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Eu fiquei sozinho no escuro.
Não é o escuro como vocês imaginam.
É como se as trevas fossem palpáveis, como um manto negro que lentamente cobrisse tudo ao meu redor.
Agora eu estou aqui, ajoelhado na terra, com as mãos cobertas de sangue. Meu sangue. Meus joelhos ralados sob o jeans esfiapado adormeceram sobre o chão frio. Meu tórax nu, coberto de suor frio, arde.
Meu rosto está molhado de água suja. E o meu sangue pinga dos meus dedos.
Mas eu não sinto nada. Estou letárgico. Médicos diriam que estou em choque. Talvez esteja... Mas se estou, por que sinto a escuridão?
Eu não vou falar do passado. Nem como fiquei assim. Se esperam uma explicação sobre isso, saibam que não terão. Me desculpem. Mas eu não falo sobre o passado.
Eu não sei como vai ser essa história, se dramática, se aventuresca ou se romântica... Aprendi há não esperar nada. Como também aprendi a não desejar nada.
Melodramático? Talvez... Não sei pensar no destino de outra forma. Espere... Esqueça isso... Estou divagando. Sinto muito.
Eu nunca me importei com a solidão.
Na minha opinião não há melhor companhia do que meus próprios pensamentos.
Pense o que quiser sobre isso... Eu não me importo. Não sei quem você é e sei que jamais vou saber. A única coisa que eu quero é que alguém, por mais inteligente ou imbecil que seja, saiba o que realmente acontece.
Não que isso faça diferença. Os que realmente precisam saber não vão ser avisados. Confuso?
A ignorância é uma benção. Só que eu não fui abençoado.
Vejo que você está pensando que vou dar uma explicação sobre isso, que vou dizer o porque desse monologo tão inútil.
Sei que você aí, confortavelmente instalado, está esperando que o clímax aconteça, talvez espere que eu comece a chorar ou que alguém venha me retirar da escuridão. Ingênuo que você é, acredita realmente que alguém vai vir me dar a mão?
Está tentando imaginar como eu sou?
Pensa em mim como um rapaz branco? Talvez com longos e rebeldes cabelos negros? Olhos azuis? Alto?
Vou rir se você me disser que sim.
Sou moreno, meus cabelos são curtos e espinhados, e meus olhos são castanhos. Não difiro, não me destaco.
Surpreso? Eu não ficaria. Irritado? Vou entender se disser que sim. Eu tenho a capacidade de irritar as pessoas, e espero sinceramente que você me odeie. Porque eu odeio você.
Invejo a luz que você pode acender, invejo a calma curiosidade que você sente ao saber sobre mim, invejo o descaso com que você vai me esquecer. Invejo sua ignorância.
Mas este último não vai durar. Este último eu tenho o poder de tirar.
Vá embora! Esqueça o que eu disse, ignore... Será fácil, basta fazer o que faz todo dia. Coloque sua cabeça no travesseiro e durma o sono dos justos.
E me deixe aqui sozinho. Sozinho na escuridão.
Ah, quase me esqueci... Meu nome é Mauricio.