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Era uma vez um homem triste. Descobriu que possuía um tipo raro de câncer. E simplesmente parou de viver. Pensava somente na morte. E em quantas pessoas apareceriam em seu funeral. Não queria saber de aproveitar o tempo que lhe restava, nem ao menos se dedicava ao tratamento, porque já tinha consciência de que ia morrer, cedo ou tarde. Pois bem, da morte não se escapa. Mas talvez ele tivesse sobrevivido por mais algum tempo se tivesse adotado medidas simples, como pensar positivo e deixar de lado essa crença estúpida e estereotipizada de que quem está com câncer, morre. Sua tristeza tomava conta do ambiente. Quem estivesse por perto, se sentia perdido, como se se encontrasse em um abismo escuro e profundo. Ele fazia questão de dizer que estava triste. Mas ninguém percebia que, na verdade, ele estava era ciente de sua condição. No fundo, mas bem no fundo mesmo, acreditava numa recuperação milagrosa. Mas qual! Ele sequer tomava os remédios na hora certa. Imagina então se aparecia para as seções de quimioterapia! Por conta da estupidez, definhou por muito tempo. Sofreu mais do que devia. Mais do que merecia. Morreu precocemente, por conta de um pessimismo exagerado que o acompanhou por toda a vida, sem amigos, por pensar que não tinha solução. Mas tinha. Ele que não quis ver que a vida pode até ser colorida, só depende dos olhos de quem a vê. Seu funeral foi bem diferente do que imaginava. Não houve pompa. Chovia. Meia dúzia de amigos apareceram. Uns estampavam sorrisos de satisfação. "Menos um para entristecer o mundo". Era triste, e exemplo de amargura. Morreu sem ter um gostinho do que era a felicidade.
Era uma vez um homem honesto. Não roubava, não mentia. Tinha amigos verdadeiros, e muito dinheiro, conquistado a duras penas. Sabia o valor das coisas, principalmente das pessoas. Sentia prazer e sentia-se realizado não precisando omitir verdades. Sim, às vezes ele precisava mentir. Se sentia culpado cada vez que lembrava que seu filho ainda acreditava na mágica do Natal. Mas esse tipo de mentira é necessária. Por que fazer nossos filhos sofrerem desde cedo com o mal do mundo? Uma vez, descobriu que um grande amigo seu vinha roubando dinheiro da empresa onde eles trabalhavam. Não deu noutra: na primeira oportunidade, contou tudinho ao gerente, sem antes conversar com o amigo. Seu amigo foi demitido, nunca mais arrumou outro emprego, inclusive uma de suas filhas morreu subnutrida, mas o homem honesto se sentia satisfeito. Havia denunciado um crime hediondo, a mentira, segundo sua ideologia. Ele não sabia mentir, nem para agradar sua esposa. Ela talvez fosse a única que o conhecesse a fundo. Sabia quando ele estava fingindo sentir algo que não sentia. Sabia bem porque ele ainda a agüentava por perto. No fundo, sabia todas as coisas vergonhosas de sua vida. De toda a podridão. De toda a mentira. O homem honesto, porém, não sabia que mentir, algumas vezes, era saudável. Maquiar a verdade, então, era o que as pessoas ditas "normais" mais faziam. E que ele poderia viver melhor e de consciência limpa se tivesse evitado algumas verdades. Como o sentimento culpado que o tomou algum tempo depois quando lhe contaram que seu amigo havia morrido pobre, sem dinheiro, e depois de beber por ter perdido a casa num jogo de cartas.
Era uma vez um homem corrupto. Ele não só mentia, como omitia dados muito importantes para o desfecho de uma transação. Trabalhava numa companhia respeitável, tinha prestígio perante os colegas. Mas eles não conheciam suas falcatruas. Com o passar do tempo, ele foi se tornando cada vez mais mentiroso. Já nem era sincero para sua esposa. Ele mentia tão bem que ela nunca desconfiou que estavam juntos só por causa do dinheiro. Dela. Era interesseiro, arrogante, e se achava o máximo. Ele, na visão dele, era perfeito. Mentia como ninguém mais. Mas com tantas mentiras largadas pela vida, um dia surgiu-lhe um ponto fraco: não conseguia contar mentiras para o filho pequeno. E, num descuido, a babá do menino ouviu tudo o que ele tinha a dizer. Foi preso. Acabara de roubar uma enorme quantidade de dinheiro da União. Sonegando impostos. É duro quando a gente descobre, da pior maneira possível, que não é onipotente. Ele sofreu muito. E mesmo assim não aprendeu a deixar de ser corrupto. Na cadeia, se aproveitava dos presos mais singelos para obter tudo o que queria. Quando foi solto, seguiu com suas falcatruas. Mas já não tinha mais o ânimo de antes, sem contar no incessante sentimento de que estava fazendo algo de errado. Afinal, ele já havia ido para a cadeia uma vez, sabia bem qual seria o seu destino se fosse adiante e seguisse vivendo como era.
