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Título: Matta Ashita
Autora: Akemi Hidaka
Classificação: yaoi, lemon, angst
Avisos: esta fanfic apresenta alguns fatos baseados em vida real, e é desaconselhável para pessoas de capacidade mental inferior a 18 anos, já que poderá conter cenas de violência, linguagem ofensiva e relacionamento homossexual. Se não aprecia este tipo de leitura, aconselho a não prosseguir. Àqueles que apreciam, boa leitura.
Disclaimer: todos os personagens mencionados a seguir pertencem a mim, Akemi Hidaka, e, portanto, não devem ser usados em outras fanfics ou qualquer outro tipo de trabalho sem minha devida autorização.
Matta Ashita
Por Akemi Hidaka
Capítulo 1
“Já chega, estou cansado disso. Por que vocês não calam a boca? Continuam falando e falando sem parar, e é sempre a mesma coisa, todas as vezes. O que é preciso fazer pra não haver mais isso? Estou cansado, não agüento mais…”
Aquele jantar estava sendo uma cena típica e estressante para Minoru. O garoto já a presenciara muitas vezes desde que se conhecia por gente. Terminava a refeição com a cabeça baixa, os olhos atipicamente prateados voltados exclusivamente para o alimento contido no prato. Era uma visão muito mais apreciativa do que aquela que podia ver se levantasse a cabeça. Sua mãe e seu irmão discutindo, como freqüentemente acontecia. Minoru ficava em silêncio, apenas ouvindo os dois elevando a voz e respondendo um para o outro com grosseria, ambos fartos um do outro.
“Até quando você vai ficar pegando no meu pé??”, Eiji falou em alto e bom tom, batendo as mãos sobre a mesa e se levantando.
“Abaixe essa voz agora. Eu não estou gritando com você pra você gritar comigo”, Hiyoko respondeu entre dentes, controlando bem a voz para não gritar.
“Não! Eu já tenho vinte e três anos”, disse displicentemente “Por que você só pega no meu pé? Vai encher o saco do Minoru também!!”, começou a sair da cozinha, deixando o prato quase intocado sobre a mesa.
“Volta aqui! Eu ainda não acabei de falar com você!!”, ela levantou e foi atrás dele.
Minoru continuou onde estava, inevitavelmente ouvindo a discussão. Estava irritado também. Não tinha nada a ver com aquilo, e precisava ficar ouvindo porque sua mãe resolvia puxar aquele assunto bem enquanto comiam. Por anos vinha sendo assim e a coisa não mudava. Pode-se dizer que já virara rotina…
“Ta bom, ta bom!! Eu já sei disso, agora cala a boca!”, Eiji respondeu grossamente à mãe. Ela conseguira deixá-lo extremamente irritado.
“Responda direito! Eu sou a sua mãe ainda”.
“E eu não sou mais uma criança pra ficar ouvindo suas cobranças”.
“Enquanto você não tomar jeito e ficar mais responsável, eu não vou parar”.
“Será que é tão difícil assim de ignorarem um ao outro pelo menos por uma noite? Um pouco de tranqüilidade, é tudo o que eu quero e peço…”
Suspirando pesadamente, Minoru fechou os olhos jogando os cabelos preto-azulados para trás junto com a cabeça. Agora que havia terminado de comer, não queria sair da cozinha, mesmo que de lá pudesse ouvir claramente os gritos. O motivo? Simples: se fosse pra lá, seria incluído na discussão, e isso era a última coisa que desejava no momento.
Precisou ainda aguardar alguns minutos, e só então atravessou a sala para subir em direção ao seu quarto. Passou longe de seu irmão e de sua mãe, evitando inclusive olhar em suas direções. O clima era ruim, obviamente, com todos irritados como estavam. Há muito que sorrisos realmente felizes não eram vistos naquela casa. Há exatos seis anos, na verdade…
“Minoru!! Venha já aqui! Acha que eu sou sua empregada, é? Pode lavar a louça, e o Eiji vai tirando a mesa”, Hiyoko praticamente ordenou isso aos próprios filhos. Sua voz vinha alterada de dentro da cozinha.
O mais novo dos Hanashiro desceu a escada pisando forte no chão propositalmente. Tinha certeza de que ia sobrar alguma coisa pra ele fazer. E pra piorar sua situação, enquanto rumava para a cozinha novamente, encontrou com Eiji na porta. Este não quis nem saber do irmão, precisava descontar a raiva que percorria seu corpo em alguma coisa, ou alguém, e simplesmente deu um empurrão em Minoru com o ombro, e por ser menor, este foi espremido contra o batente da porta.
Irritando-se mais ainda, Minoru automaticamente levantou uma perna na direção do irmão, para chutá-lo. Conseguiu acertar de raspão a bunda dele e se afastou rápido, mas não o suficiente para evitar o soco que recebeu no braço em seguida. Por puro reflexo também, revidou, mas como sempre acontecia, não conseguiu o que queria e ainda levou de volta.
“Parem de brigar vocês dois e venham logo fazer o que eu mandei!”, a mãe os interrompeu “E ‘ai’ se eu ouvir um pio de qualquer um dos dois”.
“Ah, vê se não enche o saco!”, Eiji respondeu e foi fazer o que lhe cabia com extrema má vontade.
Minoru ficou calado e foi direto pra pia. Era tanta a raiva que sentia, que suas mãos tremiam e acabava batendo um prato no outro, não se importando se eles quebrariam ou se fazia muito barulho. Queria terminar logo com aquilo e subir para seu quarto, que graças a Deus era só seu.
