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Há muito tempo atrás, perto do riacho pedregoso, e muito próximo de
um lindo e vasto campo de coxilhas, vivia uma comunidade muito diferente
das observadas atualmente. De uma grande complexidade de organização, e
dotados de uma excelente capacidade de trabalho, essa civilização tão
distinta trabalhava de sol a sol no verão, e aproveitava os períodos de
frio para descansar ternamente no interior de suas habitações, sem que se
lhes faltassem qualquer tipo de comida.
Eram trabalhadores afortunados, criavam suas famílias com todo
cuidado, e viviam em comunidades separadas e muitas vezes inimigas, em
habitações escuras e comuns a todos os membros de um mesmo clã. Contavam o
tempo por ciclos, e estes compreendiam o intervalo de tempo entre uma lua e
outra. Assim, o período que hoje conhecemos como Lua Nova, para eles, não
passava de um período de trevas, no qual eles temiam mais o perigo e,
diziam, só sofriam ameaças ou entravam em novas guerras quando no céu
faltava sua grande estrela-guia.
Numa dessas comunidades, vivia Lily XVI, uma jovem apaixonada pelo
trabalho, e que mal via a hora de se dedicar livre e inteiramente ao
sustento de sua tribo. Com seus olhos tristes e arredondados, parecia
sempre estar insatisfeita com a sua situação, o que lhe garantia muitas
regalias por parte de seus parentes, pois todos sentiam por ela uma espécie
de atração difícil de explicar, uma vontade incontrolável de deixá-la
sempre feliz, por mais que penasse a conseguir-se essa situação.
Uma das coisas que Lily mais sentia orgulho era de ter o mesmo nome
que sua mãe, Lily I, rainha de seu povo. Naquela civilização, se observava
um fato estranho. Somente a rainha de cada tribo podia ter filhos, e dentre
esses filhos, era ela quem escolhia os próximos reis e rainhas que se
aventurariam na construção de novos reinados. Alguns reinados prosperavam
tanto dentro de tão pouco tempo que precisavam de auxiliares
administrativos. Uns, de fato, chegavam a ser verdadeiras civilizações
autônomas, com sua própria língua, moeda e organização.
Para povoar melhor seus reinos, as rainhas passaram, ao longo do
tempo, por uma mutação que lhes permitissem a habilidade de terem muitos
filhos de uma vez só e em cada vez menos tempo. Assim, dizia-se que ao
nascer, todos os indivíduos já tinham seu destino predeterminado, pois
aqueles que nascessem com o sinal característico da fertilidade, a esse fim
seriam destinados, enquanto que os demais seriam distribuídos entre as duas
tarefas principais da tribo: arrecadar alimentos e proteger o reinado
contra ataques inimigos, atribuição esta típica de quem nascesse com uma
cabeça desproporcionalmente maior, o que acontecia com grande freqüência.
Lily, secretamente, sempre quisera fazer parte do esquadrão que saía
todo dia em busca de alimentos, para consumo e estocagem, de modo que
pudesse ser útil a todos do reinado, e assim garantir sua sobrevivência.
Parecia-lhe incrível a percepção de sair pelo mundo, com agregados seus,
conhecendo novas terras, e enfrentando os perigos que a mesma oferecer,
confrontando obstáculos novos a cada dia. De certa forma, até dizia isso a
sua mãe, não com palavras explícitas, mas na maneira que elogiava tais
trabalhadores braçais a cada tarefa bem cumprida. Mal sabia ela o que o
destino a reservara de tristezas e desilusões.
Além dos trabalhadores, cada reino tinha sua boa cota de soldados, em
exércitos geralmente constituídos exclusivamente de homens, de modo que a
proteção do lugar fosse exercida com adequação. Mas como os tempos de
calmaria fossem longos demais, verificava-se um alto número de fugas e
suicídios entre esses indivíduos, a maioria gerado por insatisfação e
apatia, tão comuns ao exército e à artilharia. Era como se eles se armassem
cada vez mais, mesmo sabendo que talvez nunca nas suas existências
patéticas eles fossem lutar alguma vez de verdade. Suas maiores incubências
ao longo de uma vida toda se resumiam em anunciar tempos propícios a chuva,
invasões de estranhos, e os temíveis ataques de gigantes.
As gerações que, ora por sorte, ora por azar, pudessem envolver-se em
guerras, eram louvadas durante muito tempo, principalmente enquanto um ex-
combatente ainda se encontrasse vivo para relatar as histórias e anedotas
surgidas no conflito. Depois disso, muitas vezes, os atos heróicos
simplesmente caíam no esquecimento, já que esse povo desconhecia qualquer
forma de escrita, ou qualquer maneira que permitisse a transmissão dos
conhecimentos, além da própria fala. Até mesmo as histórias mais
fantásticas, com o tempo, acabavam sendo esquecidas, salvo aquelas que eles
consideravam como lenda, já que ninguém sabia como e quando surgira, apenas
a transmitia adiante, mesmo sem saber se era de fato verdade, ou pura
invenção de uma mente criativa e cansada da mesmice de todos os dias.
Além dessas duas camadas sociais, existiam também as mulheres do lar,
exclusivamente dedicadas à família e à multiplicação da tribo. Dedicavam-se
de tal modo que passavam a vida toda alimentando seus filhos, e só paravam
de tê-los quando não tivessem mais forças para o coito.
Uma maldição atormentava tais mulheres, e esta dizia que todo e
qualquer homem que caísse nas graças de uma mãe de família, morreria logo
após ter seu amor correspondido. Assim, verificava-se claramente que
existiam mais mulheres que homens em idade adulta em praticamente todos os
reinos, e o grau de sobrevivência e esse "feitiço" era praticamente nulo.
Poucos eram os que conseguiam sobreviver a essa triste estatística, e os
que o faziam, tratavam logo de esquecer os prazeres do amor e dedicar a
vida toda ao exército ou ao trabalho braçal.
