Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search Login Register Extras
Fiction » Fantasy » Medo de Trovão font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: gabrory
Fiction Rated: K - Portuguese - Fantasy/Supernatural - Published: 01-31-04 - Updated: 01-31-04 - id:1512988
Ele era forte, lindo, maravilhoso; mas tinha medo de trovão. Nem era medo do barulho, ou irritação pela luzinha. O medo dele era que um raio caísse e partisse sua mãezinha exatamente ao meio, tanto que quando caiu ele não conseguiu chorar sobre o túmulo. Pelo contrário, só sorria. Ria porque viu sua mãe partida ao meio. Ria porque o raio tinha caído nela e não nele. Ria porque na hora tinha apontado para a mãe e dito: "Eu avisei." Sua mãe era economista. Tinha feito toda a casa com caixas de sapato, e os vidros eram sobras de celofane colorido do último Natal. Via o mundo cor-de-rosa e lilás da janela de seu quarto. Justo ele, tão masculino e tão bonito, sem a mãe, ficou sozinho no mundo. A mulher abandonara-o para ter um caso com o filho adotivo. A avó ficou com medo de ter seu corpo dividido ao meio e tratou de se matar inteirinha, de "causas naturais" (envenenamento). O pai era retardado, tinha o Mal de Alzheimer no último estágio. Sequer lembrava que conhecia o filho. Acordava todo dia, olhava pela janela azul e se apresentava ao filho, cada dia com uma profissão diferente. Era cego. Fora daltônico. Ninguém sabia o que ele via de tão interessante pela janela. Nem o filho sabia! Até que de tanto não saber de nada, o homem já feito pela idade, ganhou na loteria. Era bonito novamente. E desejado pelas mulheres, que não sabiam de seu terrível hábito de roer as unhas dos pés. Mas era fã mesmo de pizza de forno. E numa dessas idas ao restaurante, encontrou uma barata partida na massa. O que mais o intrigava era onde tinha parado a outra metade. Engolira? Vendo o bicho, não pôde deixar de compará-lo à imagem de sua mãe, e riu. Um fina e sarcástica gargalhada, que estremeceu as paredes de vidro do lugar. O restaurante chique fora obrigado a pagar-lhe infinitas refeições grátis por conta do incidente. Nem gostava tanto assim da comida, mas ia sempre. E fazia questão de levar os novos amigos de sua vida de rico. Ao final, dizia "Põe na minha conta!". O garçom tinia de raiva, mas sorria, resignado. Tinha direito, mas enjoou de sua comida favorita. Passou mal. Queria comer pernil de porco. Com costeletas! E bastante cerveja sem álcool direto do gargalo. Mas odiava tudo que fosse partido e lembrasse a mãe. Deveria comer o bicho inteiro! Combinou com os amigos que acharam estranho, ele embuchou. Morreu inteiro, pois era alérgico a maçã. E o homem ainda foi cortado por engano, e enterrado todinho aos pedaços, ao som de raios, como sua mãe.


Return to Top