Um tiro interrompe o vazio da noite. Antes que pudesse refletir onde estava, ouviu um avião voando baixo, muito baixo. Indignava-se por ter aceitado comprar uma casa tão próxima à saída do aeroporto, mais do que ter sido acordado em plena madrugada pela morte suicida do vizinho. Ainda não sabia da incrível história de seu companheiro de reclamações ao aeroporto, um sujeito já enrugado pela idade, mas que ainda mantinha um certo aspecto jovial ao lidar com as pessoas. Tinha uns trejeitos esquisitos e se mudara para ali por sugestão de seu psiquiatra. Tinha medo do barulho dos aviões cortando a imensidão do céu em alta velocidade, e seu terapeuta havia recomendado que se mudasse para perto de um aeroporto, de modo que pudesse se acostumar ao barulho da turbina desses monstros dos ares. Porém o costume, no entanto, nunca veio. Passados 7 anos, e ainda abalado pela porte prematura da mulher, ele decide se matar. Assim, tão simples. Matou-se por ter medo de avião, sem nunca ter estado em um. E seu vizinho, que precisaria acordar cedo para ir ao trabalho, acordou com o ruído do tiro, desligou o despertador num impulso, e acabou perdendo a reunião mais importante de sua vida. Fora demitido. Despejado. Já se passaram 7 meses, e ele segue pedindo esmola no aeroporto. Dorme num banco do estacionamento. Às vezes, quando está vago, consegue permissão do vigia para dormir no hangar dos pequenos aviões. O problema é que o bendito hangar quase nunca está vago! Mas sabe se virar. Com o dinheiro que ganha, alimenta-se bem. Vez por outra, recebe alguma gorjeta generosa por cuidar das malas de alguém. Mendigo de terno e gravata, mesmo já gastos pelo tempo, realmente inspira respeito. E pensar que tudo isso aconteceu porque inventaram o avião! E a psicanálise...