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Ah! Momentos felizes... Lembro-me agora de um clubinho que meus amigos e eu fundamos na juventude. Nos reuníamos para contar estórias de terror! Isso mesmo, aquelas estorinhas com fantasmas, cadáveres, vampiros, totalmente irreais e sem graça, mas que na época considerávamos serem das mais aterrorizantes. Ah! Juventude...
Juntando nossas iniciais, (eu, Enzo, Ignácio e Serginho), formamos a sigla que identificava nosso grupo, REIS. Éramos os "reis". Curtíamos os "contos de reis". Reuníamo-nos sempre tarde da noite, muitas vezes precisando ter que fugir de casa. Ninguém sabia da existência do grupo. A idéia por si só era um mistério.
Contávamos estórias de terror - com monstros, defuntos, criaturas abomináveis - no alto da colina, em uma casa abandonada de madeira (o que aumentava em mil vezes o medo que sentíamos). Sempre nos dizíamos corajosos. Mas confesso que até hoje procuro por monstros no armário. Às vezes me pego inspecionando meu próprio guarda-roupas!
Talvez por este único motivo (o qual durou de dois a três anos, não sei ao certo), tive medo a vida toda. Medo de encarar a realidade. De ser sincero. De tomar a iniciativa (salvo quanto a quando comecei a beber). Sofri mais do que devia. E que atire a primeira pedra quem nunca teve medo do bicho-papão!
Fui criado num mundo de fantasias, com monstros fictícios, Papai Noel e fada madrinha. E posso afirmar com certeza, seria mais feliz se não sofresse a desilusão de descobrir que tudo não passava de uma farsa. Minhas filhas sempre souberam que Papai Noel era apenas um símbolo do Natal. Que coelhinho da Páscoa era uma idéia para aumentar as vendas da data - afinal, nem coelho de verdade bota ovo! Creio que minhas netas também tenham sido criadas com os pés no chão.
Além de não mentir, outra coisa que fiz em oposição a minha própria infância, foi privá-las da realidade nua e crua do mundo. Nada de catástrofes. Nada de saber de matanças, guerras e doenças. Pelo menos não por minha boca! Que elas aprendessem por conta própria. Descobrissem o mundo a cada dia. E fiquei satisfeito com o resultado. Sinto saudades daquela época! Quero outro filho! Pena que não dá mais tempo.
O jeito é aproveitar a infância (e vivê-la novamente) através de recordações, memórias, passando mais tempo com minhas netinhas, com os amigos... Chega uma hora na nossa vida em que voltamos a ser crianças. Não queremos mais fazer nada de cansativo. Nada que não dê retorno. Nada que não provoque um sorriso.
De qualquer maneira, ainda preciso retomar ao assunto principal do livro. Afinal, acho que abandonei-o pouco depois de dizer que encontrei minhas filhas perto do Pantanal. Nunca vou esquecer daquela tarde! Depois de sair procurando longe, perto, longe, acabei descobrindo que toda a minha família tinha se mudado para o Mato Grosso. Perfeito! Só que me mudar para lá não foi muito fácil. Pior ainda foi me adaptar ao clima, à cultura. Pior mesmo só o constrangimento de procurar emprego com essa fama de bebum e cara endividado! Ainda bem que existem as influências e os bons amigos. Ainda bem que é só você chegar de longe que todos sentem compaixão e querem conquistar sua amizade. O que o dinheiro não compra?