Finalmente, a tranqüilidade de seu quarto… mas ainda não poderia descansar. Estava atolado de exercícios de biologia para fazer, e mesmo que fossem testes, levaria pelo menos uma hora pra terminar tudo. Sentou-se à frente da escrivaninha e pôs-se a trabalho.
“Apaga a luz!”
Olhou para trás, constatando que sua porta estava aberta deixando a luz acesa escapar para o corredor e invadir uma parte do quarto de Eiji, cuja porta também estava aberta.
“Você é surdo ou o quê? Apaga essa luz que eu quero dormir!!”.
Suspirou, tentando manter a calma. “Por que você não fecha a sua porta?”.
“Porque eu não quero”, veio a resposta.
Minoru ignorou. Não era a primeira vez que isso acontecia. Aliás, isso acontecia quase todas as noites… de repente a luz se apagou.
“Eu mandei você apagar a luz”, Eiji falou e deu meia volta, voltando para o próprio quarto.
“Mas que merda, Eiji! Custa você fechar a sua porta?!”, levantou irritado, acendendo a luz.
“Custa!”, voltou e deixou tudo à escura novamente. Mas não demorou muito e a luz voltou.
“Então eu fecho a minha porta”, empurrou-o pra fora, já fechando a porta. “Folgado…”.
“O que você falou?”, voltou a entrar, com um dedo bem em sua cara.
“Sai daqui. Você não queria dormir?”, deu um tapa no braço dele.
“Olha como você fala comigo, idiota”, pegou-o pelo queixo com força e depois o soltou, voltando pro próprio quarto. “E vai dormir logo”.
“Folgado!! Quem ele pensa que é? Só porque é mais velho, acha que pode ficar mandando em mim?”, Minoru ficou praguejando enquanto fechava a porta. Só Deus sabe o quanto teve que se controlar para não bater a porta com toda a força que tinha para descarregar toda a raiva. Sentou-se na cadeira de qualquer jeito e apoiou a cabeça nas mãos, procurando a calma sem sucesso. Olhou para os exercícios que ainda tinha pra terminar e teve vontade de rasgar tudo. Entretanto limitou-se a juntar todo o material espalhado e socar na mochila – mesmo que tentasse, não conseguiria fazer mais nada com aquilo.
Apagou a luz, o motivo da breve discussão, e tateou no escuro até sua cama, que na verdade não passava de um colchão no chão. Dormiria cheio de ódio novamente, mas já estava acostumado com isso. Em 16 anos de vida, a maior parte das coisas que lembrava o deixava irritado e de mau humor. Havia lembranças boas, sim, mas estas eram abafadas pelas ruins, estando, estas, mais presentes.
Muitas vezes já desejara não ter nascido, ou ter nascido em uma outra casa, numa outra família. Desejava ter outra vida, bem diferente daquele inferno sem fim. Todos os dias, ou presenciava alguma discussão entre sua mãe e seu irmão ou discutia com ele, chegando muitas vezes a saírem na base de socos e chutes.
“Minoru…”
O menino abriu os olhos ao ouvir a voz de sua mãe. “Hai?”.
“Eu vou ter que viajar pelo escritório amanhã”.
“E que dia você volta?”, notou que ela se aproximava.
“Não se preocupe, no máximo daqui a duas semanas eu já estarei de volta. Cuide bem de tudo, está bem?”, Hiyoko sentou-se na beirada do colchão e debruçou-se ao dar um beijo na testa do filho.
“Ta, tudo bem”, respondeu um pouco desolado. Odiava quando a mãe tinha que viajar por tanto tempo assim por causa do trabalho. Não que isso acontecesse freqüentemente, era só a segunda vez, mas isso dava a Eiji uma brecha para fazer o que quisesse.
“Qualquer coisa, é só ligar pro escritório que eles me darão o recado.”, afagou os cabelos dele e se afastou. “Durma com os anjos, querido”.
“Boa noite”.
Virou o rosto para a parede, agora sem um pingo de sono. Com a mãe fora de casa, estava perdido… se com ela sua vida em casa era um inferno, sem ela seria pior do que isso, se é que existe algo pior. Perto disso, até mesmo a morte lhe parecia um pouco agradável…
Era a última aula antes do intervalo, mas parecia ser aula vaga, pois o professor faltara e não havia substitutos. Mas nem por isso os alunos tinham permissão para ficar perambulando pelos jardins do colégio. Estavam todos confinados dentro da sala, reunidos em pequenos grupos, conversando.
Todos, menos um: Minoru. Não estava completamente isolado num canto da sala, mas não falava com nenhum de seus colegas com quem costumava andar. Colegas, sim, e não amigos, pois não conseguia confiar neles. Não conseguia contar absolutamente nada sobre o que acontecia em sua vida, não os deixava saber nem onde morava, e por isso nunca tinha nada a dizer. Quando tinha, era porque se interessava e sabia sobre o assunto, mas sempre alguém o cortava e voltava a ficar calado.
Estava sentado olhando pela janela o céu azul sendo tomado pelas nuvens carregadas de água. Com certeza teria que voltar pra casa debaixo de chuva… mas não era problema algum, pois gostava de andar na chuva, principalmente se houvesse sol ao mesmo tempo, o que não seria o caso agora.
“Oi!”.
“Oi”, respondeu olhando o rosto da pessoa que viera lhe falar.
Era Miyuki Takano, a única do grupo que ainda não desistira de fazê-lo falar mais. Estava sempre tentando falar com ele, e até que tinha sucesso nisso.
“Você está mais quieto hoje”, ela observou, sentando-se ao lado. “Aconteceu alguma coisa?”
