.

- Não, está tudo bem... - ela sorriu. - O que você perguntou, eu não ouvi...

- Eu perguntei se você queria ajuda. É a papelada da exposição chinesa, não é? - ele disse passando o braço sobre o ombro de Katherine, lendo o papel que ela segurava.

- Sim, eu estou conferindo todos os detalhes, já que o carregamento chega amanhã, mas logo eu acabo. Se quiser, pode ir embora.

- Tem certeza que vai ficar bem?

- Vou. - Katherine respondeu com um sorriso confiante. - De qualquer forma, os alarmes estão ligados, e Jack está aqui, assim como os outros seguranças, acho que estou bem protegida.

- Então eu estou indo. Até amanhã, Kitty.

Kevin acenou, e Katherine respondeu ao aceno se sentindo especial, única. Somente Kevin a chamava de Kitty.

- Até amanhã!

Kevin deixou o escritório, e Katherine ficou sozinha. Fez alguns telefonemas, confirmando horários, e finalmente pegou sua bolsa para ir embora. Nesse instante, um homem estacionou uma moto em uma rua escura. Olhou para os lados, e depois de pegar uma espécie de mala, entrou no museu pela porta dos fundos.

No museu, Katherine trancava o escritório. Não era a chefe do departamento, mas já teve que ficar depois do expediente tantas vezes, que acabou por receber uma cópia das chaves.

- Jack?! - Katherine chamou o segurança. Tinha feito amizade com ele depois de várias noites que passou no museu. - Jack, eu estou indo, ok?!

Katherine esperou pela resposta do homem, mas não ouviu nenhum barulho. Tudo estava calmo. Dando de ombros, ela continuou seu caminho, mas subitamente, parou. Havia escutado barulho de passos.

- Jack?! - ela perguntou com uma ponta de temor na voz. - Jack, é você?

Ela parou no meio do corredor, esperando por uma resposta ou por um sinal, mas nada aconteceu. Rapidamente, sua mão sumiu em seu casaco, reaparecendo com um pedaço de madeira em sua mão. Ela não usava armas, mas aquela velha estaca já havia salvado sua vida por mais de uma vez, apesar de Katherine não acreditar no poder dela.

Katherine se encostou na parede, de frente para uma escada, único meio de chegar ao corredor. As outras portas estavam trancadas, Jack havia feito isso minutos antes. Ela olhou com expectativa para a escada. Havia escutado um barulho, como se caixas tivessem caído. Então ela viu o vulto de alguém subir.

Imediatamente, Katherine se posicionou ao lado da escada. À medida que a pessoa subia, o barulho de passos ficava mais forte, até que ela percebeu que a pessoa estava subindo a escada para o corredor. Ela suspirou, como se quisesse obter coragem através do ambiente, e em seguida, se jogou sobre a pessoa que subia, a estaca presa firmemente.

Katherine e a pessoa rolaram pela escada até o chão. Por um breve momento, Katherine lutou com o homem, ela percebeu que era um, com várias tatuagens espalhadas pelo corpo, mas no final, a estaca estava apontada em direção ao coração do homem.

- Tá certo, não precisa pagar pela pizza, gatinha! - Bob McKeaning gritou, afinal, não era a primeira vez que era atacado por um cliente que não queria pagar.

Katherine olhou aturdida do homem para a pizza caída ao lado deles.

-x-x-x-

Katherine acordou segundos antes do despertador tocar, e antes que o barulho fosse escutado, ela esticou a mão e desligou o alarme, como se estivesse preparada para o que iria acontecer. Isso era uma das coisas que ela havia aprendido com Anthony Wyce. Podia parecer estranho, mas Anthony era estranho.

Ele apareceu do nada, pouco depois da morte do pai de Katherine, com uma história louca sobre vampiros e Katherine ser descendente de Alexandre, o Grande, ou algo parecido. Ela nunca acreditou naquela história, nem depois de ter sido atacada, mas acreditava que sua vida corria perigo. Anthony não a teria treinado por nada, Katherine percebeu isso depois de passar mais de um ano em companhia dele.

