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Quando redecorei meu quarto pela última vez, deixei um cantinho para "arrumar mais tarde". A peça toda era tão grande que acabei deixando mesmo um lado inteiro sem nada. Absolutamente nada!
Sempre que não tenho o que fazer, penso em alternativas do que pôr naquele espaço. Detalhe: já fazem mais de 5 anos que não consigo pensar em nada mais original que usá-la como uma parede branca mesmo. Lisa.
Poderia colar fotos, fazer um mural. Pintá-la de colorido, colocar papel de parede. Pendurar quadros, anexar retratos. Encher de pregos, pedir para meus amigos assinarem nela. Qualquer coisa seria mais original que deixá-la simplesmente em branco!
Mas eu perderia horas e horas de reflexão. Pensamentos profundos. Divagações sobre o mundo. Às vezes, recolho-me ao quarto, sento-me nesta mesma cadeira que estou agora, e simplesmente fico admirando a parede. A simplicidade que ela transmite. Seus pequenos detalhes. As pequenas marcas do tempo.
Talvez porque ache que ela reflete muito bem minha vida. Sempre limpa, lisa, sem altos e baixos, mas com muita coisa ainda a ser explorada. Pequenas marcas que refletem o quanto ela poderia ter sido melhor aproveitada. Das vezes que tentei, num impulso, pendurar prateleiras em seus alicerces, mas arrependi-me logo em seguida. Permaneceram apenas as chagas dos pregos. Marcas que refletem ações que realizamos, mas não concluímos. Realmente, a vida é bem assim...
Uma vez, resolvi colocar um armário para esconder a "branquidão" da parede. Só que encostei demais a madeira de má qualidade na parede, e até hoje sofro ao ver a silhueta de um armário de pouco mais de um metro talhada na parede branca. Minha parede favorita em todo o mundo! Como não havia eu percebido que não se pode esconder o que se é?
Costumo dizer que a sombra desse armário representa todos os meus romances fracassados. Ou melhor, todos os meus romances - porque se algum tivesse dado certo, eu não estaria solteiro agora. E se a culpa fosse da parede? Se as pessoas se intimidassem ao conhecer alguém com a capacidade de deixar um pedaço inteiro de sua casa sem a mínima decoração?
Claro que às vezes tenho vergonha de minha parede. Mais precisamente, quando tenho visitas. Apesar da estranhice de alguém me visitar e querer ver meu quarto, acontece. Muitas vezes. E, se não falam, com certeza não deixam de constatar a intrigante parede branca. Muitos perguntam o porquê. Como se eu soubesse!
Em outras situações, acabo me gabando demais por ter a posse dessa magnífica parede livre em minha casa. Faço questão de mostrar a amigos que moram em apartamentos pequenos e que não têm espaço de sobra para tal regalia. Quem mais, além de mim, poderia se dar ao luxo de deixar vinte e cinco por cento de seu quarto sem nada? Um lado inteiro completamente inútil!
Mas quem disse que minha parede é inútil? Além das reflexões, posso usá-la para me apoiar quando cansado. É tão simples. Repouso minha mão sobre sua superfície lisa de cimento, e quase posso sentir o coração de minha casa batendo. Gosto de imaginar que as paredes são aveludadas. Que o cimento, de fato, é um tecido dos mais caros, desses que se compra em lojas de grife do estrangeiro. E por que não?
Nunca deixei de notar o quanto errei ao tê-la deixada tanto tempo sem nada. Mas como tudo na vida, acostuma-se. A parede acostumou-se a não ser usada. Eu, acostumei-me a vê-la sem nada.
Claro que já brigamos. Inúmeras vezes. Num dos mais sérios confrontos que tivemos, colei um adesivo na parede, de vingança. Mas logo fiquei com pena dela, pois a mesma não tinha como se defender. Arranquei o adesivo com tanta veemência que ele deixou marcas. Profundas. Há o decalque de um adesivo retangular bem no meio da parede. No meio do sombreado do armário. E não adiantou ter esfregado água sanitária no lugar - que aliás, só contribuiu para deixar a região do adesivo mais branca que o resto da parede. Mas tudo bem, só se nota este detalhe quando se aproxima muito do local do "crime". Para olhos comuns, aquilo não passa de um detalhe imperceptível a olho nu. Embora seja bem maior que uma embalagem de cd.
Além de todas essas marcas, há ainda uma outra mais forte que as demais. Trata-se de uma grande mancha marrom deixada por uma infiltração que tomou conta de minha casa durante uma enchente há três anos. Fiquei doente junto com minha parede! Vê-la pingando água de poucos em poucos partiu meu coração. Quando a água baixou, a primeira coisa que pensei foi em pintá-la novamente de branco. Mas reconsiderei. Não se apagam as marcas deixadas pelo coração. Não assim tão rápido.