“Você é bem atenta… mas não aconteceu nada, não.”, tentou passar alguma verdade naquelas falsas palavras.
“Hm… eu queria estar em casa agora…”, Miyuki apoiou o queixo sobre a mão, de modo que seus longos cabelos pretos caíram sobre a carteira.
“Por quê?”, sempre fazia essa pergunta para não deixá-la num monólogo. Sentia-se confortável quando conversavam, apesar de ser sempre sobre coisas sem muita importância. A verdade era que gostava de conversar com as pessoas, mas só quando estas lhe davam espaço para falar, como agora.
“Meus pais vão viajar de novo”, suspirou fazendo uma expressão desanimada. “Eu entendo que eles precisam fazer isso por causa do trabalho, mas é tão chato ficar sozinha em casa, só na companhia dos empregados”.
“Eles pelo menos não ficam te incomodando”, tentou consolá-la, pensando em como preferia mil vezes ficar sozinho em casa na companhia de empregados do que na de seu irmão.
“Sim, mas… fica uma coisa tão deprimente”, fez uma careta. “Se eu não pudesse ficar aqui a tarde toda, nem sei o que faria”, riu.
“Falando nisso, como estão indo os seus treinos de vôlei?”, optou por mudar de assunto, antes que ficasse um ar pesado.
“Ah! Neste sábado teremos um jogo! Por que não vem para torcer?”, Miyuki se empolgou. Adorava jogar mais que tudo.
“Claro, eu venho sim”, respondeu sorrindo contagiado pela felicidade dela, mesmo sabendo que não poderia comparecer.
“Ou não”, uma terceira pessoa se juntou, cortando a animação.
“Sem essa, Koichi. Ele virá torcer, não é, Minoru?”.
“Não entendo porque você ainda insiste nele, Miyu”, tinha um sorriso cínico nos lábios. “Ele nem vai aparecer, e depois vai inventar uma desculpa esfarrapada pra se explicar”.
“Só porque ele nunca veio assistir a um jogo, não quer dizer que nunca virá”, falou em tom sério.
“Está perdendo seu tempo, eu já disse. Por que não convida a mim?”, olhou bem fundo naqueles olhos negros.
“Eu já convidei o Minoru”.
“Ora! Ele nem fala nada. Estar com ele é o mesmo que estar sozinho”, falou sarcástico. “E além disso, ele deve morar tão longe daqui, que para vir assistir ao jogo ele teria que madrugar!”, começou a rir.
“Pára com isso, Koichi! Você nem o conhece direito”, agora começava a perder a paciência.
“Você também não. Mas eu conheço o suficiente pra saber que ele só está estudando aqui porque tem bolsa. Não deve pagar nem metade da mensalidade!”.
“Pior é você, que fica se achando superior!”.
“Não, não. O pior é ele, que não serve nem pra se defender sozinho. Precisa de você junto na hora”.
Os dois olharam para Minoru, ainda sentado, que só ouvia a discussão entre os dois. Koichi falara tudo aquilo para provocá-lo, mas não obtivera sucesso algum nisso, pois continuava tão calmo quanto antes. Quando notou que olhavam pra ele, levantou e saiu de perto sem dizer nada.
“Ta vendo? Você o aborreceu!”, Miyuki o culpou.
“Não fala besteira”, ficou olhando por onde o moreno tinha acabado de passar. “Mas ele vai ver só… vai aprender a não me ignorar assim”.
“Olha lá o que você vai fazer, hein?”.
“Relaxa. Não vai ser nada demais…”, sorriu cínico.
Como era esperado, a chuva começou a cair forte acompanhada por relâmpagos e trovões. Ventos fortes fustigavam as copas das árvores do jardim e açoitavam o vidro das janelas. Aqueles munidos de bons guarda-chuvas ou de motoristas particulares deixaram os domínios do Colégio Mirai há algumas horas, sobrando então somente aqueles com atividades extracurriculares e aqueles que esperavam a chuva amainar.
No corredor térreo do prédio principal, um pequeno grupo de garotas conversava enquanto aguardava. Mas todas, de repente, mudaram de assunto e passaram a cochichar quando avistaram um dos seres mais belos que já tinham visto.
Ele vinha pelo corredor, destacando-se tanto por estar sozinho quanto pelos fios prateados de seu cabelo que esvoaçavam conforme andava a passos apressados, os olhos azuis, e o jaleco branco se sobrepunha às outras vestes também brancas indicando que trabalhava na ala de enfermagem da escola. Provavelmente estava sem ter o que fazer por lá – era só um assistente – e resolvera dar uma volta…
“Hirose-sensei!”, uma delas ergueu uma das mãos, chamando-o.
“Ah, olá”, sorriu gentilmente. “Está tudo bem com vocês?”.
“Claro”, a que o tinha chamado respondeu sorrindo nervosamente, enquanto as outras se mantinham caladas. “Já está indo embora?”.
“Ainda não. Só poderei sair daqui quando me liberarem”, disse. “Mas vocês poderiam ter ido pra casa faz tempo, já. O que fazem aqui?”.
“A chuva ainda está muito forte”.
“Bem, espero então que a chuva pare. Já devem estar ficando entediadas aqui, não é mesmo?”, sorriu novamente, para depois ficar sério. “Agora preciso ir andando. Até amanhã”, e se afastou.
“Ai, eu não acredito que consegui falar com ele!!”, depois que Hirose ficou fora de alcance, a garota estava histérica. “Ele é lindo, perfeito!”.