E assim resumia-se a vida da colônia, de forma que os mais
importantes habitantes não ganhavam nem metade do crédito que mereciam,
enquanto que praticamente todos veneravam a rainha-mãe, cuja maior
atribuição era a de definir quem seria o que quando atingisse uma certa
idade.
Nem mesmo Lily escapava dessa existência patética. Ela apenas tentava
amenizar seu tédio com pensamentos oníricos e ilusões de moça. Mas também
não era capaz de escapar da paixão exacerbada por sua líder. Ninguém era
capaz disso. Pois, afinal, praticamente todos os habitantes de uma
comunidade eram parentes diretos da rainha, e somente após a morte dela, é
que uma nova soberana subiria ao trono. Que outro remédio teriam esses
seres insignificantes senão amar incondicionalmente àquela que lhes dera a
luz?
Capítulo 02 - DA SOCIEDADE
Apesar da aparente e dedutível igualdade de condições sociais, por
questões práticas, aqueles indivíduos designados exclusivamente à
reprodução eram considerados mais afortunados perante a sociedade, pois
desfrutavam de regalias curiosas, como poder freqüentar festas em salões
vizinhos ou exercer o poder e a legislação.
Seguindo-se a hipotética pirâmide da sociedade, encontravam-se os
soldados do exército, cuja importância pudesse ser contestada por quem
estivesse por fora, mas que jamais fora posta em prova por nenhum ser de
outra classe.
Na base da sociedade, encontravam-se os trabalhadores braçais, que
mesmo não demonstrando desinteresse pela posição social, apresentava dois
grupos de pessoas: os conformados e os rebeldes. Rebeldes eram aqueles
(principalmente moças) que passaram a juventude toda sonhando ou com a
maternidade, ou com poder exercer seu amor à pátria. Já os conformados eram
aqueles que, mesmo tendo sonhado com outro destino, ficavam felizes por ao
menos estarem vivos e poderem ser úteis de alguma forma.
Os valores para eles eram diferentes. De que adiantava a beleza se o
que importava mesmo era o talento? Não faziam tanta questão de se
arrumarem, ou de parecerem superiores para os demais. Apenas viviam suas
vidas, e tinham preocupações maiores que simplesmente decidir a roupa que
usariam no dia seguinte.
Uma criança que não soubesse os princípios de sobrevivência básica de
cor, era considerada ignorante, e jamais ocuparia alguma função maior que
estocador, ou seletor de alimentos. Enquanto isso, quanto mais velha a
pessoa, maiores suas chances de perder a vida trabalhando ou em combate,
pois a sabedoria dessa civilização era tanta, que eles punham os mais
idosos à frente da batalha, ou para abrir caminho na procura por comida.
Assim, em ordem decrescente de idade, eles sempre poupavam a vida dos que
tinham ainda vivido muito pouco, e merecessem uma segunda chance para
aprender com os erros dos demais.
Outro fato curioso era a maneira que eles ensinavam os perigos às
crianças. Apenas contavam histórias horripilantes de pessoas que tinham
feito determinada coisa e perderam a vida. Então, como o elefantinho que
passa a infância toda preso a uma estaca, e com o passar do tempo começa a
achar que uma simples estaca é capaz de prendê-lo para o resto da vida,
desistindo de tentar lutar contra sua prisão, esses seres de tamanha
distinção deixavam de fazer muitas coisas por conta de percepções muitas
vezes ultrapassadas, como a de que se se aproximasse da margem do rio, um
imenso monstro os atrairia para o fundo da água, e lá permaneceriam, até
que se sugasse a última gota de sangue de suas cabeças.
Cabeças. Como aquele povo era fascinado por cabeças! Tinham um imenso
medo de perdê-las em combate, e mesmo sendo praticamente impossível que
isso acontecesse, aprendiam desde cedo as noções básicas de sobrevivência
em caso de serem decepados. Crianças de colo horrorizadas com a simples
percepção de que um dia poderiam perder a cabeça, e precisar se localizar
sem ela, muitas vezes sofriam com pesadelos e medos desnecessários, mas os
mais velhos achavam que assim seriam melhor para eles aprenderem desde cedo
sobre os perigos da vida. Talvez fosse por esse medo, aparentemente tolo,
que somente quem tivesse um determinado diâmetro de cabeça é que poderia
integrar os exércitos de paz dos reinados.
Apesar de tudo, Lily sonhava em passar a vida toda arrecadando
alimentos, mesmo sabendo muito bem a que perigos estaria sendo submetida e
o quanto sua vida poderia ser mais curta com essa decisão. O problema era
que a moça envolvente, de olhos penetrantes e visão oblíqua, caíra nas
graças da rainha e, mesmo sem ter a mínima vocação para o caso, estava
marcada, desde cedo para ser sua sucessora, já que Lily I encontrava-se em
idade avançada.
Capítulo 3 - DO REINADO
Na "suíte presidencial" do palácio do governo vivia Lily I, rainha e
soberana de todos. O lugar, sem muito luxo, servia de descanso para uma
vivaz articuladora de seu povo, capaz de lutar com unhas e dentes por seus
ideais.
Suas principais tarefas diárias era a de manter a ordem, distribuir o
trabalho, e ficar atenta aos períodos de chuva, pois nesses é que ocorriam
as chamadas "cruzadas", ou seja, quando as moças de um reino eram largadas
na estrada "acidentalmente" com moços de outro, que as amparavam e
protegiam da chuva, se estabelecendo em local seguro e dando início, assim,
a novos reinos.
A rainha era uma pessoa muito solitária. Passava a vida toda tendo
filhos, e tratando de encaminhá-los profissionalmente para a vida. Era uma
administradora nata, e precisava se virar para tocar os negócios da
colônia. Muitas vezes, dispunha de servas, que a auxiliavam quanto a
maneira ideal de tocar os negócios do grande grupo.