Era uma vez um homem inteligente. Calculava como ninguém, era culto, lia muito. Mas não tinha nem noção do quanto poderia ter aproveitado seu potencial. Descobriu, tardiamente, que tinha uma memória invejável a qualquer vestibulando. Tinha uma facilidade incrível para decorar datas, nomes e números de telefones. Sua inteligência era tanta, que lhe sobravam horas e horas de trabalho. Ia para o emprego, mas não precisava trabalhar. Ele achava tudo moleza. Terminava suas tarefas rapidinho, e logo desembolsava um livro diferente para se tornar ainda mais culto. Só não sabia que estava desperdiçando horas preciosas. Sempre tinha soluções práticas e sábias para os problemas da vida. E ajudou muita gente com isso. Inclusive sua empresa, numa vez que esteve prestes a falir. Fazia parte de grupos literários, mas não se arriscava a escrever. Tolo. Teria feito muito sucesso. Mas preferia apreciar livros. Se imaginava nas histórias. Conseguia entender qualquer tipo de autor. E adorava refletir sobre as obras. Mal sabia ele que teria um grande futuro em outras áreas.
Era uma vez um homem ignorante. Não sabia como lidar com seu filho. Era taxado de burro por todos que o conhecessem. Era grosso. Estúpido. Falava muitos palavrões, e eles saíam com uma naturalidade imensa. Seu filho, secretamente, sentia vergonha dele. Não gostava de mostrá-lo aos amigos. O homem era tão burro que trocava palavras óbvias, como "computador" e "celular". Era pior que qualquer caipira mostrado na TV. Sim, porque sua estupidez não tinha precedentes na família, toda de classe média alta, de um bairro nobre de São Paulo. Era sozinho na sua ignorância. E, às vezes quando estava sozinho, se orgulhava dela. Apenas por ter algo de diferente em relação a sua família. Pura burrice.
Era uma vez um homem sensato. Ele vivia com os pés no chão, não tinha muitos sonhos. Sabia do quanto ganhava a cada mês, e sempre planejava rigorosamente como ia gastar esse dinheiro. Teve uma vida sem muitas regalias. Mas vivia bem. Tudo o que tinha, gastava. Porque ele sabia que nada durava para sempre. Desfrutava de uma vida saudável, vivia com os pés no chão. Mal sabia ele que, no fundo, ele tinha um sonho. Seu sonho o fazia afirmar para ele mesmo que não tinha sonhos. Pois ele sonhava em ser realista. Mas nunca passou de um sonhador barato.
Era uma vez um homem sonhador. Ele vivia no mundo da imaginação. Fazia planos mirabolantes, se imaginava em meio a um cruzeiro com milhares de garotas, e no instante seguinte queria porque queria um carrão igual ao que vira numa revista. E não se satisfazia enquanto não conseguia pelo menos algo parecido com o que queria. Não aproveitou sua vida. Guardava o dinheiro, fielmente a cada mês, na esperança de um dia ver todos os seus sonhos realizados. Não deixava a mulher fazer compras. O filho nunca teve uma bicicleta. Nada dava certo em sua vida. Mas ele se sentia feliz por ter todo esse dinheiro guardado. Pena que um dia o banco onde ele guardava tudo isso quebrou. Ou melhor, ainda bem! Pois só assim ele aprendeu a dar valor às coisas que é capaz de conseguir. Pelo menos por um pouco tempo.
Era uma vez um homem rico. Ele tinha todo o dinheiro que precisava para viver. Esbanjava charme para tudo quanto é lado. Tinha o carro do ano, morava numa mansão. Era tudo de bom, e sempre queria mais. Foi essa ganância exagerada que o fez perder tudo na vida. Casa, família. Tudo se desestruturando. Mas ele não se abalava. Afinal, continuava tendo seu salário, podia refazer-se. Gastava mais do que podia, se endividava. Quitava as dívidas, voltava a gastar. E assim viveu sua vidinha medíocre. Sem muito brilho. Sem glamour. Seus amigos o admiravam por possuir o que possuía. Mas não sabiam o que se passava por trás de toda essa pompa. De fachada. Ele mesmo sabia que dinheiro não traz felicidade. Mas mesmo assim, o homem rico fazia de tudo para comprá-la. Em vão.
Era uma vez um homem pobre. Vivia bem, quer dizer, sempre tinha comida na mesa e roupas para vestir, porque o resto é dispensável. Sua família era adorável, ele estava sempre sorrindo. Não ganhava muito, mas o que ganhava era suficiente. Na verdade, ele se sentia acomodado. Não sonhava com nada, porque estava satisfeito com a vida que levava. Achava que estava tudo bem, quando no entanto, ele estava meramente enganando a si mesmo. Um dia, o destino pregou-lhe uma peça. Perdeu todo o resto de seu mirrado salário numa aposta. Logo no início do mês. Não teve outra: sua mulher obrigou-o a esmolar por aí, a perambular pelas ruas em busca de alimento e dinheiro. Ele aprendeu na marra o que era sofrer. Mas ao mesmo tempo não se deixou aprender com isso. E ficou por isso mesmo.
