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O chão é de certa forma antigo. Percebem-se facilmente ranhuras no piso. É também de madeira, talvez ipê, ou alguma outra árvore menos nobre. Sua cor é clara, e possui poucas e dispersas manchas. Forma desenhos nas diagonais, se modo que uma vista panorâmica rápida possa causar estupefação, pela paciência que os pedreiros tiveram em dispô-los de tal maneira.
O rodapé, que circunda todo o quarto, é feito de madeira, pintado da cor da porta e da janela. Há falhas e desníveis em determinados pontos, além de um cretino formigueiro em um dos cantos.
O quarto possui um total de duas tomadas e um interruptor. Suas tonalidades demonstram que um dia foram dourados, mas hoje não passam de caixas de luz enferrujadas, já acostumadas a sofrerem a ação do tempo. Uma das tomadas está desencapada, mas mesmo assim não deixa de ser a mais usada. A outra, coitada, recebe um fluxo de fios tão intenso que é de se admirar o fato de ainda não ter deixado de funcionar. São tomadas guerreiras, acostumadas a servirem de descanso para os mais diversos plugs.
As camas são idênticas. São de madeira pura e nobre, pintadas de branco e com um leve sombreamento azul nas encostas. Suas quatro extremidades são arredondadas, dando uma melhor idéia de repouso. As colchas são azuis, com detalhes em branco, que, superpostas à cama, formam um conjunto harmonioso. Sobre uma das camas, há uma almofada e um urso. Na outra, avistam-se dezenas de cadernos, livros, papéis e folhas. Neste momento, há um casaco sobre a cama de entulhos. Ele está ali, jogado ao acaso, com as encostas retorcidas. Pertence, certamente, a alguém que acabara de chegar, cansado, e sem paciência para guardá-lo.
O guarda-roupas é particularmente interessante. Todo branco, com puxadores dourados. Fora mal montado. Nele, percebem-se portas e gavetas tortas. E, em cada porta, há um bichinho pendurado lembrando um determinado momento da vida da pessoa que usa o armário. Há um, inclusive, com corações na barriga. Lembrança, talvez, de um amor qualquer perdido no tempo.
Atrás da porta, há o cantinho musical. Aparelho de som, porta-cds completo, e um abajur, usado nas noites mais assustadoras. Dentre os cds, há músicas de todos os tipos. Porém muitos estão ali abandonados, alguns nunca foram ouvidos!
Há uma cômoda em frente a uma das camas, com quatro gavetas. Dentro, pode-se encontrar inúmeras lembranças de uma vida que não foi só vivida, mas também celebrada. Sobre o tampo do móvel, vê-se várias coisas. Há um porta-brincos, repleto de bijuterias coloridas, há bonecas, anjos, bruxas e ursos convivendo na mais repleta harmonia. Porta-retratos esquecidos com o tempo, abajures. Perfumes, livros em três idiomas e um rádio-relógio. Há também uma vaca, um barco, garrafinhas e um girassol de feijão. Uma fita de vídeo, remédios e um rolo de papel higiênico. O conjunto, desarmonioso, demonstra que ali vive alguém despreocupado com as regras que regem o mundo.
Ao lado da cômoda, há um armário baixinho, de guardar brinquedos. Nele, obviamente, estão lembranças de uma infância, talvez não tão boa quanto deveria ser, mas razoavelmente divertida. Sobre ele, encontram-se ursos dos mais diversos tamanhos e cores. E dois coelhos de pelúcia, de Páscoas passadas.
Na mesa da televisão, encontram-se poucas coisas. Há um nebulizador, o que indica que o personagem da história é asmático. Escova de cabelos, um presente ainda não aberto, caixas contendo mais lembranças que não se perderam no tempo, e um porta-canetas. Há canetas de todos os tipos e cores, sendo a preferida a mais simples delas. Mas já está quase acabando, tamanho o seu uso em momentos de dificuldade.
Chega-se, enfim, à última mesa, que contém apenas um computador, este que vos fala. Sua capa encontra-se rasgada. É branco, com o mouse pad e o microfone estragado azuis. A mesa é branca, com detalhes em preto, dando a impressão de que não pertence a esse lugar, já que todos os outros móveis são apenas brancos, e no máximo, com sombreado azul.
Há ainda uma janela, preta, de grades. Seus vidros contém dois simples adesivos, um dos Estados Unidos e outro do Canadá, dando a impressão de que o dono do quarto gosta de viajar. Mas é só impressão... A vista dá-se para a casa ao lado, inútil abrir a janela e ver um pedaço claro de concreto. Pelo menos sente-se o aroma das árvores próximas e o cantar dos pássaros inocentes que por ali se encontram.
A cortina é bege, horizontal, mas encontra-se sempre recolhida. Talvez um dia sirva para cobrir a vergonha ou a raiva de seu possuidor, mas por enquanto, é meramente inútil. As paredes são azuladas. Mas só percebe-se a cor olhando muito atentamente. O quarto lembra o azul. Mas o branco predomina. Poderia ser quarto de rapaz. Mas é de menina.