Lily I, que já vivia há dezenas de ciclos, sabia que seus dias de
vida na Terra estavam contados. Nunca se ouvira falar de alguém, seja
trabalhador, soberano ou soldado, que tivesse vivido mais de 30 ciclos, e
Lily estava quase chegando lá. Ela tentava explicar esse fato através das
lendas, e tinha uma que dizia que quem vivesse mais, era porque ainda tinha
algo de pendente a fazer pelos seus familiares antes de partir para a
viagem eterna.
Neste lugar, o tempo simplesmente não passava. Por mais que se
tivesse milhões de afazeres, eles nunca eram suficientes para preencher o
tempo, que em tempos de guerra é tão apreciado, mas na paz parece ser
inútil.
Numa patética existência, Lily I justificava sua grande admiração por
Lily XVI pelo modo como a menina encarava o mundo, sem se preocupar com o
que iria acontecer no dia seguinte, sem ter medo de deixar de existir, sem
se preocupar com o que os outros irian pensar, e sem deixar se influenciar
pelas tragédias da vida. Ela admirava a maneira pela qual sua filha
expressava abertamente seus sentimentos, pelo seu olhar, pelo jeito que
tinha de olhar fundo nos olhos de outra pessoa, de modo que esta se sentia
intimidada, e disposta a contar-lhe tudo o que soubesse sobre um
determinado assunto.
Lily I queria que sua filha fosse capaz de substituí-la em breve, mas
não queria que ela soubesse antes do tempo, mantinha a surpresa. Ela só
saberia dos planos quando completasse 20 ciclos de vida. E até lá, Lily XVI
tratava de pensar em como seria útil para sua aldeia no transporte e coleta
de pequenos alimentos para seu povo.
Capítulo 4 - DOS NOMES
Uma tradição estranha dessa sociedade era a maneira como eles punham
nomes em seus membros. Como não existissem sobrenomes, o ideal era criar
nomes novos para seus filhos, de modo que eles fossem únicos e exclusivos.
Assim, quando um novo nome era inventado, a corrida para ser a primeira a
batizar os filhos era intensa.
Como se tratava de uma sociedade que vivia praticamente em isolamento
total, a obrigatoriedade das regras de nomenclatura variava de reinado para
reinado, mas geralmente permanecia a mesma nos inúmeros sub-reinos
espalhados pelo mundo.
Na terra de Lily I, cuja tradição perdurava por milhares de ciclos, a
regra era simples: o primeiro a criar o nome ganharia o direito de utilizá-
lo com a numeração I, enquanto que os demais deveriam numerar sua prole com
os números seguintes, em ordem de registro. Assim, supõe-se que outras
quinze Lilys tenham existido antes de Lily XVI, e que todas elas tivessem
também uma história fantástica para contar.
Como as populações eram muito extensas, era muito difícil manter um
controle de quantos e quem eram. Apenas aqueles que, de certa forma,
tivessem se destacado, acabariam sendo lembrados e cultuados após a morte.
E morria-se cedo.
Diante de tantos obstáculos para a vida natural, tanto os provocados
pela própria natureza, quanto os impostos pela sociedade, e até mesmo por
outros animais, era praticamente impossível para um operário ou soldado
superar a marca de 12 ciclos. Talvez fosse por isso que estes seres
costumavam começar a lida diária extremamente cedo. Pequeninos, com pouco
mais de 2 ciclos de idade, já partiam para o trabalho, primeiro como
aprendizes, e em seguida como trabalhadores braçais. Eles iam atrás nas
filas, e, com o tempo, e depois de atestar sua bravura, iam sendo
promovidos, sendo postos aos poucos em posições mais intermediárias nas
filas de trabalho. Nessa hierarquia, que sempre terminava com os mais
velhos e cansados, eles mostravam muito bem sua sabedoria. Por que, de que
adianta trazer jovens à frente, se os perigos acometerão primeiro os que
ainda muito tem a viver?
E com essa vida curta, freqüentemente se enfrentava confusões em
registros de nomes. Por tradição, até mesmo um natimorto era registrado
como cidadão. Assim, muitos nomes tornavam-se indisponíveis sem que fossem
sequer pronunciados. Nomes comuns, como João ou Maria, já estavam beirando
à numeração LXI, enquanto que outros, como Gregório ou Coralina, ainda
estavam disponíveis para quem merecesse a honra de ser o primeiro a
"inventá-los".
Muitas mães que criassem um nome suficientemente bom, se submetiam à
burocracia toda de registrá-lo para um futuro uso. E isso também contribuía
para a cada vez maior escassez de nomes no reinado.
Conta-se uma lenda de um velho pescador, que viveu há cerca de 200
ciclos no mesmo reinado, e que foi o responsável pela secura do lago oeste.
De tanto que o homem, obcecado por terminar a construção de sua casa,
retirava água do caminho para drenar seu terreno, o lugar que antes era
cheio d'água, hoje não passa de um terreno. E como o senhor se chamava Luís
XXX, até hoje mães mais temerosas evitam colocar essa numeração em seus
filhos, quaisquer que sejam os nomes. Jovens com o complemento XXX são
inclusive malvistos pela sociedade. E precisam fazer muito esforço para
escaparem à taxação de indolentes e inescrupulosos.
Todos os nomes eram registrados num cadastro geral e comum entre
vários reinos. A transmissão de dados se dava por via oral, e não havia
outra maneira, senão a oral, de armazenar tanta informação. Assim, cada
pessoa considerada importante na sociedade, era encarregada de manter o
controle de um determinado nome. Com a simples obrigação de transmitir
verbalmente para seus descendentes a numeração em que se encontrava tal
nome, e sendo também encarregado de propagandear da maneira como bem
entendesse o seu registro, essas pessoas tinham também sua importância. O
registro de todos os nomes era feito pela rainha de cada reino, que era
obrigada a inventar uma maneira qualquer para manter esse controle. Desde
que assumira o poder, Lily I tinha feito uma lista que constava de desenhos
e símbolos, e a qual auxiliava-a no registro de novos nomes. Sem saber, ela
criara a escrita.