Katherine se levantou, sem querer pensar em Anthony. Ela se culpava pela morte do homem. Estava indo até a casa dele, saber porque ele havia faltado ao treinamento, ele, que era tão rigoroso, e quando chegou, a casa estava destruída, e Anthony, morto. Certamente, as mesmas pessoas que a queriam morta haviam matado Anthony tentando descobrir algo sobre ela, mas ele deveria ter escolhido a morte ao invés de denunciá-la.

Depois da morte de Anthony, Katherine se sentiu mais perdida do que quando o pai havia morrido. Quando o pai estava vivo, ela se sentia segura porque não sabia que sua vida corria perigo, mas depois que Anthony apareceu, ela viu que só estava se iludindo. Não estava segura, mas perto de Anthony, era como se nada de ruim pudesse acontecer. E agora que ele estava morto, ela se sentia mais vulnerável do que nunca.

Era difícil seguir a rotina, mas Katherine se esforçava. Estava atenta a qualquer sinal, por isso atacara o entregador de pizza, mas mesmo depois desse incidente, ela continuou cuidadosa. Não se importou por Jack reclamar com ela, que ela havia traumatizado o pobre entregador, ou se Kevin começava a achar que ela estava ficando paranóica demais com a violência de LA, Katherine não se descuidava nunca. Ela não imaginava que iria falhar.

-x-x-x-

Rapidamente, Katherine subiu as escadas do Museu de Los Angeles, e foi até a "exposição burocrática", como os funcionários do museu chamavam a parte do lugar em que as exposições eram planejadas e observadas, e onde qualquer objeto que entrasse no museu era analisado para comprovar sua autenticidade. Nenhum desses objetos entrava no museu sem passar pelos olhos de Katherine. Ela catalogava qualquer objeto que fosse integrar uma exposição ou que simplesmente fosse ficar à mostra em alguma área.

Aquele dia parecia que ia ser excepcionalmente trabalhoso. Seria o dia em que uma exposição de porcelanas chinesas seria inaugurada, e algumas escolas já haviam marcado hora para visitar a exposição. Katherine torcia para que nada acontecesse com os vasos. Da última vez, um garoto da sexta série havia derrubado um dos vasos, e o que ela teve foi o dia mais estressante de sua vida, dando vários telefonemas para o Embaixador da China e para o dono da coleção.

Mas tudo estava indo bem. As três escolas foram ver a exposição Sem que nenhum incidente acontecesse, e Katherine estava se preparando para voltar para casa quando Kevin foi falar com ela.

- Hey, Kitty - ele a chamou. - tem um cara que quer ver a exposição chinesa, mas ele insiste que você seja a guia.

- Eu? - Katherine olhou intrigada. - Você não sugeriu a Lisa ou a Mariel?

- Sim, mas ele insiste que você o guie, ele foi bem claro quanto a isso...

Katherine se levantou lentamente. Ainda faltava vinte minutos para o museu fechar, mas ainda havia visitantes. Se fosse alguém querendo atacá-la, não estava sendo muito esperto.

- Bem, eu vou, não estou ocupada mesmo... - ela disse dando de ombros, tentando parecer calma.

- Certo, ele está usando óculos escuros. - ele olhou sério para Katherine. - Olha, Kitty... - Kevin disse, a encarando fixamente. - ... se tiver algum problema, me chama.

- Tudo bem. - ela respondeu com um sorriso, e foi para a área das exposições.

Como Kevin disse, não teve dificuldades em reconhecer o tal homem. Ele estava de costas para ela, mas ela conseguiu ver os óculos que Kevin havia dito. Ele se virou antes que Katherine o alcançasse.

- Katherine Lexius? - ele perguntou, olhando por detrás dos óculos escuros, o que era curioso num museu, afinal, ele deveria querer ver as obras da exposição.

-Sim, sou eu. - ela estendeu a mão, que foi apertada pelo homem. - Olha, eu sei que você quer que eu seja sua guia, mas temos outras mais capacitadas, tenho certeza que a Mariel...

-Senhorita Lexius, se eu quisesse que uma delas fosse minha guia, a senhorita não estaria aqui. - ele disse, sem expressar muita emoção. - Podemos começar?

Katherine olhou levemente irritada para o homem, mas controlando-se, começou a falar sobre um vaso.