“Kyaaaa!!!!”, as outras fizeram coro, juntando-se à outra.
“Qualquer dia desses, vou fingir que estou passando mal só pra poder ficar lá com ele”, uma segunda decidiu.
“Mas e se ele não estiver na sala dele na hora? Aí você ficaria sob os cuidados do Kitta-sensei”.
“Não estraga o meu sonho!”.
“Mas é a pura realidade, querida. E além disso, o Hirose-sensei vive andando pelo colégio. Ele sempre diz que é porque tem coisas a fazer, mas todo mundo sabe que é o contrário, já que ninguém aqui vem doente”.
“Ah, eu viria!”.
“Eu também”, mais uma vez as outras fizeram coro.
Ficaram discutindo sobre as várias maneiras de encontrar com Hirose na ala de enfermagem, entretidas e excitadas só com a possibilidade de atraí-lo, até a chuva abrandar. Toda essa emoção que sentiam ao vê-lo era causada por sua pouca idade: havia somente seis anos separando-o delas, que cursavam o primeiro colegial.
“Ah, não… já escureceu. Ficar esperando chuva passar não dá certo mesmo. Devia ter saído quando tocou o sinal… agora o Eiji vai me matar”, Minoru cruzou a porta da recepção a passos rápidos. Devia estar em casa há pouco mais de uma hora, mas a chuva estava forte demais, e por mais que gostasse de sentir os pingos batendo contra o rosto, do jeito que estava antes não dava. Agora atravessava o portão com o rosto virado para o chão por causa do vento frio do outono, sentindo algumas gotas caírem sobre sua cabeça e seu uniforme preto, alcançando sua pele. Protegia o peito contra o vento com sua pasta, praticamente abraçando-a.
“É nessas horas que eu queria saber voar ou me teletransportar. Por que raios eu moro tão longe daqui?! Koichi de certa forma tinha razão naquela hora… eu moro tão longe, que teria que acordar bem mais cedo pra chegar a tempo pro jogo. Mas ele estava certo também dizendo que eu não ia nem aparecer pra ver”.
Caminhava a passos rápidos a caminho do ponto de ônibus, mas mesmo assim percebeu que estava sendo seguido. Sempre tinha essa sensação, e ela sempre não passava de uma impressão, porém desta vez era real. Desviou-se de sua rota diária entrando numa rua qualquer à esquerda e seguiu reto por duas quadras até dobrar à esquerda novamente. Por um bom trecho, só pôde seguir em linha reta. Olhava discretamente para trás de vez em quando, constatando que aqueles dois desconhecidos ainda estavam lá atrás.
Virou na primeira rua à esquerda que apareceu, tendo em mente fazer um contorno para não se perder, já que não conhecia bem aquele lugar. Surpreendeu-se um pouco ao descobrir que tão perto da escola havia um bairro residencial de classe alta, mas não parou nem por um minuto para observar as magníficas casas e os prédios de no máximo quatro andares.
Então a rua, antes plana, foi virando uma subida. “Sem problemas”, pensou Minoru. Mas quando estava no final dela, notou que os seus perseguidores estavam perto demais e tentou ir mais rápido. O único porém era que estava cansado, com uma vontade louca de sentar e descansar. A chuva também interrompeu a trégua, voltando a ficar forte, assim como os trovões também voltaram a soarem estrondosos. Uma onda de pânico começou a tomar conta de seu corpo, e agora nem olhar para trás não olhava.
“Hei, garoto! Você é o Hanashiro, não é?”.
Ouviu um deles gritar para ser ouvido, e quando distinguiu o som de seu nome, estacou e virou trêmulo, deixando que se aproximassem.
“Já chega de fugir, não acha?”, o homem, bem mais alto que Minoru, falou ofegante.
“…”, nada respondeu. Queria falar alguma coisa, mas não conseguia.
“Se soubéssemos que ia parar quando chamássemos, teríamos feito isso antes. Devíamos cobrar mais daquele cara, não acha?”, o segundo homem perguntou ao primeiro.
“Cobrar…? Do que eles estão falando?”
“Falaremos com ele depois. Agora, o recado que temos que passar a você, moleque”, o primeiro segurou-o forte pelo queixo.
“Me solta”, deu alguns passos pra trás.
“Cala a boca e escuta”, o segundo agarrou-o pelos cabelos, puxando-o pra perto de novo. “É pra você ficar longe desse colégio que você estuda. Está sujando o nome dele com esse seu nome simples. Somente a elite pode freqüentá-lo, e caso não aceite isso, é bom começar a correr”, falou em tom de ameaça.
“…”, ainda processava a mensagem. Estava sendo ameaçado, isso era óbvio, e por quem também era bastante óbvio. Mas não deixaria de estudar no Colégio Mirai por causa disso, não depois do trabalho que deu pra conseguir e manter a bolsa. Uma vaga num dos melhores colégios do país não podia ser desperdiçada desse jeito. Fora que tinha sido vontade de seu pai que entrasse lá.
“Então, vai fugir como um covarde ou não?”, apertou mais ainda os fios que tinha entre os dedos, sentindo que arrancava vários.
“…”, ergueu uma mão para tentar soltar-se, mas antes que completasse o movimento, foi jogado contra o chão e em seguida erguido pela gola do uniforme.
“Seu folgado, vai ficar quieto mesmo, é?”.
“Vai ver, ele está com tanto medo que não consegue falar”, o outro riu.
“Hn. Se fosse medo, não estaria olhando com essa cara”, observava-o com a distância de um braço, analisando-o de cima a baixo.