Era uma vez um homem cheio de fé. Rezava todos os dias, afirmava a todos a sua religião. Cria em deus, orava à virgem Maria. Era presença notável em missas e eventos de sua paróquia. Sempre que tinha algum problema, pedia proteção. E, até nessas horas, adorava mostrar a todos a sua devoção. Trazia Jesus no coração, amava a todos, especialmente a sua família. Respeitava os 10 mandamentos, todos o admiravam, por ser crente e influente. Seus amigos contavam que seu maior sonho era se tornar pastor. Não padre, porque daí não poderia ter esposa ou filhos. Pois qualquer plano para o futuro que deixa de incluir as pessoas do presente, não deve ser jamais planejado. Mas sonhava em poder exercer sua devoção, passá-la adiante para as novas gerações. Tinha tanta fé que sequer ajudava os outros. Afinal, os outros que tivessem sua própria fé para ajudar!
Era uma vez um homem ateu. Descrente com a vida. Não entendia como alguém podia crer em um deus superior. Não achava graça em orações, preces e pedidos. Apenas vivia. E cria no que queria. Mas tinha um problema. Por conta de sua falta de crença, ele sofria muito. Pensava constantemente em como seria não viver mais. Em como seria a morte. No que aconteceria com o mundo quando ele se fosse. O que os outros iriam pensar. E como ele ia se sentir nesse momento. Questionava a fé, mas no fundo a queria de volta. Queria poder voltar a acreditar, mas como não mandamos nos nossos pensamentos, ele não podia. Sofria calado.
Era uma vez um homem bom. Estava sempre ajudando os outros, principalmente sua esposa. Grandes feitos são creditados em seu nome. Ajudava cegos a atravessarem a rua, dava alimentos aos necessitados. Seu coração era tão bom que ele ajudava os amigos. Emprestava dinheiro sem juros. Baseava-se apenas na lealdade deles. Mas foi por isso mesmo, pelo excesso de confiança nas pessoas, que se deu mal. Nem todos são o que aparentam ser. E, infelizmente, ele só aprendeu isso na marra. Depois de sofrer muito, ele aprendeu que não precisava ser exageradamente bom. Mas fazer o quê, ele gostava de sê-lo. Sua bondade era tanta, que resolveu dedicar em seu testamento metade do que tinha aos pobres e necessitados. Mas ele não via que metade das pessoas que o procuravam atrás de ajuda, eram apenas aproveitadores baratos. Estavam apenas se esbanjando da boa vontade dele para conseguirem cada vez mais coisas. Alguns, nem pobres eram.
Era uma vez um homem mau. Adorava guerras, tinha em Hitler a imagem do homem ideal. Era frio e calculista. Detestava os pobres, e fazia questão em afirmá-lo para si. Não entendia como as pessoas ficavam desempregadas, ou sem dinheiro, se apenas o ânimo e a empolgação são capazes de enriquecer qualquer um. Ele era tão mau que às vezes sentia prazer em colocar o pé para as pessoas caírem. Na infância, roubara muitas bengalas de velhinhos e pirulitos de bebês. Mal sabia ele que a vida se baseava em ajuda mútua. Ele recebia sua dose de bondade, mas não era capaz de transmiti-la.
Era uma vez um homem vivo. Adorava viver, todos sabiam disso. Toda manhã agradecia por estar acordado. Por poder viver. Presenciar a vida! Sentia prazer nas pequenas coisas. Afinal, ele estava vivo. E valorizava a vida. Venerava-a. Sabia que o dia que a perdesse, não teria volta. E que a perderia um dia desses, porque, afinal, a única certeza dessa vida é a morte. O resto, é a gente que faz. Mas com tanto amor pela vida, acabou não percebendo que a vida era, de certa forma, bem longa. E quis espremer o tempo para fazer tudo o que queria. Viveu atordoado, e só mais adiante percebeu que não tinha aproveitado a vida.
Era uma vez um homem morto. Estava vivo, sim, mas não sabia aproveitar os momentos que tinha. Era tão cético que não acreditava que alguém pudesse, de fato, ser feliz. Vivia, mas ao mesmo tempo não assumia uma posição em relação a vida. Apenas passava através dos dias. E em sua vida sobre-humana, aprendeu que um dia teria que deixar de viver. Aí sim, ele passou a aproveitar a vida. Pena que era tarde demais. Sua vida mesmo, foi curta. Mesmo tendo morrido bem velhinho, de doença. Com seu filho criado, crescido, carregando seu nome pelo mundo afora.
Era uma vez um homem que, mesmo possuindo todas essas características, ainda se sentia bem por dizer que era algo, quando no fundo era outra coisa. Despertava a inveja de uns, a raiva de outros, mas todos o veneravam como um deus, e nem desconfiavam de sua arrogância interna. Tinha a família perfeita, sem saber. Era feliz, e nem sabia o que era felicidade. Nunca teve caráter, mas perdeu inúmeras oportunidades de tê-lo.