- Esse vaso vem da dinastia Ming*, como podemos ver pelo desenho de uma flor-de-pêssego com seis pétalas, marca registrada... - Katherine não terminou a frase, pois o homem a interrompeu.

- Tenho certeza que a senhorita tem um grande conhecimento sobre todas as tecnicalidades dos objetos desse museu, mas será que não poderia esquecer a baboseira de lado e me dizer como você realmente vê esse tal vaso?

Katherine ergueu a sobrancelha. É claro que havia sido treinada para ser guia, mas nunca ninguém havia feito um pedido tão absurdo quanto esse.

- Desculpe, mas isso não é os padrões do museu... E de qualquer forma, você mesmo pode ter sua visão do objeto.

- Então, se me permite... - ele disse, sem mudar o tom de voz. O homem esticou a mão direita, tateando um pouco o ar, até achar o vaso, passando-a por toda a superfície do objeto com a máxima leveza e suavidade.

A mulher arregalou os olhos, e apressou-se a se desculpar.

- Desculpe, eu não tinha...

- Senhorita Lexius, o que a senhorita pensa desse vaso? - ele disse energeticamente, e Katherine começou a falar sobre o que achava de cada objeto.

Em cada palavra, ela transmitia sua paixão pela arte e o quanto achava valioso aqueles objetos terem resistido tanto tempo e estarem ali, como se desafiassem o tempo a destruí-los. O homem pouco falava, ou respondia com acenos de cabeça, mas Katherine mal sentiu os vinte minutos passarem, porém, o aviso de que o museu fecharia em cinco minutos fez com que ela voltasse à realidade.

- Bem, senhor, infelizmente não temos mais tempo. Espero que tenha aproveitado a exposição.

- Mais do que imagina... Tenha um bom dia. - o homem respondeu, fazendo uma pequena reverência e virando-se de costas, saindo em seguida, auxiliado por sua bengala-de-cego.

Katherine não teve tempo de responder. O homem deu as costas a ela, e ela voltou para sua sala.

Los Angeles, Califórnia

Residência Wyce

*a câmera dá uma volta pela obscura mansão de dois andares, até parar numa pequena sala, com Adrian deitado num divã, ao canto da parede*

Não adiantava quantas vezes ele limpasse a casa, parecia que o cheiro de morte nunca iria desaparecer. Já fazia três semanas que Adrian encontrara seu avô moribundo naquela mesma casa, num caos de papéis, fotografias espalhadas e sangue por todos os lados. Só agora é que conseguira organizar tudo de maneira coerente, depois de ter analisado todo o material deixado pelo falecido, e finalmente podia começar seu trabalho campal.

- Que bagunça você foi me deixar hein, vovô... - ele falava para si mesmo - Agora eu tenho que proteger essa garota das garras de um dos vampiros mais sanguinário e impiedoso que a Ordem tem registro... Como se eu já não tivesse problemas o suficiente...

Ele tirou os óculos escuros que sempre cobriam sua marca de nascença, e passou a mão nos olhos, como se tentasse, por um momento (mesmo sabendo que era impossível), realmente enxergar seus dedos.

- Pelo menos a maioria dos seus registros estão em braile... Muito esperto de sua parte, hein... O tal museu não parece ser lá muito seguro, mas pelo menos é público e aberto demais para um ataque... De dia estará segura... O que me preocupa é a casa... Acho que vou dar uma averiguada no museu primeiro, e depois lá...

O antigo relógio, posicionado em cima do batente da lareira ao fundo da saleta, deu três badaladas. Adrian se levantou, tateou o ar até achar sua bengala, vestiu seu sobretudo de camurça marrom, e começou a caminhar, oscilando seu bastão pelo chão, descendo as escadas e indo até a porta principal da casa.