Minoru os encarava tentando se soltar. Seus olhos cinzentos querendo intimidá-los. Segurou a pasta que ainda estava em sua mão com mais firmeza e bateu-a no rosto daquele que o segurava, para em seguida sair correndo.
“Maldito! Volta aqui!”, o que havia levado a pastada saiu correndo atrás, acompanhado pelo outro.
“Que drogaaa!!! O que foi que eu fiz pra ter uma vida assim??”, estava fazendo o caminho de volta correndo, e era incrível como a rua lhe pareceu bem mais extensa que anteriormente. Olhava para os lados sem lembrar direito do caminho e a água batia-lhe no rosto atrapalhando sua visão. Respirava pela boca correndo o máximo que podia, até que encontrou a rua que subira antes. “Finalmente!”, seus passos ficaram mais rápidos, tão rápidos que seu corpo não acompanhou e acabou tropeçando e caindo.
Colocou os braços na frente para proteger o rosto bem a tempo, e por um bom trecho, desceu aquela rua deslizando dolorosamente pelo asfalto, ralando todo o antebraço dos dois braços e mais os dois joelhos no asfalto molhado. “Gyaaaaa!!!”, apertou os olhos com força, sentindo que eles lacrimejavam. Quando finalmente parou, tentou levantar, mas não conseguiu. Arrastou-se a duras penas até a calçada e parou. Além da dor, sentia raiva, muita raiva de si mesmo e da vida que tinha. Odiava sua vida e todos que faziam parte dela. Desejava ter nascido em outra família, em outro lugar, em outro tempo. Mas isso era um desejo impossível que vivia voltando à sua cabeça.
Foi então que começou a ouvir risadas sobressaindo-se do som de água caindo e sentiu uma forte pontada em seu lado esquerdo, seguida por outro no lado direito. Não acreditava que aqueles caras ainda não tinham desistido, e pior: que tinham-no visto cair daquele jeito. Era humilhante…
Dor e raiva. Foi tudo o que sentiu nos minutos seguintes. Fora chutado várias vezes e depois abandonado sob a forte chuva como um cachorro muitas vezes é depois de ser atropelado. Seus joelhos ardiam, assim como os antebraços, e tinha certeza de que sangravam, mesmo que não pudesse ver. O uniforme encharcado rasgado em algumas partes também só servia para deixá-lo mais pesado, e assim, mais difícil de se mover. Tudo o que conseguiu foi arrastar-se até uma parede de um daqueles prédios de quatro andares, que nem porteiro ou recepção tinha por não ser necessário, e encostou-se ali, abraçando as pernas para se proteger do frio.
“Como é que eu vou pra casa agora? Do jeito que estou, não vou conseguir entrar em nenhum ônibus, e ir andando também não dá. Será que eu vou ter que dormir na rua?!”, começou a imaginar a situação, mas logo começou a pensar em outra coisa também: comida. Estava morrendo de fome, como pôde dar-se conta só agora, e não tinha dinheiro suficiente. E além disso, teria que voltar pra casa de qualquer jeito, não podia ficar com o uniforme daquele jeito. Se Koichi o visse, com certeza falaria um monte, rebaixando-o até não dar mais.
“Bela porcaria que eu consegui. Tanto trabalho pra chegar onde cheguei, e tudo pra jogar no lixo. Desculpe, pai, mas se continuar assim, eu não vou conseguir… por mais que tente, se as coisas continuarem assim, não vai dar”, suspirou, tirando um pouco da água que caía sobre si. “Não. Não, Minoru. Pare de pensar assim. Você prometeu, prometeu a si mesmo que ia continuar, mesmo sem o apoio de ninguém”.
“Eu prometi…”, soltou um murmúrio e levantou, apoiando o peso do corpo na parede. “Agora… pra onde eu vou?”, olhou para todos os lados, mas não sabia se localizar.
“Hanashiro?”, alguém o chamou.
Instintivamente encolheu o corpo, achando que aqueles caras tinham voltado. Mas como não aconteceu nada, resolveu encarar a pessoa que chamara por seu nome, rezando para que fosse alguém de fora do colégio.
“O que está fazendo aqui?”.
“Hirose-sensei?”, piscou algumas vezes, não acreditando na sorte e no azar que estava tendo ao mesmo tempo.
“Você está todo molhado, entre aqui”, e puxou-o para dentro do prédio. “O que aconteceu com você?!”, surpreendeu-se com o estado que Minoru se encontrava.
“Eu…”, pensou rápido em uma resposta. Não poderia dizer que fora espancado a mando de alguém da escola, e muito menos que sabia quem era esse alguém, então resolveu inventar algo que não fosse de todo uma mentira. “Eu cai”, experimentou se imaginar dizendo uma coisa dessas. “Ele deve estar me achando um idiota!”.
Hirose olhou-o bem de cima a baixo em silêncio. “Venha comigo”, adiantou-se até o elevador.
Minoru o seguiu até seu apartamento que descobriu tomar todo o quarto andar, em silêncio. Sentia-se tenso, sem saber o que fazer. Seguiu-o apartamento adentro, até um quarto que supôs ser o dele por causa da cama desarrumada. Ficou parado à entrada, apenas observando-o mover-se até um armário pegando uma toalha e roupas secas.
“É bom você tomar um banho quente e trocar de roupa se não quiser pegar um resfriado”, ele falou estendendo o que tinha à mão. “Pode usar o meu banheiro”, fez sinal para que ele entrasse de uma vez.
“Obrigado…”, o que deveria sair em alto e bom som, acabou não passando de um murmúrio quase inaudível.
