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Fiction » Romance » Um Amigo font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: gabrory
Fiction Rated: K - Portuguese - General - Reviews: 1 - Published: 01-31-04 - Updated: 01-31-04 - id:1513036
Hoje meu melhor amigo não telefonou para mim. E muito menos o havia feito em qualquer outro dia desta semana. Ou de qualquer outra semana dos últimos três meses. Mas não posso culpá-lo. Ele também não esteve presente quando mais precisei. Mas eu também não estava presente quando ele mais precisou. Ainda tenho a certeza de que éramos, fomos e, de certa forma, continuaremos a ser verdadeiros amigos. Apesar dos obstáculos e da distância, às vezes, posso jurar que ouço sua voz. Seus conselhos. Suas sábias palavras de consolo.

Sinto um misto de culpa e impotência quando lembro da última vez que saímos como amigos. Ele, todo alegre porque a galera "cool" da faculdade tinha convidado-o para se juntar a eles. Até nem me importei por ele ter simplesmente me abandonado, pois há tempos almejávamos, juntos, esse título, a tão-sonhada amizade dos mais conhecidos. Estar no círculo de amizades deles significava virar notícia em todos os cantos da cidade. Ser reconhecido nas ruas. Entrar para o mapa.

Mas a realidade se mostrou um pouco cruel. Logo no primeiro contato com essa galera, meu amigo foi apresentado ao tal baseado. Diz ele que simplesmente experimentou, mas para quem me apareceu horas e horas depois, com aquele olhar carregado, e uma respiração forçada, não levei muita fé. Claro, experimentar drogas. Que mal tem nisso, não é verdade?

Só que meu amigo resolveu seguir andando com seus novos "amigos". Tivemos uma conversa franca. Uma discussão. Ele apenas concluiu dizendo que tinha sonhado demais com isso, e não poderia perder essa oportunidade. Fiquei pensando comigo, que raios de amizade é essa, tão possessiva e monopolizadora, na qual ele não pode nem ao menos ter outros amigos? Mas como ele era meu amigo, simplesmente aceitei, sem questionar. Sabia que, no fundo, continuaríamos sendo amigos para sempre. Ele não me esqueceria. Muito menos eu deixaria que nossas lembranças simplesmente se apagassem.

Porém seus amigos se mostraram cada vez mais estranhos. E ele começou a mudar junto. Um dia, na aula, estranhei meu amigo. Ele demonstrou uma atitude agressiva para com o professor. E acho que não fui só eu quem estranhou. Notei que, após, na cantina vários colegas pronunciavam seu nome.

Em outra ocasião, flagrei-o cheirando algo suspeito. Mas, quando interpelei-o, ele simplesmente disse que estava atrasado para a aula seguinte.

Muitos dias se passaram até que eu descobrisse o que estava acontecendo, de fato. A realidade é dura, mas nunca pensei que esse tipo de coisa aconteceria assim, tão perto de mim. Primeiro, meu amigo começou a mentir para seus pais. Desconfiei disso quando a mãe dele ligou uma vez aqui para casa perguntando por ele. De acordo com ela, ele tinha saído de casa há dois dias, dizendo estar indo para a minha casa. Estranho. Depois, meu amigo partiu para o crime. Começou roubando seus pais, e logo em seguida, já estava roubando os amigos. Notei uma vez o sumiço de uma pedra de rubi da minha mochila. Ela tinha muito mais valor sentimental do que monetário, mas para meu amigo, tudo era pretexto para conseguir dinheiro. Não entendo como, nem em que circunstâncias, ele foi se envolver de tal maneira que chegou a perder até a casa de seus pais. Só com as drogas.

Nesse meio tempo, por mais que eu tentasse me aproximar dele, não havia maneira, pois meu amigo parecia estar fazendo o exato contrário. Ele só tentava se afastar cada vez mais. Não só de mim, mas de todo mundo que não fosse um fornecedor de drogas em potencial. Vi professores lamentando seu estado, amigos criticando-o. Todos pareciam perplexos com o que vinha acontecendo.