Capítulo 5 - DA INTERAÇÃO
A comunicação entre os reinos não era fácil. Com as grandes
distâncias e os perigos enfrentados no caminho, eles só se falavam quando
ocasionalmente se encontravam no caminho de uma busca diária por alimentos.
Mesmo assim, conseguiam manter uma lista completa e atualizada dos
habitantes de cada reinado.
Muitas histórias de povos distantes e seres bárbaros circulavam pelo
povoado, mas não havia maneira de saber se eram verdade, ou simples fruto
da imaginação. Na verdade, esse povo era de uma inteligência incrível, mas
ignorava todo esse conhecimento, abrindo mão de um possível futuro
promissor, para manterem-se no abismo da existência. Não gostavam de
mudanças, renegavam o novo. Para eles, o tradicional era aceito como certo,
sem questionar. Era assim, e pronto. A única ciência que desenvolveram, e
mesmo assim, primitivamente, foi a matemática.
Eles sabiam contar como ninguém, e desenvolveram essa habilidade graças à
necessidade de diferenciar os diferentes habitantes de nomes iguais. As
moças que aprendiam desde cedo a contar, somar e dividir, eram consideradas
mais inteligentes, e preferidas na hora do acasalamento.
Capítulo 6 - DOS PERIGOS
As informações geográficas sobre a região eram fornecidas por viajantes, seres que passavam a vida toda vagando de reino em reino, e eram sempre bem recebidos onde quer que chegassem, pois sempre traziam histórias novas e informações interessantes em sua bagagem. O mais recente viajante a chegar no reino de Lily I era Bartolomeu VII. Ele vinha (ou dizia vir) de uma terra muito distante, além das colinas geladas, e contava histórias fascinantes de gigantes que enfrentara no caminho, e paisagens estranhas por onde esteve. Ele jurava ter visto extraterrestres e coisas do tipo, e embora alguns se mostrassem céticos quanto a essas descobertas, muitos ficavam surpresos e acreditavam fielmente em suas aventuras. Baseado em histórias de viajantes é que se planejava o aprendizado das crianças, dado de forma mais ou menos organizada, com um indivíduo encarregado de passar as informações conhecidas a todas as crianças cujos pais se mostrassem interessados. Muitos eram educados em casa. Mas a maioria se reunia diariamente no salão central do reino para aprender sobre os perigos da vida. Além de uma matemática bem básica, os pequenos aprendiam noções de geografia, basicamente voltada para a região onde habitavam, informando sobre rios, armadilhas, vegetação e relevo, uma coisa ou outra de expressão lingüística, para se comunicarem adequadamente com os demais, além de muita noção de sobrevivência, inclusive com aulas práticas, ensinando a sobreviver a maluquices como decepações ou ataques de gigantes. As crianças se divertiam nas aulas, mas conheciam muitas histórias de pessoas que tiveram realmente que passar por isso. Era impossível não ter um parente direto que não tivesse sido atacado por um gigante. Ou que pelo menos a família se sentia bem em pensar que fora assim. As crianças morriam de medo de se afogarem, pois, devido a suas cabeças proeminentes, era muito difícil manter o controle do corpo. Assim, ensinava- se desde cedo que não deviam chegar perto de qualquer tipo de água, salvo sob a supervisão de um adulto. Mas elas se banhavam normalmente em pequenas piscinas ilegais feitas nas cabeceiras da montanha, ou em pequenas ilhotas formadas pelas chuvas. A comunicação entre os reinos nunca era interrompida, e sempre chegavam novos viajantes, dispostos a educar as crianças e contar seus feitos, em troca de um pouco de abrigo e comida. Esse povo também era muito solidário. Faziam questão de abrigar amigos necessitados, e até mesmo inimigos, dependendo do caso. Se encontrassem um dos seus ferido ou morto, ou paravam para prestar socorro, ou para prestar uma homenagem ao amigo que se foi.
Capítulo 7 - DO AVISO
Com tanta novidade chegando e partindo a cada dia, não foi muito
difícil para eles ficarem sabendo do ódio contido que o reino mais próximo
tinha por Lily I. Durante ciclos e ciclos, eles remoíam as mágoas, e
evitavam qualquer conflito direto. Mas ultimamente, com a proibição de
escambo por qualquer mercadoria vinda do lado leste, o reino de Mina III
chegava ao clímax de raiva. Eles estariam dispostos a armar uma guerra
civil, caso a tal barreira não fosse quebrada.
Com a notificação de uma possível guerra, os ânimos começaram a ficar
exaltados. Afinal, fazia muito tempo que não se viam soldados heróis e
batalhas por perto. E tanta matança se fazia necessária, para uma maior
seleção natural de habitantes.
Ultimamente, vinha se trabalhando dobrado, para obter alimentos para
estocagem, inclusive com crianças tendo que trabalhar para suprir as
necessidades.
O ritmo todo da aldeia tinha sido alterado. Aos poucos, descobria-se
que a crise não era só onde eles viviam. Ela se alastrava por um enorme
território, englobando todos os reinos no caminho. Por motivos similares, a
guerra era eminente. E parecia não haver maneira de se escapar.
No palácio real, Lily XVI tratava de fornecer treinamento para os
soldados, há tanto tempo inativos, além dos armamentos básicos e
rudimentares aos quais eles já estava habituados a usar. A organização do
governo estava no maior rebuliço. Não se sabia mais quem deveria fazer o
quê, e o caos tomava conta do ambiente.
Lily XVI aguardava impaciente seu chamado para o trabalho. Ela queria
conhecer novas terras, ir atrás de alimentos, enfrentar os obstáculos de
uma vez, já que não haveria garantia nenhuma de que existiria vida depois
da guerra.
As populações nos corredores ficavam cada vez mais agitadas. Havia um
clima de insatisfação no ar, é óbvio, mas o espírito aventureiro
predominava em todos. Embora demonstrassem publicamente seu repúdio pela
guerra, todos, sem exceção, alimentavam uma secreta vontade de vivenciá-la.