Não estava entendendo como e porque Hirose estava sendo tão hospitaleiro assim, sendo que no colégio só haviam trocado uma ou duas palavras até então. Mas parecia que ele já sabia o nome de Minoru e o conhecia há um certo tempo, o que não era bem verdade. Viam-se praticamente todos os dias, mas não se falavam.
A água quente percorreu todo o seu corpo, descendo até seus pés e partindo para o ralo. No primeiro encontro da água com suas feridas, permaneceu completamente imóvel, apertando os olhos por causa da dor que o atacava. Os dois joelhos e antebraços ralados ardiam horrivelmente, e só piorou quando os lavou, mesmo que com o máximo de cuidado possível. Fazia muito tempo que não se feria assim, por isso estava desacostumado àquele tipo de dor. Porém a dor que sentia a cada vez que se curvava não ficava muito atrás. Vários hematomas se encontravam arroxeados em sua barriga e coxas, resultantes dos pontapés que levara minutos atrás.
Hirose estava na cozinha, em frente ao fogão, quando ouviu o cessar do som do chuveiro. “Bem a tempo”, pensou desligando o fogo e dirigindo-se ao quarto esperando ver Minoru limpo e perfumado. De fato, conseguiu ver o que esperava, e algo mais: via-o praticamente nadando dentro de suas roupas. Por terem tamanhos diferentes, obvio que as roupas não serviriam direito, sabia disso, mas não imaginava que ficariam sobrando daquele jeito. Era até… engraçado.
Como ambos estavam quietos, o mais velho resolveu quebrar o silêncio que se estabelecera.
“Eu fiz uma sopa, aceita?”, sentiu-se um pouco formal demais com essas palavras, e percebeu que isso talvez só deixasse o outro menos confortável. “Eu vou dar um jeito no seu uniforme, então não precisa se preocupar com ele… as roupas você pode devolver um outro dia, sem problemas”, acrescentou quando reparou que uma pergunta cuja resposta seria esta estava prestes a sair da boca de Minoru.
“Ta…”, murmurou mais uma vez, sentindo-se um idiota por não estar conseguindo articular mais do que uma palavra para as respostas. Queria perguntar coisas, tentar engatar algum assunto pra ver se se sentia mais a vontade, mas não conseguia pensar em nada, e o que pensava deixava para dizer depois, e quando chegava esse ‘depois’, achava que já estava tarde demais para dizer e ficava calado.
Em silêncio, sentaram-se na mesa da cozinha, os olhos cinzentos de Minoru passeando incontrolavelmente por todo o apartamento muito bem decorado. A sopa, pelo que reparou, era daquelas instantâneas, o que fez com que olhasse sem perceber do prato para a cara de Hirose, que corou um pouco. Pegou a colher para começar a comer, mas sua mão começou a tremer sem que pudesse evitar e uma careta formou-se em seu rosto – a manga da camisa que vestia raspava em seu antebraço, fazendo-o arder.
Tal reação não passou despercebida aos olhos azuis profundos de Hirose que, imaginando o que acontecia, buscou numa gaveta alguns objetos e sentou-se no sofá do outro lado do balcão da cozinha, chamando Minoru em seguida.
“Lembrei-me agora que você disse ter caído, não é mesmo?”, puxou o braço direito dele apoiando-o em sua coxa e desenrolou um rolinho de gaze. “É, parece que você ralou feio aqui, hein?”, fez o curativo habilmente e fez o mesmo com o outro braço e os dois joelhos. “Hm… como estamos no começo da semana, você pode passar na minha sala depois das aulas pra trocar os curativos e ver se precisa passar alguma coisa”.
“Por que… por que está fazendo tudo isso? Não que eu esteja reclamando, mas… você nem me conhece direito, e…”, tomou coragem para falar, mas foi interrompido.
“Bom, eu sei que você é um aluno esforçado e responsável. Pra mim isso já basta”, sorriu. “Eu estou morrendo de fome, você não?”.
Minoru suspirou, achando aquele cara inocente demais, mas voltou com ele até a mesa e terminaram de comer. Não que seu braço tenha parado de doer, mas pelo menos não incomodava mais tanto quanto antes.
O tempo avançou rápido, e logo ficou tarde o suficiente para não haverem mais ônibus que passassem perto da casa de Minoru – o último passava às nove horas, e já havia passado um bocado desse horário. O céu estava todo encoberto por nuvens espessas, e a chuva antes tão forte agora não passava de uma fina garoa incapaz de encharcar alguém. Os ventos também se tornaram mais brandos, porém nem por isso ficaram menos frios.
Um carro preto portando apenas o motorista e seu passageiro passou pelas ruas molhadas como os outros carros e foi para fora do centro da cidade, seguindo reto por uma avenida. O motorista era Hirose, e seu passageiro, Minoru, que pescava no banco. Suas pálpebras não queriam mais obedecer e insistiam em querer fechar-se. Seus pensamentos também não contribuíam muito ao vagarem sem limites pelas mais diversas coisas, algumas das quais nem tinha consciência, mas todas tendo início com a música que ouviam no carro. Era uma música comum, que não parava de tocar nas rádios, mas que por causa do ritmo fazia com que sua mente vagasse por situações imaginadas. Freqüentemente se pegava pensando em como lidaria com uma certa situação se esta viesse a acontecer, ou então relembrando de alguma conversa ou discussão que teve e que poderia ter respondido melhor ou falado outra coisa.
