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Memórias, momentos, dizeres. Enquanto ainda me restar um pouco de energia, escreverei sobre tudo aquilo que vivi, e o que ainda viverei. Pode soar como um simples relato do dia-a-dia de alguém recalcado, mas talvez minha experiência de vida sirva para alguma coisa. Pelo menos para peso de porta!
Era tarde. Lembro bem da espera no hospital. Minha euforia era tanta que eu parecia ser o futuro-papai mais animado do lobby. Tanto que não me deixaram entrar na sala de partos junto com minha esposa. Quando menino, enquanto muitos sonhavam em ter carros e pilotar aviões, minhas aspirações eram um pouco mais inocentes. Queria ter um menino, igual a mim. Cresci rápido. Quando a gente quer alguma coisa, o tempo voa.
Tive um menino. Na verdade, três meninas. Nunca tive um menino de fato, mas não trocaria minhas três bonecas por nada neste mundo. Elas ainda me deram alegrias a mais. Netos... Na verdade, apenas netas. Mas não guardo rancor. Talvez meu desejo de ter filhos homem fosse tão grande que o destino tenha resolvido pregar uma peça comigo. Uma não, dez. Três filhas e sete netas.
Nunca tive uma verdadeira noção do que é ser pai até o momento em que peguei minha filha pela primeira vez. A partir dessa hora, senti que minha vida valia a pena. Percebi, de fato, por que eu estava neste mundo. Minha missão.
Agora, guardo só lembranças rebuscadas, interrompidas. Temo que a doença me corroa. Mal de Alzheimer é fogo. Um dia você impressiona todos ao saber o número da sua carteira de identidade de cor, no outro, mal se lembra de quem é. A vida está sempre pregando peças com a gente...
Saindo da maternidade, creio que alguns dias depois, notei que minha mulher não estava muito feliz com o fato de ser mãe. Pelo menos não tão feliz quanto eu. Mas decidi não comentar nada. Afinal, esse filho nos ligaria para sempre. Grande menino!
No carro, ainda a caminho de casa, o garoto chorou muito. Berrava, gritava. Chegou a xingar a própria mãe. Chamou-a de tudo o que você possa imaginar. Palavrões proliferavam por sua boca. Ao chegar em casa, ficou de castigo. Por uma semana. Sem sobremesa e sem poder sair para jogar bola com os amigos, e...
Ops, história errada. Esse aí foi eu, voltando um dia emburrado da escola, após ter brigado com um colega chato no recreio. As histórias se confundem na minha cabeça!
Flávia - como decidimos chamar nossa primeira filha - cresceu rápido. Mais rápido que eu. Coisas da modernidade, acho. Os anos voam. E a gente decidiu ter outro filho. Filha. Até porque nosso casamento já não parecia mais ser o mesmo, discutíamos por tudo, até por quem iria levar a menina na creche em um dia de chuva. E pensar que aqueles foram, talvez, os momentos mais felizes de minha vida!
Recebi uma vez uma carta de uma grande revista. Enviei um bilhete a eles, dizendo que a maneira como eles procediam as informações não era muito "adequada". Então me responderam que eu deveria me "adequar" a eles ou trocar de revista. No mesmo dia, pedi o divórcio. E, é claro, parei de assinar a revista.
Tivemos mais duas filhas. Gêmeas. A essa altura, Flávia ainda tinha uns cinco anos de idade. Ou menos. Ela era pequena, mas nem tanto. Já sabia entender a realidade exterior. E ficou uma fúria quando soube que ia ter que dividir seu quarto com duas "intrusas". Ainda por cima, iguais. Mas foi fácil acalmar a fera. Difícil, porém, foi reverter a situação. Flávia virou a mais mimada das três. E conter os ciúmes das mais novas já não era tão fácil.
Sempre tive ciúmes de meu irmão mais velho. Não por ele ser superprotetor, ou ter um grande emprego. Admirava-o - ou um retrato dele - por simplesmente ter lutado na Guerra. Tempos de criança. Com o passar do tempo, comecei a considerá-lo um idiota, por não ter fugido da obrigatoriedade de servir ao Exército, e por ter morrido nas mãos dos malditos italianos. Pensando bem, acho que tenho sangue italiano, meus avós vieram de Roma. A quem importa?
Bianca e Luana, as gêmeas espoletas de cabelos ruivos e sardinhas nos rostos, tiveram uma vida feliz, cheia de falcatruas e armações da pesada. Elas eram tão parecidas que podiam se dar ao luxo de se passarem uma pela outra. Eram. Mas Luana morreu cedo. Teve uma doença praticamente incurável na época. Tuberculose. Quem diria que uma doença típica de idosos mataria meu tesourinho de apenas dois anos de idade?
Foi então que meu casamento começou a acabar. Na verdade, ele já vinha definhando há muito tempo. Desde o momento em que Flávia tinha nascido. Mas o fato de não termos mais Luana talvez tivesse nos afastado ainda mais. Nos separamos. Pedi o divórcio.
Às vezes a gente se esquece de detalhes importantes. Às vezes a gente faz questão de lembrar das peculiaridades mais sórdidas. Lembro-me exatamente de como Luana definhou até a morte naquele dia frio de outubro. Mas prefiro não contar. Talvez transformar aquela lembrança em palavras doa mais que simplesmente lembrá-la.
Um dos meus maiores medos sempre foi o de perder o pouco que ainda me restava da família. Já sem pai nem mãe - ação do tempo, e não mais doenças - passei a ser um solitário que mal podia esperar que chegasse o fim de semana. Após trabalhar a semana inteira, após ralar dia após dia, naquelas quarenta e oito horas de descanso, eu era feliz. Era nesses dias que eu pegava Flávia e Bianca na casa da mãe delas, e passava o tempo com elas. Dois dias inteiros. O juiz havia me dado um presente e tanto! Mas a decisão da mãe delas de se mudar para outra cidade, um pouco longe, não fez bem comigo. Acho que foi isso, na verdade, que mudou radicalmente minha vida. Do bom pai ao bêbado devedor. Do homem de família exemplar, ao vagabundo a perambular pelas ruas. O álcool destruiu meu cérebro. Literalmente.
Álcool. Lembro como as garrafas de cerveja eram mais atraentes antigamente. Traziam fotos de mulheres em biquínis - claro que as roupas de banho da época não eram tão generosas como as de agora - ou dizeres divertidos. O rótulo, por si só, atraía inúmeros compradores. Diferente de agora, em que as empresas precisam apelar por propagandas ousadas, apenas para pensar em vender seus produtos.