Muita gente já ficou com a pulga atrás da orelha após ouvir minha versão sobre o porquê de manter uma parede em branco. Até porque minha justificativa não tem fundamento algum! Simplesmente deixei-a assim porque precisava de uma fonte de criatividade, de uma musa inspiradora. Muitos outros poetas também precisam, não é verdade? Uns encontram o que precisam num amor idealizado. Outros, em fundamentos científicos, ou até mesmo na própria vida! Quis fazer diferente. Ser inspirado por uma simples parede!
Olhando assim, neste ponto de vista, acho que já não posso chamá-la mais de "parede branca". Ela está mais para cor-de-burro-quando-foge do que para qualquer coisa! Mas, sei lá, sua alma continua sendo branca. Um dia ela foi pura. Hoje, o tempo já mostra suas marcas. Prova que o homem pouco pode fazer para impedir a ação do mesmo.
Durante cerca de 5 meses, tive a concepção obstinada de que, se a parede não recebesse luz solar por muito tempo, ficaria finalmente escura. Não pensei duas vezes antes de manter meu quarto fechado por dias e dias a fio. Muitas vezes fui dormir na sala, para deixá-la em paz, enegrecendo-se. Foi em vão. Quando desconfiei que a parede continuara branca esse tempo todo, acendi um foco de luz e constatei: a parede estava mais branca do que nunca! Talvez porque estivesse acostumada a (não) vê-la na escuridão, mas uma coisa é certa: branco como aquele eu jamais tinha visto!
Tenho quase certeza que meus vizinhos estiveram a par de minha paranóia. Imagine se seu vizinho mantivesse a única janela que desse para a rua sempre fechada, durante um bom tempo... Você ficaria intrigado, não é verdade? Um deles chegou a ligar para a policia, achando que eu tivesse escondido algo ilegal ali dentro! Dá para acreditar? Então pense em como eu tive que explicar a situação todinha para o delegado! Repassando depois o que tinha dito foi que notei o ridículo da situação: um cara que se preocupa tanto com sua parede que a deixa bem preservada de olhares curiosos!?
Daqui onde estou, posso ver nitidamente minha parede, a minha direita. Aliás, depois de um tempo, posicionei todos os móveis de meu quarto de maneira que todos ficassem perpendicularmente eqüidistantes da parede, assim eu não precisaria fazer tanto esforço para conseguir admirá-la - coisa que tenho feito muito ultimamente.
Não canso de imaginar minha parede como sendo um pequeno pedacinho de céu. Uma nuvem tão branca que dá vontade de nunca alcançá-la, para o sonho não se tornar realidade e perder toda a sua graça. Mas paredes não são feitas de algodão... Muitas vezes me peguei na ilusão de agarrá-la com toda a força. O máximo que já consegui, foi quebrar o dedo mínimo tentando empurrá-la para mais longe, numa tentativa, obviamente falha, de aumentar o volume de meu quarto.
Duas coisas que mais admiro em minha parede são sua solidez e perseverança. Mesmo com toda essa ação do tempo, ela continua ali, firme e forte, desempenhando seu papel de minha confidente e companheira, alguém com quem gosto de me abrir nos fins de tarde. Talvez a única que saiba todos os meus segredos os quais, aliás, acho que nem eu mesmo os sei.
Pouca gente tem esse privilégio de poder contar com uma coisa dessas. Uns por falta de espaço, outros por excesso de lucidez. Mas uma coisa é certa: não troco minha parede branca lisa por nada neste mundo! Ela já me rendeu inúmeras idéias tão e até mais criativas que quando usava um amor idealizado como inspiração para minhas obras. Pelo menos agora posso ver minha musa sempre que quero. Sempre que posso. E como posso sempre, vejo-a simplesmente sempre. Eternamente.
E pensar que antes, há anos atrás, esta parede costumava servir de sustentáculo para um móvel guarda-roupas antigo e bem grande. Modulado. Que ocupava todo o espaço de sua infinita beleza. Quando decidi tirar a peça do lugar, relutei muito. Mas hoje não me arrependo nem um pouco! O armário virou peça de museu (literalmente) e minha parede um dia ainda vai ser citada nos livros, quer como "alguém" que fez algo na vida, quer como o principal item da coleção de um cara doido que gostava de escrever poemas sem rima.
Nunca deixo de pensar em como essa parede poderia servir como base para inúmeras coisas diferentes. Poderia ser usada como base para um estofado de três lugares, como cabeceira de uma cama. Como sustentáculo para uma estante de livros, ou ainda como um espaço para pendurar meus cds. Mas não. Deixá-la em branco foi muito mais vantajoso!
Dizem que sou louco por ter uma parede em branco. Mas e o que dizer daqueles que não conseguem ver uma parede em branco sem querer saber por quê? E o que seria dos que enchem suas paredes com fotos dos amigos, achando que com isso conseguirão amenizar as saudades? Sou louco sim, mas tanto quanto você, leitor, que aproveitou cada milímetro de sua insignificante morada para recheá-lo de quinquilharias. Aposto que você não tem pelo menos meia parede completamente lisa! Ainda em branco, esperando uma utilidade futura, ou apenas para ser usada como fonte inspiradora. Pois bem, você não sabe o que está perdendo!