Hirose olhou para o lado, e não se surpreendeu quando viu Minoru adormecido. Parecia ainda mais desprotegido do que antes, quando o encontrara ao lado da entrada de seu prédio. Naquela hora é que se surpreendera, pois não esperava encontrar ninguém com aquele mau tempo. Continuou dirigindo calmamente, até parar em frente a uma casa de tamanho médio. Viu que ainda havia luzes acesas, provavelmente da família preocupada com o atraso e falta de notícias do filho. Mas não foi preciso fazer nada para despertá-lo, pois ele o fez por si só.
“Está entregue”, sorriu-lhe Hirose, sorrindo por trás da franja prateada que lhe caía sobre metade do rosto mais ao lado direito.
“Muito obrigado por tudo, Hirose-sensei”, agradeceu ainda sonolento.
“Não precisa ficar me chamando assim fora do colégio”, fez uma careta. “Assim me dá a impressão de que eu bem mais velho… me chama só de Akio, pode ser?”.
“Akio? Hm… ta, tudo bem então”, não sabia que o nome dele era Akio. Sempre o chamara de Hirose, como todas as outras pessoas que o rodeavam, e nunca lhe passara pela cabeça saber seu primeiro nome… “Burro! É obvio que ele tem um primeiro nome”.
“Até amanhã, então. Não vai se esquecer de passar na minha sala”, avisou enquanto o outro descia do carro.
“Não vou esquecer”, acenou pra ele nervosamente e abriu a porta da frente com sua chave, procurando fazer o menor ruído possível.
Já era pra estar em casa, na verdade em sua cama, há um certo tempo, e se fosse pego por seu irmão chegando a essa hora… nem sabia o que poderia acontecer. Rezava para que aquelas luzes acesas fossem apenas luzes esquecidas e que seu irmão tivesse ido fazer algum trabalho, mas provou-se o contrário. Ele estava lá, deitado no sofá. Cochilando, mas ainda sim estava lá.
Passou silenciosamente por ele e fechou-se em seu quarto, respirando aliviado por não ter que tomar outro banho. Abriu uma das portas de seu armário e observou seu reflexo no espelho que havia ali. Para sua sorte, não havia nenhuma marca no rosto, diferente do peito, como pôde constatar ao abrir os botões da camisa. As marcas estavam um pouco mais feias que antes…
“Isso é hora de chegar?”
Gelou ao ouvir aquela pergunta. Jurava que Eiji estava dormindo na sala e que não acordaria tão cedo.
“Estou falando com você. Por acaso é surdo?”, entrou no quarto, indo em direção ao irmão.
“O que você quer?”, voltou a fechar a camisa apressadamente, mas sem conseguir abotoá-la, e encarou as íris esverdeadas de seu irmão deixando bem claro que não estava a fim de responder um questionário que sabia que viria.
“O que você está escondendo aí? Não andou fazendo merda de novo, andou?”, segurou-o pelo braço, apertando com firmeza.
“Não é da sua conta”, continuava a encará-lo, sentindo que ficava cada vez mais irritado com aquela insistência desnecessária.
“Eu estou perguntando na boa. Anda, responde logo”, isso foi praticamente uma ordem, e apertou um pouco mais o braço do irmão.
“Me larga”, deu um puxão, soltando-se. Porém não ficou livre por muito tempo, pois logo foi prensado contra a parede a alguns passos atrás.
“Por que nunca responde direito quando eu faço uma pergunta?”, estava muito, muito próximo do outro.
“Por que não vai cuidar da sua vida e me deixa em paz de uma vez?”, respondeu com outra pergunta, e tentou se libertar, mas a única coisa que conseguiu foi ter os punhos presos contra a parede, fazendo com que soltasse a camisa e, conseqüentemente, revelasse seu tronco cheio de hematomas.
“…”, ficou momentaneamente sem ação, olhando para aquelas marcas que enchiam a barriga e o peito do moreno, que baixou o rosto. “O que você andou fazendo, afinal?”, foi a única coisa que conseguiu perguntar.
“Eu… eu caí”, mentiu descaradamente. Se dissesse a verdade, sabe-se lá o que aconteceria com o mandante do espancamento, e não estava com muita vontade de descobrir, se é que Eiji faria alguma coisa a respeito. Incriminar o filho de um homem rico causaria uma enorme confusão, manchando o nome da família do outro, que com certeza sairia sem punição alguma. Enquanto ele ficaria jurado de vingança, com certeza. Fora que não tinha prova alguma de que fora mesmo Koichi o mandante.
“Pare de brincar e fala logo. Quem fez isso?”, apertou um pouco mais os punhos dele, e Minoru deixou escapar um choramingo. “Seu mentiroso manhoso! Eu nem estou fazendo nada pra você ficar fingindo que está doendo”, apertou mais ainda.
“Me solta!”.
“Você não acha que eu vou acreditar que você ficou assim porque levou um tombo, não é?”, riu. “Anda, fala que eu te solto. Eu quero saber quem foi que conseguiu bater em você pra ver se aprende a ficar mais esperto”, um sorriso maldoso desenhou-se em seus lábios.
Minoru ergueu um pouco o rosto, perguntando-se porque ainda continuava vivo. Pelas palavras de Eiji, agora tinha certeza de que ele não estava nem aí se morresse ou não. Logo, não faria diferença na vida de ninguém. Morrer seria uma boa, com certeza. Assim, sua mãe não precisaria mais trabalhar tanto para sustentar os dois filhos sozinha e, quem sabe, não poderia reencontrar seu pai, onde quer que ele estivesse?