*a câmera se posiciona no lado de fora da casa, focando a porta. Adrian a abre, passando por ela e a trancando bem logo depois. Então começa a caminhar calmamente, e a câmera o acompanha de costas por alguns metros, onde ele desce uma pequena ladeira e desaparece da cena.*

*a câmera focaliza Katherine chegando em casa, abrindo a porta da frente e entrando, como se nada de anormal tivesse acontecido. Ela vai até a cozinha, coloca algumas compras em cima do balcão central, e as arruma nos armários espalhados pelas paredes do cômodo. A câmera muda então para a sala de estar, totalmente escura no momento, mas aparentemente com alguém sentado no sofá de três lugares. Katherine então vai até a sala, e não percebendo nada de incomum, acende a luz.*

- Ma... mas que diabos!!!?? - foi tudo que conseguiu dizer, devido à surpresa de encontrar aquele homem ali. - Que... Quem é você?? - ela pergunta, enquanto instintivamente vai procurando por sua estaca no casaco.

- Se eu fosse quem você realmente estivesse esperando, já estaria morta antes mesmo de conseguir pegar a estaca que está no seu casaco... - o homem respondeu.

Passada um pouco a confusão da surpresa, Katherine começou a reparar que o homem ali não lhe parecia de todo estranho... E aos poucos começou a voltar em sua cabeça a memória do cego que havia aparecido naquele mesmo dia no museu.

-Você... Você é aquele cego, de hoje do museu, não é? - ela disse, agarrando finalmente o pedaço de madeira que sempre carregava consigo, mas ainda mantendo-o onde estava, incerta se o cego era realmente uma ameaça ou não.

- Sou muito mais do que aquele cego do museu, e a senhorita muito mais do que apenas Katherine Lexius... Mas essa outra parte, creio que meu avô já a deixou a par de tudo, não?

- Seu avô... Você é neto de Anthony Wyce?

- Poderia se dizer que sim... Ele era meu avô adotivo, como meus pais... Mas isso não vem realmente ao caso... O importante é saber que ele está morto agora, e foi passada a mim a missão de protege-la...

- Sim... Eu já sabia da morte dele... Mas não sabia nada sobre netos, ou netos adotivos, que seja...

- Isso não é de todo surpresa... É política da empresa nunca revelar mais do que o absolutamente necessário, seja para um integrante, ou seja até para uma profecia viva como a senhorita.

- Empresa? Então você também faz parte da tal ordem que Anthony... Os tais Sentinelas...

- Sim, eu também sou um Sentinela... E agora, o responsável pela sua segurança e sobrevivência.

- Pois saiba o senhor que eu sei me cuidar muito bem... Seu avô me treinou um bocado, e até ele reconheceu que eu não precisaria de muita ajuda para me defender...

- Para se defender da gentalha que a senhorita está acostumada, talvez não... Mas quem está à sua caça não é qualquer vampiro... Ele sobrevive a séculos, tentando acabar com a linhagem de Alexandre, o Grande... Com esse, a senhorita VAI precisar de toda a ajuda que puder dispor!!! Vamos precisar de um novo treinamento, mudar de cidade, disfarces...

- Espera aí!!! - Katherine o interrompeu, antes que pudesse continuar a lista. - Quem você acha que é, invadindo a minha casa, dando uma de o superior, me dando todas essas ordens, como se eu fosse um cachorrinho que vai fazer tudo que você disser, no momento em que você mandar??? - ela saiu do canto na parede que estava, e ficou em pé, alguns centímetros do sofá, encarando Adrian - Eu tenho uma vida aqui, sabia? Eu não posso simplesmente largar tudo porque o grande Sentinela diz que eu tenho que fazer isso!!! E eu já disse, Anthony me treinou o suficiente... Eu tenho me virado muito bem sozinha até agora, e não é um vampiro com nome que vai me amedrontar!!!

Adrian também se levantou, visivelmente insatisfeito e irritado com a atitude de Katherine.

- A senhorita está tão bem treinada que nem reparou a minha presença nesta casa, até acender aquela luz, não? Se eu fosse realmente uma ameaça, a senhorita nunca teria guardado os enlatados no armário em cima da pia...

A surpresa era evidente no rosto de Katherine. Como ele, sendo um cego, sabia onde ela tinha colocado as compras? Ela passou a mão direita próximo à face de Adrian, querendo ver se os óculos e a bengala não eram simples atuação, mas o inglês não fez nada em relação àquele movimento.

- A senhorita está exposta. Eles sabem do museu, sabem dessa casa... Eles têm toda a sua rotina memorizada, e só estão esperando que seu líder chegue à cidade para atacar. Temos que aproveitar esse tempo de espera e dar um passo à frente.