Capítulo 8 - DA GUERRA
Das primeiras notícias ao primeiro combate, pouco tempo se passou. Em
seguida, tropas já partiam em direção ao campo de ataque, já que ficara
estabelecido que a luta seria realizada em território neutro. O que era
para ser uma simples luta de civis, aos poucos transformara-se numa grande
guerra entre exércitos militares. Os governos, antes tão avessos ao
conflito, agora faziam questão de fomentar seus exércitos, e investir em
capacitação militar.
As ruas ficavam cada vez mais vazias. Mesmo com os acordos pré-
estabelecidos, temia-se uma invasão às cidades. As pessoas tinham medo de
sair de casa. Evitavam qualquer tipo de contato com a rua. Preferiam ficar
horas e horas sem a luz solar, a se arriscar a abrir uma janela.
Enquanto isso, combates menores se travavam. Ora com lutas braçais,
entre soldados inimigos, ora com pedaços de pau e outras armas simples. Já
se contabilizavam as primeiras mortes quando o reinado de Lily I entrou
efetivamente no conflito. Primeiro, mandaram todos os soldados disponíveis,
e mais alguns que sequer tivessem o requisito básico para lutar. Depois,
artesãos trabalharam ciclos e ciclos fornecendo armamentos e proteções,
como armaduras e escudos. Em seguida, organizou-se uma incrível empresa
bélica, e o reino prosperava cada vez mais, à medida que os soldados
deslocavam-se para os campos de batalha.
Depois de experimentar um período de desenvolvimento, como única
nação capaz de produzir seus próprios artefatos militares, o reinado
começou a se sentir ameaçado quando suas forças braçais começaram a serem
reduzidas.
Muitos morreram em combate. Outros, pelas doenças oportunas, que atacavam
justamente em tempos de guerra. O fato era que eles precisavam urgentemente
de mais combatentes, ou corriam um sério risco de perderem por falta de
forças.
A solução encontrada foi buscar aliados. Povos com os mesmos interesses,
dispostos a trocar força braçal por materiais bélicos, ou até mesmo
sacrificando parte do alimento armazenado na busca de aliados. Assim,
formaram-se duas grandes alianças: a de Lá, e a de Cá (embora eles pouco
soubessem sobre os pontos cardeais, por convenção, a de Lá refere-se ao
Oeste, enquanto que a de Cá, referia-se ao Sudeste e Leste do território
ocupado por esses seres). O reino passou a fazer parte do lado de Lá. E
acreditava-se fielmente numa vitória do outro lado, o de Cá, que embora
deixasse a desejar em matéria de armamentos, era melhor provido de pessoas.
A guerra se extendeu por vários ciclos, e muitos morreram sem saber o
desfecho do conflito. O mais curioso era que a maioria da população não
sabia ao certo por que seus compatriotas estavam brigando. Muitos
esqueceram. Outros, nem ao menos se questionavam. Era guerra. E era isso o
que importava.
Lutavam por maior liberdade de circulação nos diversos territórios. Por
menos taxas. Por mais justiça. Mas esses valores acabaram sendo
corrompidos, quando desfez-se a aliança de Cá. Já não haviam dois lados
disputando o poder, e sim um grande grupo contra todos individualmente. A
pressão era tanta, que Lily I se viu na obrigação de convocar uma reunião
extraordinária para discuti-la.
Reunidos no salão oval, os membros do governo trataram de discutir medidas
de solução. Queriam a paz, mas não saberiam transmiti-la aos inimigos. Nem
ao menos sentiam-se seguros para sair à luz do sol, quem diria deslocar-se
até um reino inimigo para pedir uma trégua? Cansados de lutar, resolveram
fazer uma mudança radical no governo. Era chegada a hora. Se os jovens
assumissem o futuro da nação, talvez houvesse maneira de preservar a vida,
já que as reservas de alimentos já estavam se esgotando. E foi assim que
Lily XVI entrou para a história do reinado. Como escolhida, desde que
nascera, já tinha seu futuro premeditado. E agora, meio que de surpresa, e
sem entender ao certo o que deveria fazer, ela assumiria o poder no raiar
do novo ciclo. Se via numa redoma de vidro. Rodeada de vistas por todos os
lados, mas mesmo assim sem saber por que lado começar a agir.
A guerra, todos sabiam mas preferiam ignorar, existia para evitar que a
existência desses seres passasse de uma simples estada sobre a terra. Todos
nascem, mas poucos vivem realmente. De que adianta passar ciclos e ciclos
sobre a terra, sem Ter feito nada de útil, nem ao menos Ter podido salvar a
vida de alguém? Sem Ter defendido seus ideais, ou lutado por seu país? Se o
mundo vivesse em paz, a vida seria muito entediante.
Capítulo 9 - DO CONFLITO
Mais ou menos quando Lily XVI começava a se habituar com a idéia totalmente surpreendedora de que seria rainha, eclodiu uma batalha que mudou a vida de todos. Ignorando qualquer tentativa anterior de paz e violando os regulamentos de conduta ética, as forças inimigas decidiram invadir o território do reinado, assumindo que eram eles os que haviam começando toda a guerra. Numa ação que durou muito menos do que se possa imaginar, centenas de civis foram mortos, em suas casas, e só escaparam aqueles que conseguiram se esconder nos lugares mais inusitados, como buracos sob a terra ou dentro de troncos suficientemente grandes. Os invasores apenas pouparam o palácio real, já que tinham consciência de seu poder de atuação, e queriam ao menos Ter com quem discutir a paz depois da guerra. Em suma, queriam exterminar o reino, mas manter a sua essência viva. Assim, apenas aqueles que se encontravam no castelo no momento do ataque é que foram preservados. Basicamente, apenas o governo atual e o novo governo, que se preparava para a posse, permaneceu vivo. Fora os poucos que se esconderam com destreza, e sobraram para relatar a história aos poderosos. Aconteceu tudo tão rápido que Lily I era incapaz de imaginar que aquilo tivesse sido feito por alguém de sua espécie. Eles realmente haviam premeditado o ataque muito bem. Não haviam brechas. Absolutamente tudo estava preservado. Sobrava apenas a nova geração de habitantes, já que a maternidade se encontrava no palácio, meia dúzia de parlamentares, e os jovens que iriam assumir o poder. A devastação era tanta que o grupo se reuniu para mudar os destinos do reinado. Declarando oficialmente sua rendição, e a quebra das barreiras para transitação de povos do Leste, eles se preocuparam mais em restabelecer seu reinado. Apesar de ficarem profundamente machucados, perdendo entes queridos e toda uma história secular de vitórias e derrotas, optaram por se estabelecer em outro lugar, próximo, na outra margem do rio.