Sabe, secretamente, eu sempre esperava que um dia, de repente, ele fosse se dar conta do que estava fazendo com sua vida, e simplesmente decidisse me ligar, arrependido, pedindo perdão. No meu mundo de fantasia, eu sonhava com o dia que ele se livraria das drogas. Ensaiava como ia recebê-lo de volta pela primeira vez na minha casa. Me pegava às vezes imaginando nossa festa de formatura, que há tempos planejávamos fazermos juntos. Com o tempo, fui criando uma amizade idealizada. Para mim, já não interessava mais se ele pudesse ou não ser meu amigo novamente, mas sim que ele conseguisse, ao menos, se livrar do vício.

O destino pregou uma peça e tanto para ele! Meu amigo conseguiu realizar seu sonho de andar com a galera mais legal da faculdade, mas ao mesmo tempo, perdeu de realizar outros sonhos muito mais importantes, como o de se formar médico. Sim, porque ao menor sinal de fraqueza, trancou sua matrícula na faculdade. Mas uma coisa eu não entendia. Que força fazia com que a turma com quem ele andava nunca precisasse largar os estudos, nem ao menos demostrasse uma gota de vício? Minha dúvida foi sanada muito tempo depois, descobri, através dos pais do meu amigo, que foi ele, sozinho, quem procurou as drogas mais pesadas. Ele afundou sem a ajuda de ninguém. Ou melhor, precisou de um pequeno empurrãozinho (apenas ter experimentado a droga, no caso) para se tornar um viciado.

Mas isso tudo não teria a mínima importância para mim, se não fosse por um pequeno revés do destino. Um dia, após já ter liquidado com sua casa, e sua família, ele veio até mim, dizendo-se arrependido, e em busca de ajuda. Suas palavras não faziam muito sentido, mas ele queria ir até a minha casa para "ver uma coisa". Em homenagem aos nossos bons momentos de infância, decidi ser gentil. Levei-o até a minha casa. Naquele momento, não havia ninguém por perto. Sexta-feira, à tarde, numa república de estudantes. Já era de se imaginar.

Enquanto me dirigia até meu quarto para largar os livros, ouvi um ruído na porta, mas julguei apenas que alguém tivesse chegado. Depois, ouvi passos vindo na minha direção. Meu amigo? Escuto a sua voz. Ele pede que eu abra minha carteira e lhe dê todo o dinheiro. Eu, intrigado, apenas me viro, bruscamente, para perguntar por quê. Mas, para minha surpresa, e completo azar, havia um revólver apontado para minha cabeça. Que, porventura, acabou sendo disparado.

Não sei bem o que aconteceu depois disso, só sei que após, em virtude de uma perfuração na coluna vertebral, fiquei tetraplégico. Sem movimentos. Inútil.

Mas, no fundo, não culpo meu amigo. Nem ao menos me culpo por ser tão ingênuo. Apenas alimento uma raiva (imensa) por aqueles que, um dia, me roubaram meu melhor amigo e o fizeram se tornar nesse bicho, incessantemente atrás de cada vez mais dinheiro. Cada vez mais drogas.

Consegui me formar, mas de que me adianta tanto conhecimento se não posso exercer a bendita profissão que escolhi para ter com meu melhor amigo? Mas, afinal, de que adiantaria seguir com o sonho, se a outra parte dele já tinha desistido? Hoje, dou aulas teóricas para calouros, na mesma faculdade, enquanto que meu ex-amigo (por conveniência, prefiro chamá-lo assim) enfrenta sessões de terapia numa clínica, com outros seres como ele.

Agora sim, espero que um dia ele possa me telefonar, apenas para contar como foi seu dia, como nos velhos tempos. Que ele possa se dizer recuperado, que ele possa ser feliz novamente. Já que não posso tocar minha vida em frente da mesma maneira que era, espero ao menos que as pessoas por aí valorizem as amizades. E, principalmente, não guardem rancor. Aconteceu, era porque tinha que acontecer. Mas confesso que me sinto muito culpado por não ter dado o apoio que meu amigo merecia. Por não ter tido pulso firme. O que aconteceria se eu simplesmente tivesse sentido ciúmes e não tivesse deixado-o me trocar por um bando de babacas que fumam? Se eu tivesse valorizado o que é meu? Será que as coisas teriam sido diferentes? Será que eu não estaria ditando a minha história para um editor qualquer escrevê-la?



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