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Assim que notou seus olhinhos brilhantes curiosos - abertos, - sua mãe juntou-se à ela. Explicou-lhe que tudo aquilo se fazia necessário porque fora metralhada há alguns dias. Os médicos consideravam um milagre ela ainda estar viva: 29 furos. Podia ser considerada uma verdadeira peneira humana. Quiçá acontecesse como nos desenhos, de se tomar água e o líquido escapar-lhe pelos furinhos.
Porém ela não era capaz de compreender o que se sucedia e queria ir logo para casa brincar. Sentia fome, e de repente não sentia. Seus dias eram todos assim. O tédio da vida era representado pelo verde catódico das paredes, salpicado pelo azul colorido do avental do cara que lhe causava o alívio de todo dia. Era eternamente grata àquele senhor de tantas agulhas!
Quando já não agüentava mais o barulho da sala de espera, saiu sorrateiramente. Era tão bom ver a rua que nem notou a nuvem negra que se aproximava. Quando já estava no meio dos carros, tentou correr. Tentou gritar: inutilmente. A selva de concreto era incapaz de escutar seus gritos. Debateu-se até o último instante, porém não sobreviveu. Mas, talvez, tenha percebido a grande ironia da vida: escapamos dos maiores problemas, enquanto somos frágeis demais ante novas dificuldades.