Adrian pegou sua bengala, que estava encostada no sofá ao seu lado. Com a outra mão, pegou um pedaço de papel dentro de seu sobretudo, e o deixou cair na mesa de centro, que agora era tudo que separava o dois.

- Esteja nesse endereço amanhã, no horário escrito, se quiser viver... e assim, se dirigiu até a saída do apartamento.

Katherine não fez nada para impedir que o misterioso homem fosse embora. Na verdade, estava aliviada por ele ter ido. Depois da morte de Anthony, há três meses, tentava levar uma vida normal o máximo possível, e a visita do neto de seu antigo guardião trazia de volta tudo o que ela queria esquecer.

Antes de ir para o quarto, Katherine pegou o papel e o leu, curiosa.

- Oito da noite... - ela murmurou. - Pelo menos o presunçoso respeitou meu horário de trabalho. - e com um gesto impaciente, ela amassou o papel.

-x-x-x-

O museu havia sido fechado há trinta minutos, mas aquela era mais uma das noites em que Katherine ficava depois do expediente. Pelo menos naquela noite ela tinha a companhia de Kevin, que também trabalharia depois do expediente.

- Ufa, isso não acaba mesmo, hein?! - o homem disse, se esticando na cadeira. - Ainda bem que eu pedi pizza, ficar vendo tantos números me deixou com fome.

- É o nosso trabalho, Kevin! - Katherine disse em tom severo, mas sorria. - Hmmm... O Bob está demorando hoje, acho melhor eu ir ver se ele já chegou, está bem?

- OK, Kitty. - Kevin disse, piscando para a colega e voltando a atenção para os relatórios.

Em pouco tempo, Katherine chegou aos fundos do museu. Tudo estava silencioso, e não havia sinal de Bob, mas também, o lugar era escuro demais para que alguém conseguisse ver. Balançando a cabeça, Katherine deu meia volta, e estava entrando novamente no museu quando ouviu um gato miar. Ela não sabia explicar o motivo, mas aquele som fez com que ela voltasse para observar melhor.

O gato corria para a rua, então ela caminhou na direção contrária. Seus passos eram curtos, ao longe ela ouvia uma música, e uma inquietação dominava Katherine. Ela sentia que algo estava errado, e isso se confirmou quando ela tropeçou em uma coisa no chão. Imediatamente, ela olhou para baixo. A música havia ficado mais alta, e se agachando, ela tateou no escuro, até que tocou em um rosto, e em seguida, em um líquido viscoso. Katherine levou a mão até os olhos, e quase não segurou o grito de espanto ao ver que a ponta de seus dedos estavam manchados de sangue.

- Ah, meu Deus!

(Música: Evanescence - Whisper)

Katherine deu dois passos de costas, mas logo correu de volta ao museu. Ela subia as escadas apressada, e achou que tinha demorado mais do que realmente queria para voltar ao escritório, mas Katherine ficou aliviada ao ver que Kevin ainda estava sentado.

- Kevin, me escuta, nós temos que sair... o museu está sendo assaltado! - ela disse a primeira idéia que surgiu em sua mente. - Kevin, vamos logo! - ela disse, impaciente, e foi até a cadeira do colega, a girando, mas logo em seguida, ela gritou, assustada. - Kevin!!

O rosto dele estava incrivelmente pálido, como se não houvesse uma gota de sangue por todo o seu corpo, e não havia nada que indicasse que ele havia se ferido, nada além de uma marca no pescoço dele.

Katherine levou as mãos à cabeça, chorando, e foi até à porta. Ela havia tentado fugir da verdade, mas ela a alcançou, e agora não havia saída.

- Jack! - ela exclamou, com veemência. - Ele deve estar fazendo a segurança, tenho que encontrá-lo!

Katherine procurou sua estaca, e com ela na mão, abriu a porta, mas antes que saísse, alguém a jogou no chão.

- Para onde pensa que vai?! - a criatura a prendia fortemente, e ela viu que havia sangue em seus dentes. - A diversão ainda nem começou!

Katherine olhou com raiva para o vampiro, e quase no mesmo instante em que pensou, ela usou a própria cabeça para acertar o rosto do vampiro, que deixou a mulher livre o bastante para conseguir girar e ficar em cima dele.

