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Fiction » Fantasy » Como Num Conto de Fadas font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: gabrory
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Fantasy - Reviews: 1 - Published: 01-31-04 - Updated: 01-31-04 - id:1512887
Na casa de Ana, tudo era ridiculamente organizado. Nada ficava fora do lugar. Tudo era servido em potes. Carne em potes, margarina em potes. Havia frascos coloridos para o café, o macarrão e o arroz. E todos os recipientes encaixavam-se pateticamente às prateleiras do armário.

Não havia televisão, geladeira, ou qualquer sinal de progresso. Havia, porém, um vasilhame revestido de isopor, coberto de pedrinhas de gelo coloridas, onde se punham os alimentos congelados. Mas as pedras de gelo precisavam ser repostas a cada cinco ou seis dias, numa tarefa tão árdua quanto pedir água emprestada para a vizinha.

As horas eram longas, não haviam sinais de tecnologia. As crianças, paradas no tempo, brincavam de cantigas de roda. A menina tinha uma casa de bonecas tão grande que ali cabia ela e o cachorro. O menino, a pedido, ganhara uma pista de carrinho de rolimã no pátio. Mas brincava sempre sozinho, já que os meninos da redondeza eram muito perigosos para se conviver. De vez em quando aparecia um menino de terno para brincar com ele, mas que nunca dissera seu nome. Uma mão grande o largava no pátio, e passavam horas de diversão. Mas o tempo ia rápido, e nem percebiam que já era tarde novamente.

Ana, a mãe, vivia como num conto de fadas. Sentava-se à mesa vestida com corpetes e saias à antiga. Escolhia os cardápios das refeições baseada no que se lembrava de sua infância, a qual teria sido preparada por sua mãe, que também se baseava em sua infância, e assim por diante. Acreditava ser descendente das mais finas cortes, e ninguém jamais duvidara disso. Receber um contive para jantar em casa de Ana era o sonho das mulheres fúteis do povoado. Todos tinham curiosidade em conhecer este mundo tão diferente, sem aparatos eletrônicos ou relógios pendurados nas paredes.

Quando o sol se punha, as crianças sabiam que deviam se deslocar para suas camas. Em seguida, Ana passava nos dois quartos e beijava-os na testa. Era o beijo mais puro e profundo que se pudesse imaginar. Tão profundo que as crianças esperavam o tempo passar, pacientemente, para à noite receberem esse inigualável carinho. Além do beijo estalado, cobria-os com carinho. E também se retirava para dormir. Às vezes, quando um filho estivesse doente, dormia ali, na cama dele, que era suficientemente grande para acomodá-la.

Assim que o sol nascia novamente, era tempo de se levantar. O café da manhã estava sempre posto ao raiar do dia. As crianças punham suas mais lindas roupas para a aquela que consideravam ser a mais importante refeição do dia. Comiam ali os três, pratos na mesa, potes por tudo, frascos, vidrinhos, tudo devidamente etiquetado. Não comiam patê de frango ou presunto: seus pães eram recheados com o mais fino foie gras francês, e completados com uma camada bem fina de ricota mineira. O pão, nesse caso, era integral. Ana não queria que seus filhos caíssem na tentação das calorias. Eles jamais tinham visto outro tipo de pão, portanto nem questionavam seu sabor.

Depois de um tempo, aparecia a professora das crianças, que as ensinaria os princípios básicos da escola. Aprendiam a escrever e a contar, noções de saúde, faziam experimentos físicos, e ainda tinham aulas de dança e etiqueta. O menino, dois anos mais velho, já era um excelente condutor. A menina, ainda inocentemente pequena, aos poucos aprendia os princípios básicos da lida da casa. Era como se aquela casa fosse um pedacinho do passado, que se esqueceu de evoluir. Seria um belo retrato do século XVIII, exceto pelo computador de Ana, muito bem escondido, e utilizado para se comunicar com reinos distantes.

Não havia nenhum outro sinal de progresso naquela casa, em estilo vitoriano, com colunas que denunciavam que as leis da gravidade esqueciam-se de agir por completo. A casa era perfeita demais. Seus moradores, tinham muita classe. Mas aos quinze anos, porém, a menina fugiria de casa nas mãos de um rapaz mais velho. E o rapaz, aos dezessete, ao sair atrás da irmã, descobriria as maravilhas da vida e nunca mais iria querer voltar. A casa ficaria muito só com Ana. E ela acabaria por se casar com um homem bruto. Rude até no olhar; que, por puro tédio, acabou com todo o esquema de organização de Ana. Comprou até uma geladeira!

O conto de fadas se foi, mas permanece na memória desses três seres ilustres, que um dia olharão para trás e sentirão compaixão e ternura. Afinal, quem não invejaria seres assim, tão perfeitos? Ainda mais depois de transformados em simples exemplares da vida comum...



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