Se eu pudesse escolher o que ser na minha próxima vida, escolheria algo
inusitado. Nada de querer voltar como um pássaro, para voar cada vez mais
alto, ou como uma mosquinha, dessas que vivem se intrometendo em tudo
quanto é cantinho. Eu voltaria como um espelho. Um bruto espelho. Mas eu
seria um espelho bonzinho.
As pessoas, ao acordarem, se sentem um lixo após se olharem no espelho. Eu
acabaria com isso. Eu acabaria com o mau humor! Todos acordariam de bem com
a vida, se sentindo a estrela principal do melhor filme que pode existir: a
própria vida.
Enquanto uma mosca tem a oportunidade de conhecer muitas coisas em muitos
lugares, um espelho vai além. Descobre tudo sobre um determinado fato.
Registra nos mínimos detalhes uma cena corriqueira, transformando-a em algo
ainda mais magnífico. Ao invés de passar pelas vidas das pessoas, o espelho
é contemplado, venerado. Impossível passar por um e não dar uma espiadinha.
Um espelho conhece a mente das pessoas a fundo. Ninguém mente para um
espelho. De frente a ele, se é o que é. Só ele é capaz de perceber aqueles
quilinhos a mais, ou até mesmo mostrar alguns que ainda nem existem, apenas
para assustar seus donos.
Eu seria admirada, adorada, idolatrada. Embora egoísta, meu sonho não é
impossível. Quem sabe um dia eu não apodreço e viro moldura de espelho de
riquinho?