- Para mim, não, mas para você, é o fim. - ela disse com raiva, segurando a estaca e a enfiando no peito do vampiro, mas, para surpresa de Katherine, a madeira se partiu em vários pedaços.

-Isso é o seu melhor!? - ele disse, rindo da expressão de surpresa de Katherine quando ele não desapareceu. - Pensei que o velho tinha te treinado melhor... - ele disse com escárnio, enquanto jogava restos de madeira que estavam sobre o seu peito para longe.

O vampiro se levantou, e olhou com uma expressão marota para Katherine, que estava encostada na parede.

- Bem, vamos poupar tempo, e...

Mas o vampiro não terminou a frase. Katherine havia tomado impulso, e acertado o rosto dele com o pé, fazendo ele cambalear.

- Você quer do jeito difícil?! Então vamos lá! - ele disse depois que recuperou o equilíbrio.

Com movimentos velozes, ele se aproximou de Katherine, que ergueu os braços para cobrir o rosto. O vampiro segurou os braços de Katherine com força, e os empurrou para trás, atingindo o rosto dela com uma seqüência de socos, mas a mulher estava alerta o suficiente para derrubar o vampiro com uma rasteira, e aproveitando que estava perto das escadas, correu.

O vampiro levantou quase que em seguida, e ouvindo os passos de Katherine na escada, a seguiu. Ele era rápido, e logo estava de frente à mulher.

- Não adianta fugir. - ele disse, sorrindo. - Eu nunca desisto!

Katherine olhou com bravura para o vampiro, e apoiando as mãos no corrimão, levantou as pernas e acertou o estômago da criatura, a derrubando. Ela recomeçou a descer as escadas, mas o vampiro a puxou pelo pé, e ela caiu no chão, machucando a testa, que começou a sangrar.

- Socorro!! - ela gritou. - Socorro!

Novamente o vampiro ficou por cima dela, mas Katherine segurou as orelhas do vampiro, e depois dela dar um impulso para o lado, os dois rolaram nas escadas, parando somente quando alcançaram uma porta.

Katherine estava tonta, mas se levantou primeiro. Um instinto de sobrevivência dava coragem a ela, e com nervosismo, ela abriu a porta, entrando na área de exposições.

O vampiro levantou-se, irritado, e entrou na sala. Não havia sinal de Katherine, e sem se importar com o valor histórico, ele jogou vários objetos no chão, que se partiam em inúmeros pedaços. Katherine, que estava escondida atrás de um dos vasos, aproveitou que o vampiro estava do outro lado, e se levantou em direção à saída.

Ela se levantou de uma vez, derrubando o vaso e atraindo a atenção do vampiro, mas imediatamente, ela correu para outra exposição.

Era uma exposição pré-histórica. Havia vários ossos de dinossauros, homens pré-históricos, e fósseis. O vampiro caminhava atento. Sentia a presença de Katherine no lugar, mas uma luz que acendeu atrás dele o atraiu. O vampiro olhou com raiva. Era somente uma fogueira artificial, obviamente um truque de Katherine para fazer com que ele olhasse para trás enquanto ela o atacava pelo outro lado. Imediatamente, o vampiro se voltou para a direção anterior, em alerta, sem perceber o vulto que surgiu atrás de si. Era Katherine, segurando um tacape, e o acertando com violência na cabeça do vampiro.

Ele estava caído, mas não ficaria assim por muito tempo. Aproveitando a vantagem temporária, e com a certeza de que outros vampiros deveriam estar no museu, Katherine correu até a porta de saída. Era uma porta de vidro, grossa, mas usando uma cadeira que estava ao lado, ela quebrou o vidro, e foi até a rua. Deu sinal para o primeiro táxi que passou, e retirando um papel amassado e o entregando para o motorista, ela entrou no táxi. Finalmente sentindo que poderia desabafar a tensão, ela chorou, enquanto o táxi a levava até o local que Adrian havia marcado.

*Nota da Marcelle: eu não sei nada sobre porcelana chinesa, então desconsiderem se eu falei alguma besteira...

** aparições especiais

Matt Damon como Kevin

J. August Richards como Bob McKeaning



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