Se nem seu próprio irmão se preocupava com sua vida, porque outros se preocupariam? Para que continuaria a viver? Para ser mais e mais explorado sob a desculpa de estar fazendo favores aos outros, quando na verdade estava sendo obrigado a ajudar? Favores e ajudas geralmente vêm por vontade própria, e não por obrigação. Mas sempre, desde pequeno, Minoru se disponibilizava para fazer alguma coisa para os outros, mesmo que as vezes não quisesse muito. O problema era que as pessoas insistiam, e muito, até que acabava cedendo e fazendo tudo o que elas pediam. E agora que estava cansado disso e queria parar, não permitiam. Jogavam-lhe coisas em sua cara, dizendo que sempre fora um inútil e que nunca fizera nada. Mas isso era mentira, uma mentira inventada na hora, para que se sentisse culpado e fizesse o que estavam mandando. E sempre dava certo… talvez seu maior defeito fosse esse: o medo de magoar as pessoas ao negar-lhes as coisas. Ou então, talvez fosse o medo de afastá-las, o medo de ficar sozinho… mesmo que já se sentisse sozinho mesmo quando elas estavam por perto.
O Homem é um grande ingrato, essa é a verdade. Quanto mais se faz, mais se quer. O Homem nunca está satisfeito com o que já tem, Ele vai sempre em busca de mais, passando por cima de qualquer coisa que apareça no caminho. E à isso geralmente se dá o nome de egoísmo, e não de ‘força de vontade’, como muitos dizem. Coisas assim são muito fáceis de se confundir, mas sempre há aquele pequeno detalhe que faz toda a diferença. Agora… por que o Homem não se sente satisfeito nunca? Porque se se sentisse assim tão rápido, a sociedade pararia e deixaria de evoluir… Talvez fosse melhor que isso acontecesse, pois não haveria tanta degradação no mundo, tanta poluição, tantas coisas ruins.
Por que as coisas são assim, e não de outra forma? Por que as pessoas nascem e morrem, quando poderia ser muito melhor se elas apenas nascessem, pois assim não trariam tristezas aos que ficam? Por que esquecemos tão facilmente momentos de felicidade? “Por que eu nasci?…”.
“Me solta, Eiji”, pediu, com uma voz calma.
“Você ainda não respondeu o que eu queria”.
“Me solta, por favor”, pediu novamente, sentindo-se no limite.
“Por quê? Se não você vai ficar bravinho, é?”, provocou.
“Me solta, droga!!”, gritou de repente, deixando sua raiva fluir. Estivera calmo até agora, esperando que seu pedido fosse atendido, mesmo sabendo que não seria, mas ninguém nunca percebia que estava chegando em seu limite. Costumava sempre ser muito calmo e paciente, mas até mesmo sua paciência tinha limites. “Eu mandei você me largar, por acaso é surdo?!”, estava gritando, não dando a mínima pro horário tardio da noite.
“Ah, ficou irritadinho agora, é?”, riu debochado, sabendo que isso o irritaria mais ainda.
“Pra que você faz isso, hein?? Será que é tão divertido assim me ver perder a calm—“.
“Cala a boca”, interrompeu-o.
“Não, cala a boca voc—“.
“Cala a boca”, repetiu, não o deixando terminar de falar.
“Que merda, Eiji!! Cala a boca você!!!”, estava gritando tanto, que sua garganta começou a doer. “Já chega disso, não acha?? Você está sempre pisando em mim, será que não cansa disso?”, seus olhos prateados começaram a brilhar, anunciando que estavam se enchendo de lágrimas. “E já que queria tanto ver, pronto! Satisfeito com isso?”, tirou a camisa, jogando-a armário adentro. Respirava ofegante, olhando o irmão loiro com raiva, não, ódio. “Satisfeito?! Agora você pode apontar pra mim e ficar rindo na minha cara. Não era isso o que queria?”.
Eiji estava a alguns passos de Minoru, olhando-o um pouco surpreso, mas ainda com um sorriso no rosto. Não sabia porque, mas adorava vê-lo naquele estado completamente irritado. Em parte era divertido, e em parte era porque tinha toda a atenção dele para si. Normalmente, quando se cruzavam, passavam reto um pelo outro, como se não se conhecessem. Sabia que assim só faria o ódio do irmão crescer mais e mais, mas não se importava, desde que conseguisse a atenção dele.
Minoru ficara tão aborrecido, que nem notara que já fazia um bom tempo, seus braços estavam livres novamente. Ficou encarando o irmão por mais algum tempo, até a respiração quase voltar ao normal, e deu uma olhada nos braços enfaixados. Estavam doendo por causa do apertão que levara, mas aparentemente não havia nada de errado com eles. Ainda sentia uma certa raiva correndo-lhe nas veias, mas estava respirando bem fundo para voltar à calma, mesmo que o motivo de tudo ainda estivesse presente no quarto.
“Vê se dorme logo, já está tarde”, Eiji falou mais como uma recomendação do que como um aviso em si, e deixou o aposento fechando a porta suavemente atrás de si, como se nada tivesse acontecido.
Ouvir aquela voz fez o corpo de Minoru ficar tenso por alguns segundos. Só de ouvi-la, já era irritante. Definitivamente, a pessoa que mais odiava nesse mundo era ele. Não havia dúvidas quanto a isso, e não importava se eram irmãos ou não.
.....::|CONTINUA|::.....
N/A: primeiro capítulo, então eu fiz bem fraquinho^-^’ Mas daqui pra frente a coisa esquenta, oka? Por isso, onegai!, leia a continuação!!^-^d
Críticas e comentários são muito bem vindos também!!^_~
Akemi Hidaka
siberian_.br
12 de Junho de 2004