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Fiction » General » Nunca Confie em Homens Verdes font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: gabrory
Fiction Rated: M - Portuguese - Supernatural/Adventure - Published: 05-01-04 - Updated: 05-01-04 - id:1597465
Na aridez do sertão seco, ser retirante sozinho abandonado não é mole não! Seu Mindinho é um moço fraco, esmirradinho. Não sabe falar português, nem qualquer outro idioma do mundo brasileiro. Ele não fala não, ôxe. Ele só resmunga! E quando abre a boca, pode ter certeza, gotas molhadas de saliva partem em direção ao cabra que estiver recebendo as suas palavras secas e tortas. É pior que mangueira de jardim!

Se se passam três dias sem tomar água, mesmo assim, encontra maneira de cuspir. Adora fazer isso o danadinho do moço! Ai nem impeça! Mas ele é bom de coração. A esposa morreu, de fome. O filho mais novo morreu, de fome. O filho mais velho morreu, de fome. A sobrinha morreu, de fome. E o cunhado morreu, mas esse foi de lombriga mesmo. O maior medo dele é de morrer de lombriga! De fome ainda vá... Mas de lombriga? O cara ralar para conseguir comida e um bicho esquisito que cresce nos intestinos acabar por devorar tudo por dentro, sem nunca passar fome? Isso era por demais injusto!

Mas Mindinho sabia se virar. De tudo fazia comida. Casca de mandacaru, galho de juá, cascalho moído. Sopa de pedra! Diacho. Fazia comida até de capim seco! O que não carecia era passar fome, com tanta riqueza nesse mundo gigantão.

Foi assim que um dia ele se deparou com um ser verdinho, pequenininho, e muito astuto. Começou fazendo umas charadas, seguiu testando a valentia do pobre e coitado Mindão. Mindo queria se passar por um rapaz forte, capaz de tudo. Mas o danado do verdinho era fácil demais de ser passado para trás!

O verdinho decide então ajudar Mindinho. Dinheiro! Verdinhas do verdinho! Era tudo o que ele precisava. Juntou os pilas, e partiu logo para a cidade. Nem prestou atenção para o pedaço de papel em que acabava de cravar suas digitais. Era um contrato. Muito sinistro.

Mindo rumou pro Sul e logo estava em Taquarará da Serra. A PADARIA! Visão perfeita do paraíso. Entrar num boteco e não precisar implorar por um copo d'água da torneira. Ôxe! Não fosse pela hostilidade do dono, enxotando o pobre Mindinho antes mesmo que entrasse, xingando-o de todos os derivados e sinônimos da palavra "malandro", teria gasto todo seu dinheiro com pão. Melhor. Assim tinha mais tempo de pensar em que gastaria seus pilinhas. Difícil de consegui-los, mas fácil de torrá-los. Era questão de tempo até encontrar um boteco.

A adega do Jão não estava aberta naquele dia. Que pena! Deu mais uma volta no vilarejo de duas ruas, e encontrou um estabelecimentozinho meio suspeito. Lugar escuro, escurecia lá fora. Era noite por madrugada. É, que mal teria entrar.

Lá dentro, um ar gelado e frio tomava conta do ambiente. Muitos fumavam. Poucos sentados. Todos de pé. Dirigiu-se até o balcão, o Mindinho, e pediu um cachação! O dono do bar riu. Mas riu mesmo! Uma risada dessas que se ri quando contam uma troça pra lá de engraçada. E o cara ria. Ria. Talvez como nunca tinha rido antes.

O sertanejo ficou sem jeito. Ia fazer menção de sair, mas o barman fez sinal de que ia providenciar algo. Desapareceu. Voltou. Dois copos de vidro, uma garrafa brilhante. Ôxe! Aquilo devia ser mui melhor que pinga!

Colocou duas notas altas sobre a mesa. E pediu tudo o que pudesse beber. O barman riu, mas dessa vez menos rido que antes. E serviu meio copo. Meio copo? Pois era tudo o que dava! Todo o dinheiro do verdinho daria para a metade de um copo de um treco estranho? Mas Mindo nem pensou nisso na hora! Queria mais era se render à tentação de gastar todo o dinheiro com aquilo que era roxo e brilhava!

Bebeu tudo duma vez só. No princípio, sentiu uma queimação. Em seguida, perdeu controle de si.

Levantou-se, agradeceu, saiu à rua. Viu mulheres, desejou trepar com elas. Cabra! Fazia tempo que não trepava! Sua mulher morrera, há, digamos... ôxe, fazia mais de ano! Urgente! Achem uma mulher fogosa pro amigo aqui! Alguém disse isso? Ou Mindo delirou?

Mindo trepou. Ah! Se trepou... Uma trepada daquelas! Mas no dia seguinte foi encontrado morto. Um morador local o tinha assassinado após ver-lhe agarrado numa bezerra da sua estância. Logo a mais moça! Pobre vaquinha... Pobre Mindinho...

Numa noite dessas de verão, com o sol quente ensolarado, o verdinho fez mais uma de suas aparições. Ofereceu pila pra um sujeito esquisito, que andava torto pelo sertão. Seu Reginaldo nem hesitou. Tava era com uma tremenda coceira, queria dinheiro prá cura daquilo! Botou o dedo no contrato, e suspirou. E há quem jure que o rapaz caiu duro no chão, ali mesmo.

Ôxe! Não se apercebeu inda não? O duende era o diabo! E quem aceitava sua ajuda, ia direto pro único lugar mais quente e mais severo que o sertão!


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