A travessia foi difícil, mas necessária. Já do outro lado, Lily I tratou de designar cada simples habitante de seu território para criar e estabelecer um novo sub-reino, nas proximidades. Já com o plano todo arquitetado em sua mente, agora, dois ciclos depois do fim da guerra, ela já sentia novamente que tinha tudo sob controle. A reconstrução seria questão de tempo. Em breve, seu poder de dominação já seria grande o suficiente para influenciar muita gente.
Capítulo 10 - DO REPOVOAMENTO
Depois de um certo tempo, todos os "jovens" foram notificados de seus
destinos: eles partiriam, juntamente com um novo reinado vizinho, para
povoar novas regiões. A formação de casais seria feita através de uma moça
de um lado com um moço de outro, garantindo a diversificação das espécies.
Lily XVI, já completamente transformada, mal podia esperar a próxima chuva
para partir.
Num dia de chuva forte, à noite, as moças e os rapazes partiram em
revoada, em direção ao novo reino. No meio do caminho, se encontraram, e
formaram rapidamente pares. Foi tudo tão rápido, Lily XVI sentia que estava
voando, e nada garantia que ela não estivesse mesmo. O momento era ao mesmo
tempo mágico e histórico. Marcava o nascimento de uma nova era, pois cada
um ali teria o papel de formar um novo reino. Na hora, Lily não teve tempo
nem de pensar em suas preocupações de moça, como se teria capacidade de
gerar vários filhos, ou construir sua própria casa. Muito menos lembrava-se
das maldições e azares que rondavam a gente de sua terra.
Capítulo 11 - DA UNIÃO
Com seu novo marido, Lily estava feliz. Ia Ter vários filhos, em sua
maioria meninas. Os dois se estabeleceram na mesma margem do rio, só que
mais adiante, passando a figueira antiga. Acontecia tudo tão rápido. Era
tudo tão perfeito para ser verdade!
Foi então que aconteceu o choque: como ninguém consegue escapar ao
seu destino, o pai dos filhos de Lily morreu. E agora ela só pensava nessa
estúpida maldição e em como sentiria a falta dele cuidando de seus filhos.
Quando as crianças de fato nasceram, e ela sozinha precisava tomar conta de
todos, um viajante vindo de muito longe, vendo a dificuldade enfrentada
pela menina, resolveu se oferecer para ajudar. Estabelecendo-se no sub-
reino de Lily XVI, e ensinando a ela as mazelas da vida, inicou-se a
formação de uma das mais sólidas alianças de governo. Como soldado, mais
resistente, o rapaz foi capaz de "sobreviver" à maldição e Ter muitos
filhos com Lily. Logo, ela já tinha ajudantes para o trabalho de povoar o
reinado, trabalhadores braçais, soldados...
Mas como todo viajante, coçou a vontade, e o rapaz sentiu a necessidade de
partir. Novamente solitária, e sendo parente de praticamente todos que ali
viviam, se viu numa situação difícil. Mas logo, sabendo da história, muitos
viajantes apareciam para suprir as necessidades básicas da moça, ora tendo
filhos, ora ajudando na administração de seu reino. Em seguida, seu reino
já era um dos mais prósperos que se tinham notícia. Enquanto que histórias
vindas de longe contavam que Lily I enfrentava uma Segunda guerra
sangrenta, e, dizia-se, logo seria destituída do poder.
Triste com os recentes acontecimentos, mas nada podendo fazer para evitar a
ruína de sua mãe, ela pôs-se a pensar em como sua vida teria sido inútil se
ela tivesse se tornado uma simples trabalhadora braçal como queria. Em como
teria desperdiçado seu talento pulando ribanceiras, agora que sabia o que o
destino a reservava.
Era visível a transformação de caráter de Lily. De longe, via-se que ela
não era a mesma. Não pensava mais como a menina boba que sonha com um
príncipe encantado. Tinha consciência de que sua vida resumir-se-ia a
enterrar inúmeros "maridos", Ter centenas de filhos e morrer feliz por Ter
criado uma nação pacífica para seus descendentes. Isso não era simplesmente
bom. Era melhor do que qualquer coisa que ela pudesse imaginar!
Capítulo 12 - DA PAZ
Tudo corria bem, mas uma coisa vinha preocupando a rainha ultimamente. Como andariam as coisas no reino de sua mãe? Ela agora se culpava por Ter se estabelecido tão longe de sua casa, e ao mesmo tempo se surpreendia por não reconhecer seu próprio reino como um lar. Depois de muito matutar, decide sair ela mesma atrás dos soldados da guarda nacional. Interpelando-os, descobre que a Segunda guerra acabara há pouco tempo, e que do antigo reino, restara apenas os soldados que se converteram para não morrer. Sua mãe havia morrido. Não tinha nada confirmado, mas ela sentia isso. E também sentia a necessidade de voltar ao lugar do conflito, organizar alguma espécie de ato fúnebre para aquela que a gerou. Acompanhada de uma dúzia de soldados, partiu em uma viagem com destino ao seu antigo reino. No caminho, para suprir seus caprichos numa noite de chuva, dormiu com um deles, que veio a morrer logo em seguida. Chegando ao seu antigo reino, encontrou-o completamente destruído. Não havia vestígio algum de que houvera antes uma civilização sobre aquela terra. Teve vontade de chorar, de gritar, de sorrir. Um turbilhão de pensamentos lhe veio à mente. Mas nada que pudesse ser aproveitado na situação. Optou por chorar. Chorou. Quando já não tinha mais lágrimas para escorrer, improvisou uma cruz com gravetos de madeira, fincou à terra, e tratou de voltar para sua nova casa. E agora, admitindo que a mesma pudesse ser um lar.
