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Enquanto pai, mãe e filho desempenham seus papéis, a atmosfera da casa entra discretamente num clima pesado. O pai até se pergunta "onde estará meu filho?!". A mãe, seguindo a rotina de limpeza da casa, chega ao quarto. "Sai daí porque quero limpar!". Vê o filho mal em cima da cama. Digamos que ele exclame "Estou mal!". E a mãe, diante dessa árdua confissão, de um filho que esteve sofrendo durante a manhã inteira e só agora tem coragem de dizê-lo, nada faz. Ou melhor, consola-o. Depois de um certo tempo, de um silêncio constrangedor em que se questiona a nossa existência e nosso papel no mundo, o filho torna a queixar-se. Era grave? Nem tanto. Mas inspirava cuidados.
A mãe chama o pai. Eles discutem. O que fazer? O filho, no desespero, consegue captar algumas palavras. Não compreende. O pai decide levá-lo ao Pronto Socorro. A mãe... bom, como mãe atenciosa que era, insiste que se vá a uma clínica especializada. Diante de tanta divergência, acaba sendo no Posto de Saúde Municipal mesmo. Aquele em que até o SUS se esquece de lembrar! Depois de um certo impasse na recepção, o filho é mandado para o fim do corredor. Na salinha à esquerda, alguém lê o papelzinho que lhe fizeram trazer à mão, murmura alguma coisa inaudível, e prepara a inalação. Ao mesmo tempo, outra enfermeirazinha, ao fundo da cena, prepara uma injeção. É tão grave assim? Depois de um certo tempo, a confirmação temida pelo filho: a agulha afiada era para ele mesmo! Digamos que seja apenas um antialérgico. Simples assim.
Depois de um certo tempo, o filho começa a perder o controle de si. Mas é forte. Não vê por que reclamar. Quando sua vida começa a passar como um filmezinho, desses que se diz ver quando a pessoa está para morrer, ele apavora-se. Grita. Implora por ajuda. As pessoas da sala? Riem! O que poderia estar acontecendo, senão um simples medo de injeção? Sob insistência, e talvez um certo peso na consciência, de ver um ser pedindo ajuda, e não fazer nada, decidem medir a pressão de nosso personagem. Como estivesse muito baixa, uma cara de suspense. Alguém o toma pelo braço e carrega para outra sala, às pressas. O filho já não distingue mais as formas. Apenas anda. Deixa-se ser conduzido. Mas tem consciência de si. Respira ruidosamente. Desprendendo muito esforço, enche e esvazia seus pulmõezinhos pouco usados. O médico, preocupado, pede que lhe meçam a pressão novamente. Baixa. Muito baixa. Internem-no! Macas, dessas reservadas à emergência, aparecem em cena. Soro. Depois de um tempo, o filho recupera o rubor da face. Passa a ter noção de onde está! Bom, é um posto de saúde do Sus, nada muda esse fato. Mas ele está na emergência!
Junta forças sabe-se lá de onde. Ergue-se parcialmente e olha ao redor. O que vê? Talvez a cena mais bizarra de sua vida! Seus companheiros de sala, desde uma menininha que se quebrara tentando escalar a parede de casa, passando por um senhor que cismava em cuspir no chão e tentava a todo custo se livrar dos aparelhos, e um rapaz que nada fazia, apenas gemia, talvez nem o notassem. Mas ele sim. Despertou-lhe uma incrível solidariedade dele por parte de sua vizinha de cama. Uma senhora. Provavelmente dormindo. Sorriu para ela. Ela parecia sorrir-lhe. Em seguida, médicos se aproximam. Aparelhos. Não eram para ele. Eram para ela. Depois de muita insistência, o diagnóstico: "Está morta". Num gesto de tristeza, retira o estetoscópio do pescoço. Desabafa.
E o filho? Estivera ali por um bom tempo. Ao lado de um cadáver? A quanto tempo ela estaria morta? Era só nisso que ele pensava. Tinha tido a morte ao seu lado. Poderia ter sido ele. Mas foi ela.
Percebendo sua visível melhora, resolvem colocá-lo no corredor. Sentado. Ainda com o soro, mas numa posição mais favorável para celebrar o admirável mundo estranho. Novos companheiros. Novos personagens. Uma família inteira, três gerações, e todos compartilhando um lanche. Um senhor. Muito simpático, por sinal. E que não perdia o humor, mesmo estando há dois dias ali, sentado. Esperando por um leito no hospital. Uma menina, de cadeira de rodas. Meio cambaleante. Lutando contra o sono. E sua irmã. Bondosa irmã! Vê o drama do filho, e se oferece para chamar alguém de sua família. E vai. Mesmo sem saber a quem ajudava. Apenas... queria ajudar. Ser cordial. E então, o pai aparece. Dá um jeito. Conversa com as enfermeiras. Faz com que o filho seja removido de tal cena. E sucede. O liberta desse mal. Desse exemplo do descaso com a saúde pública. Porém as marcas deixadas no filho, permaneceriam para sempre. Ele jamais seria o mesmo. Jamais veria o mundo com o mesmos olhos inocentes...
Essa história poderia ter passado despercebida. Exceto se o filho não fosse eu. Logo no início do mês de maio...