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Aceitar mudanças é algo que todos devemos saber fazer, mas nem sempre temos posses para isso.
A história abaixo - daquelas que se diz que teria acontecido "em minha cidade", mas que no fundo não passa de uma ficção - serve bem para mostrar o quanto mudanças são importantes.
Era uma vez uma professora rancorosa, severa e de mal com a vida, que se recusava terminantemente a mudar seu método de ensino, apesar das inúmeras insistências de seu supervisor. Por conta dessas "qualidades", acabou sendo posta para dar aula em uma das séries inicias - afinal de contas, colocá-la para dar aula para adolescentes seria um pouco arriscado demais.
Consta que aquela professora lecionava há 25 anos usando o mesmo método. Só que a Geografia, sua disciplina, havia evoluído muito nos últimos anos. Mas ela parecia ignorar a ação do tempo. Se preocupava em "enfiar" a matéria na cabeça das criancinhas, e recusava-se a consultar qualquer obra ou referência moderna. Tinha um ponto de vista, e não queria mudá-lo. Por simples comodidade.
Um dos alunos mais ilustres da escola - vamos chamá-lo de Joãozinho - iria ser seu aluno neste ano. O garoto, muito disciplinado e esperto, era filho de um geógrafo muito famoso. Com essa a professora não contava! Mas não é preciso ser filho de geógrafo para perceber que as coisas mudam...
Numa de suas aulas de abertura, ela decidiu (aliás, como sempre o fazia) ensinar o nome dos estados e capitais do Brasil. Ensinar é maneira de dizer. Ela queria que todos os alunos os decorassem!
Pegou um mapa, começou de leve. Mostrou-lhes seu próprio estado, cuja capital todos sabiam de cor. Bom, nem todos. Mas os que não sabiam fizeram questão de se juntar ao coro para evitar serem taxados de estúpidos logo no início do semestre.
São Paulo ali, Cuiabá aqui, a professora foi ensinando-lhes estado por estado, capital por capital. Mas quando chegou ao final, surpreendeu-se com a pergunta de seu aluno-ilustre:
- Mas e Tocantins? Minha família veio toda de lá pouco antes de eu nascer.
A professora, que não tinha nem idéia do que se tratava, não quis sair por baixo:
- Toca o quê? Saiba que é feio ficar inventando coisas. Tenho absoluta certeza que você está falando de uma cidade pequena, ou até nem isso. Agora fique quieto e deixe-me prosseguir minha aula. Ah, antes que me esqueça, quero todos os estados e capitais decorados até segunda-feira! Valendo nota.
A aula prosseguiu em seu ritmo normal, mas acima da cabeça de Joãozinho era possível ver uma interrogação gigante. Ver não, mas perceber.
Ao chegar em casa, o menino correu logo para seu pai, e perguntou-lhe novamente sobre suas origens:
- Sua mãe e eu viemos de Palmas montados em lombos de burros. No início, achávamos que não ia dar muito certo nossa viagem. Mas cá estamos para provar que esse Brasil só tem tamanho.
O menino, que parecia mais interessado, na cidade do que na história, indagou:
- Palmas?
- Sim, Palmas, a capital do estado de Tocantins.
- Tem certeza?
- Absoluta - e mostrou-lhe um mapa atualizado do país.
No dia seguinte, Joãozinho levou o mapa para a professora. Ele sabia que estava certo e queria provar-lhe. Na primeira oportunidade, entregou-lhe. A professora, diante de um mapa um tanto diferente do que possuía, ficou intrigada. Chegou achar que aquilo era piada. Ficou tensa por alguns instantes. E acabou tendo que suspender as aulas.
Imagine só, uma professora de quarta série primária que não lê jornal, não vê tevê, e muito menos admitia ler livros mais recentes sobre o assunto que lecionava. Agora imagine alguém que não sabia da existência de estados como Roraima, Amapá e Tocantins! Para um leigo, isso parece muito normal. Mas imagine para uma professora de Geografia!
Sua teoria sobre como "os rios não mudaram de lugar, portanto não preciso mudar meu método de ensino" foi por água abaixo em segundos. Ela chegou a consultar inúmeras fontes para certificar-se de que seu célebre aluno estava certo. E estava. Nos últimos 15 anos, três estados haviam sido inseridos em nosso território. Ao norte de nosso país. E, pasme-se: outros 10 estados estariam por surgir!
A partir daquele momento, a professora resolveu que essa história de evitar mudanças não poderia continuar. Aos poucos, revolucionou seu método de ensino, e hoje é uma das professoras mais bem pagas da faculdade local - aliás, tendo Joãozinho como um de seus alunos.
É, as coisas mudam. Mudar é viver de acordo com a realidade. Não aceitar mudanças é sinônimo de ignorância.