Capítulo 13 - DA PERCEPÇÃO
Depois de alguns ciclos, tendo filhos e obtendo tudo o que quisesse na vida, um dia Lily XVI parou para refletir. Decidiu que não ia trabalhar. Simplesmente ficou em casa, pensando. Pensava no quanto era feliz e inocente. Em como tinha conduzido as coisas até então, e no tanto que tinha amadurecido. Comparou seus sonhos de antes, com os de agora. Antes, pretendia conquistar a admiração dos amigos. Agora, sonhava com a veneração do mundo. Depois de certo tempo, percebeu a verdade que preferia ignorar: Lily XVI vinha agindo exatamente como sua mãe! Nas relações amorosas, tinha poder para escolher o homem que quisesse, mesmo sabendo que o mesmo morreria após o coito. Nas relações diplomáticas, evitava qualquer tipo de conflito, desde que os acordos não fossem contra seus princípios. Por diversas vezes, se viu precisando contornar ameaças de guerra, que enfrentou com pulso firme. E cada vez mais se assemelhava a sua mãe na forma de agir e pensar. Agora compreendia por que a vida era como era. Por que as coisas aconteciam.
Capítulo 14 - DA PATÉTICA EXISTÊNCIA
Assim, Lily constata que sua vida não passa de fazer cada vez mais filhos, e deixar que os próprios filhos cuidem-se uns aos outros. E isso resume a existência dessas tribos, que não exerceram influência alguma no Reino Animal, mas cuja importância é desprezada cada vez mais a cada geração. A guerra, para eles, representava a única forma de diversão. Eles esperavam ansiosamente por uma guerra, e feliz dizia-se daquele que conseguisse presenciá-la ao menos uma vez. A morte era considerada eterna. Morreu, morreu-se. Então eles tratavam de fazer sua história na terra antes de irem embora. Como não existisse uma maneira de transmitir as histórias de geração em geração, era requerido um esforço muito maior para fazer parte do passado de um povo. E os poucos que conseguiam, de forma anônima ou presente, eram venerados durante anos, ou enquanto ainda existisse alguém que soubesse da história, porque aquele povo tinha um fascínio imenso por fatos e coisas do passado. Talvez por quererem vivenciá-los. Talvez por acharem-nos incríveis.
Capítulo 15 - DA ESCOLHA
Quando os primeiros filhos de Lily XVI atingem a maioridade, e uma
frente fria se aproxima, ela vê-se diante da necessidade de organizar
expedições de povoamento. Primeiro, ela mesma precisa tratar das relações
diplomáticas com os reinos vizinhos, de forma que, na próxima chuva,
jogados ao acaso, esses jovens formem seus pares. E é sempre importante
soltar sempre o mesmo número de homens e mulheres, de modo que todos tenham
direito de formar casal.
Apenas agora Lily compreendia a necessidade de escolher uma filha,
desde cedo, para assumir seu trono no futuro. Interromper sonhos de moças
da corte se fazia de extrema importância. Mas ela ao menos teve a sensatez
de indagar os jovens antes de mandá-los na missão. Era muito importante que
tudo acontecesse de forma adequada, pois esses jovens seriam os futuros
reis (se sobrevivessem) e rainhas de povoados distantes.
Poucos eram os que, sem sucesso, retornavam para casa depois de um tempo.
Essa atitude era considerada de extremo embaraço, mas no entanto, acontecia
com mais freqüência de que se tinha notícia. Nesses casos, a única coisa
que se podia fazer era aceitar o filho novamente e destiná-lo à procriação
do castelo. E era assim que mantinham-se as populações dos povoados.
Até o momento, Lily não tinha uma noção tão grande de sua responsabilidade
perante esses meninos e meninas. Ela seria responsável pelo destino de
dezenas de jovens, cheios de ambições e espíritos renovadores. Ela poderia
mudar o mundo, assim como sua mãe o fez.
Capítulo 16 - DA VIDA LONGA
Tendo que viver até 100 vezes mais que um indivíduo comum, por não
estar exposta a perigo algum, Lily aos poucos começa a cansar de sua vida,
cheia de regalias e agrados. Ela começa a preparar seu próprio alimento, a
reduzir as horas de trabalho de seus subordinados, e todos começam a vê-la
como uma boa líder. Sua reputação torna-se famosa em todos os quatro cantos
da colina. Na redondeza, todos já ouviram falar do regime democrático de
Lily XVI. Mas ela, que não era nem um pouco exibida, evitava gabar-se de
seus feitos.
Depois de um certo tempo, Lily passou a questionar certas passagens
de sua vida. Devia Ter lutado na primeira guerra, Ter ido atrás de sua mãe
quando as primeiras notícias sobre a Segunda guerra chegaram, ou até mesmo
tentado ser uma operária, antes de entregar-se completamente à vida de
rainha.
Ela estava acostumada à vida boa. E Ter sempre do bom e do melhor, às
vezes pode cansar.
Tentando evitar cada vez mais esse tipo de pensamento, ela desejava,
secretamente, que houvesse uma nova guerra, para esquentar as relações
entre seu povo, que ela mesma considerava ser muito "sem graça".
Seu inconsciente passava horas e horas planejando ataques, epidemias,
imaginando gigantes e outros seres atacando o reinado, e coisas incríveis e
bizarras corroendo as casas. Aquela vida pacata e imutável já estava se
tornando cansativa. Acordar cedo todo dia e fazer sempre a mesma coisa não
era algo que tivesse muito a ver com Lily.
