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A torneira gotejante, há muito esquecida, já nem importava. Havia
outros ruídos acontecendo ao redor. Carros passavam em alta velocidade na
rua ao lado, atordoados. Um grito era suspendido no ar. E, no meio deste
silêncio inóspito, ainda sobrava espaço para os pássaros cantarem e os
gatos miarem. Sentado na posição de destaque do banheiro, recordava
mentalmente os eventos do dia. Passar na repartição antes do meio dia,
almoçar com a sogra. Era tanta coisa que fazia questão de omitir as
obrigações diárias. Apenas enumerava itens exclusivos daquele dia, como ir
ao primeiro recital de piano de sua filha.
Ao cabo de alguns minutos, conseguiu livrar-se da barulheira habitual
da rua. Neste instante, era capaz de perceber um grilo crispando no
campinho da esquina. Acostumava-se à situação. De certa forma, desejava que
essa situação de alívio durasse para sempre. Mas era egoísta demais para
querer para si um trono, por mais metafórico que seja. Onde fica o espírito
de sociabilidade quando a porta do banheiro está trancada?
De repente, passou a estranhar o movimento - o mundo lhe voltava,
trazendo à tona os acontecimentos. Por que tão cedo e tanto movimento nas
ruas? Era feriado, data especial? Será que seu relógio estava atrasado?
E foi assim, perdido em devaneios, que ele notou a pequena porção do
forro do teto que caíra no banheiro. Sorriu, como ninguém antes sorriu ao
ver algo semelhante. Seu sorriso sarcástico, indicando que a vida é plena
se vivida deixando-se de lado até os compromissos, mas nunca esquecendo das
pequenas coisas.