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Fiction » Horror » Contos de Myra City font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Clio Trismegista
Fiction Rated: T - Portuguese - Horror/Supernatural - Reviews: 1 - Published: 06-21-03 - Updated: 07-02-04 - Complete - id:1336348

O Lobisomem

Gente de sítio não tem medo do escuro. São pessoas que sabem o que podem encontrar, as coisas boas e coisas más. Mesmo assim elas não hesitam em se por em longas caminhadas para ir visitar algum amigo. Nem todo mundo sabe apreciar a solidão.

Era assim com aquele casal que caminhava por aquela estrada de terra. Dona Maria e Seu Tião. Não se engane pelos nomes, não são velhos ou matutos, são como qualquer outro casal que leva o bebê embrulhado na mantilha.

Dona Maria é daquelas mulheres de mão machucadas pela lixívia e que carrega a cria para onde for, acompanhada pela silenciosa companhia do marido. Seu Tião não é muito diferente da mulher, trabalhador do campo acostumado a pisar em cobra e a comer embu.

Aquela estrada que leva a casa dos compadres é como outra qualquer, estrada antiga com mata-burro na porteira. A mesma que daqui a pouco Dona Maria vai abrir.

-Maria, vai indo que eu já vou. – A voz dura de Tião comanda Maria antes de se perder num matagal beirando a estrada. Provavelmente indo esvaziar as calças.

Dona Maria segue firme, pouco incomodada pela noite que já vai chegando, ela só se assusta quando ouve um rosnado baixo. Sabe que não tem onça por essas bandas, mas nunca é mal se prevenir.

Um rosnado mais forte faz Dona Maria correr com toda a força que tem, dando um pique até o portão, sente o bafo do bicho em suas pernas, e ouve seus latidos como se ele estivesse em cima dele.

Pulando, Dona Maria se agarra ao portão, mas não antes que o bicho, um enorme cão preto tente lhe tomar a criança dos braços mordendo a mantilha com força. Mas Dona Maria dá um safanão e o bicho rasga a franja branca, mas cai no chão.

Em desabalada correria, ela chega até a casa dos compadres, o resto da mantilha protegendo a criança que chora assustada por ver a mãe chorando também.

As comadres carregam Dona Maria para dentro e os homens vão se armar prometendo ir atrás do bicho, mas ninguém tem notícia dele na manhã seguinte. Ela continua assustada, o coração quase saindo pela boca, que será que era aquilo?

Um reboliço grande faz-se na porta, mas está tudo bem, é Seu Tião que finalmente chega. O pobre está suado e sujo de terra, parece ter corrido a noite inteira de uma assombração de tão pálido e trêmulo. Só se acalma quando vê Dona Maria e a criança.

Joga-se na esteira e apóia a cabeça no colo da mulher. Vai dormir. E no ritmo dos roncos do marido, o coração de Dona Maria foi se aquietando, até parar totalmente ao ver entre os dentes de Seu Tião, os fiapos brancos da mantilha do bebê.

FIM



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