Capítulo 17 - DA DESTRUIÇÃO
Depois de muito mentalizar a destruição, o fim chega, sua comunidade acaba por desmoronar após um sério temporal. Muitos morrem de frio, outros soterrados. Praticamente todos ficam desabrigados, e Lily, que sobrevive graças ao seu castelo forte e resistente, considera procurar o paradeiro de sua mãe, já que, como já vinha pensando antes, passa a acreditar que ela ainda pode estar viva. O temporal veio tanto como um choque, que eles sequer se protegeram. Os soldados da guarda nacional não conseguiram prevê-lo, e muito menos agora estavam vivos para se justificarem. Ao invés de buscar explicações para o incidente, ou chorar as mágoas derramadas, Lily decide partir para prováveis lugares onde pudesse encontrar sua mãe. Reinos próximos de sua antiga casa. Tecnicamente, qualquer lugar na redondeza, era um lugar em potencial. Antes de partir Lily fez um levantamento dos estragos. No lugar onde antes havia um reinado completo, agora não passava de um monte de areia, plana, e sem utilidade. Não havia maneira de reerguê-lo, principalmente porque Lily já estava cansada dessa vida. E via nisso a oportunidade ideal para mudar de rumo. Podia finalmente fazer as coisas que planejava. Sem Ter que dar satisfações a ninguém.
Capítulo 18 - DO REENCONTRO
Lily parte sozinha, sem saber ao certo para onde ia. No caminho,
encontra muitos perigos, mas que são facilmente contornados. Uma pequena
chuva quase traz os planos da moça por água abaixo, mas ela consegue
abrigar-se em uma árvore baixa.
Depois de muito perambular por quase 1 ciclo, e se autodenominando
"viajante", chega finalmente ao primeiro reino do caminho. Lá, é bem
recebida por todos, e é convidada a falar sobre seu reino. Ela fala com
muito orgulho do que antes fora seu lar, e todos reconhecem que tudo o que
aconteceu não fora culpa dela.
Após uma noite, sem sinal de sua mãe por perto, decide partir, e leva
consigo um amigo que fizera no lugar.
A viagem torna-se mais animada, porque os dois vão conversando ao
longo do caminho. O senhor que a acompanhava era um excelente contador de
histórias, que, mesmo sendo inventadas, pareciam ser muito reais. Lily
tinha sido advertida antes de partir sobre as invenções desse homem,
incrivelmente criativo, que passara a vida toda vivendo no reino como um
medroso coletor de alimentos.
Entre eles, não havia uma relação de possível paixão. Apenas um
carinho de amigos. De pessoas que querem se conhecer melhor. Sem segundas
intenções.
O trajeto até o reinado seguinte aconteceu num pulo. Afinal, quando a
gente aproveita bem o tempo, fazendo coisas que gosta, ele parece que passa
muito mais rápido do que quando estamos entediados!
Chegando no reino seguinte, muito próximo à margem do rio que deu
origem ao primeiro local do reinado de sua mãe, Lily reconhece muita gente.
Muitos de seus ex-amigos da corte do reinado de Lily I estão por lá. E
parece que ela está perto, muito perto de reencontrar sua mãe.
Ao chegarem para pedir abrigo por uma noite, uma surpresa: a dona da
estalagem local é exatamente Lily I! A filha reconhece a mãe, mas não é
reconhecida. Numa primeira oportunidade, Lily XVI fica muito abalada pelo
fato de sua mãe não saber quem ela é, mas depois de um tempo, acaba até
entendendo que depois de tudo o que tinha acontecido, ela tivesse esquecido
um pouco sobre sua história. Ela achou que sua mãe estava um pouco mudada.
Diferente.
Lily também sabia muito bem como era Ter tantos filhos e mal saber o
nome deles. Sua mãe transformara-se numa patética artesã dona de hotel. E
era difícil de imaginá-la trabalhando nessas circunstâncias.
Capítulo 19 - DA CONSTATAÇÃO
Refletindo sobre tudo o que aconteceu na sua vida, desde o momento em
que nasceu até a destruição de seu reino e o reencontro com sua mãe, Lily
passa a achar que, deveras, sua vida tinha sido muito boa da maneira que
foi. Talvez ela não tivesse se divertido tanto se se tornasse uma simples
operária como queria no princípio. Teria se aventurado mais, divertido
mais, porém, vivido menos. E, pesando qualidade e quantidade, preferiu
ficar com a quantidade. Era melhor viver muito mais, a Ter que se arriscar
muito. Era melhor Ter representado uma sociedade, a Ter lutado num front de
batalha.
Como operária, suas maiores alegrias seriam os obstáculos no caminho.
Sua maior obrigação, teria sido avisar aos demais sobre os perigos. Sua
maior diversão, contar as histórias assustadoras, mas reais.
No fundo, como rainha, ela tinha experenciado tudo isso e muito mais.
E ainda tinha muito mais histórias para contar. Não tinha simplesmente
entrado para a história. Tinha feito-a com as próprias mãos!
Talvez sua vida tivesse agora um sentido. Não que não o tivesse
antes, mas só agora ela era capaz de perceber o quanto tinha sido
importante. E o quanto influenciara a vida de milhares de pessoas. Mesmo
que indiretamente.
Capítulo 20 - DA VELHICE
Lily XVI, mesmo debaixo de controvérsias, leva sua mãe para viver consigo em seu antigo reino. Seu retorno é festejado. Ela se vê depois em situação semelhante a sua mãe, de barrar entrada de inimigos, e opta por liberar. Passa o governo para uma de suas filhas, e decide, em busca de um sentido na vida, tentar ser operária. Morre tentando pegar uma folha 20 vezes maior que seu peso. Lily só suportava 18. Ela não passava de uma formiga comum. Dessas que vivem em um jardim e cismam em dizer que é um território grande e perigoso...