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Author: Clio Trismegista
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Suspense/Horror - Reviews: 5 - Published: 12-04-04 - Updated: 12-04-04 - id:1775097

O Jogo

Comandante Arbus, 17 de Julho de 2005, 20h18m

Luiz Henrique, esse é o meu nome.

Tenho 1,77m, 90k, branco, olhos e cabelo preto. Ah, tenho 22 anos.

No momento estou parado em frente ao espelho do guarda-roupa ajeitando o meu topete. Aliso o vinco do casaco preto e apalpo as chaves do carro no bolso.

Desço as escadas e tranco a porta. Entro no Palio e começo a dirigir a caminho para o Biju, o apelido do único colégio pago da cidade.

Reunião de cinco anos de formatura, sabem como é. Um bando de gente indo se mostrar pros ex-colegas. Não sei como Ciça me convenceu a vir.

A cidade é tão pequena que nem tem semáforos. Eu não sou daqui, apenas estudei os dois últimos anos do colegial aqui. Mas mesmo assim eu vou. Por quê? Bem... nunca discuta com a garota que tirou a sua virgindade.

Eu estaciono na porta do colégio. Há mais uma meia dúzia de carros. Poucos, mas não me surpreendo. Apenas os alunos que fizeram parte do grupo de orientação vocacional foram convidados.

Sou recebido por Lidiane. Minha ex-orientadora vocacional. Ela sorri, simpática, e desce comigo até o pátio. Trocamos amenidades enquanto andamos até a sala em que será a reunião.

Ouço o barulho de música, péssima música por sinal. Um desses grupos da moda. Som de vozes, risadas. Entro na sala e já reconheço os que estão lá. Sorrio.

Lidiane se afasta de mim e Cíntia se aproxima, Cíntia... Simpática, alegre e burra. Só não é loira. Ela começa a falar sobre como é bom me ver e já pergunta direto o que estou fazendo.

- Psicologia. Esse ano eu me formo.

Ela dá um sorriso murcho e se afasta.

Gilberto, o único mestiço-de-japoneses-loiro que conheço, se aproxima e aperta a minha mão. Como eu, está de terno. O frio está de rachar. Lá fora começa a garoar.

- Fala, Luiz.

- Opa! E ai, Gilberto?

- Beleza... Ei... não repara a Boo. – Ele utiliza o apelido de escola de Cíntia – Ela jubilou em fonoaudiologia e tá meio chateada.

- É... chateada porque ninguém mais se ferrou pra ela não se sentir a “única”.

- Hahaha...

Somos chamados pra sentar. Eu me sento ao lado de Gilberto e de Cíntia, que me dá um sorriso sem graça. Douglas, Danilo, Luciana, Beatriz, Pablo e... uma cadeira vazia.

Forço a memória pra me lembrar de quem está faltando. Esforço inútil. O atrasado chega, ou melhor, a atrasada.

Elisa dá um sorriso nervoso e acena com a cabeça. Lidiane se levanta e vai cumprimentá-la.

Eu a observo enquanto ela é guiada ao seu lugar.

Continua como eu me lembrava, baixinha e pálida. O cabelo está comprido e sujo, as roupas puídas, mas são os olhos que me chamam a atenção. Eles sempre me irritaram. Elisa Bottura possui os olhos mais marcantes que eu conheço. São comuns, castanhos, porém muito expressivos. E o jeito como ela olha. Parece que lê seus pensamentos quando olha pra você. Mas hoje eles estão inquietos, brilhantes, vidrados. Circundados por imensas olheiras negras. Diabos... ela tá drogada!

Não sou só eu que noto, na minha frente, Danilo troca comigo uma expressão preocupada. Só que não fazemos nada.

Lidiane começa o discurso. Sobre como é bom nos ver e blá blá blá... Eu ainda me prendo a Elisa.

Ela se remexe na cadeira, corre os olhos por todo o local sem se prender a nada. Começa a remexer um anel qualquer no dedo. Eu reconheço o tique. Já estudei isso, pessoas nervosas tem a tendência de expressar as suas emoções fisicamente, quase sempre de forma semi-consciente.

Todos batem palma. Eu e ela nos ligamos ao mesmo tempo e aplaudimos também, nem sei por quê.

Lidiane quebra uma garrafa e começa a tirar cartas de dentro dela. Lembro disso. Há 5 anos escrevemos como achávamos que iríamos estar no futuro. Colocamos dentro da garrafa para lermos na reunião que está acontecendo agora.

Ela lê a carta de Luciana que cora, nós rimos. E eu continuo a vigiar Bottura.

Luciana começa a falar, imagino que está contando sobre a sua vida atual. Elisa pára de se mexer e se põe numa posição que eu chamaria mais de empoleirada do que sentada.

Aplausos de novo.

Lidiane começa a ler a carta de Elisa. Não sei se ela notou algo e quer terminar com a nossa drogada o mais rápido possível para que ela possa ir embora. Elisa fixa os olhos nela. É aquele olhar de que já falei pra vocês.

Elisa...

Se havia uma pessoa no colégio que ninguém ficaria surpreso se virasse uma astronauta é Elisa. Inteligente sem ser CDF. Uma gama de conhecimentos gerais de fazer inveja, e um total desprezo pela opinião alheia. Essa era ela.

Um trovão. Outro. E um grito.

Nada para se alarmar. É apenas a reação da maioria das pessoas perante uma tempestade. Eu sorrio e digo uma piada qualquer... Treinamento básico para situações de tensão, aprendemos isso na faculdade para o caso de trabalharmos com grupos.

- Ok, gente! Acho que tá na hora de um refresco! – Lidiane sorriu e se levantou.

Andamos atrás dela em direção ao refeitório, Douglas e Beatriz vão abraçados. Certas coisas nunca mudam.

A chuva agora se mistura ao vento, adentrando a cobertura de zinco, Cíntia é a primeira a avançar. Ao mesmo tempo, um raio sobe arrebentando o chão e transformando minha ex-colega numa pilha de carne queimada. O impacto do raio com o teto faz tremer as instalações e nós todos somos jogados pra trás.

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Se o meu cérebro demorou pra entender o que havia acontecido, graças a Deus, os meus instintos não, por causa deles eu sobrevivi ao raio. Assim como os outros, eu havia sido jogado para trás com o impacto. Todos entramos em choque, mas não naquele estado catatônico. Nós gritávamos, gritávamos a plenos pulmões, aterrorizados pelo que havia acontecido.

Menos uma, só uma pessoa não gritava: Elisa. Ela estava caída no chão, os olhos vidrados, a boca se mexia rapidamente, contudo sem nenhum som. Foi então que eu me toquei que aquilo que ela rolava incessantemente pelos dedos não era um anel, era um terço.

Me senti agarrado pela nuca e fui posto de pé por Gilberto que berrando e empurrando, levava todos de volta pra sala.

Nos espalhamos pelas cadeiras e lá fora a chuva continuava.

- Que merda foi aquela?! – Gilberto gritou e muitos pularam nas cadeiras, pra meu desconforto, fui um deles. – Que merda foi aquela!!

Era o começo da histeria. Alguns de nós já soluçavam, não se pode culpá-los, quantas pessoas suportam a pressão de ver um ser humano ser torrado vivo?

Aparentemente, Lidiane conseguia.

- Gente, eu sei que é duro, mas vamos nos manter calmos, ok? Eu vou até a secretaria ligar para a polícia e o hospital.

É... ninguém tentou parar Lidiane... Por que faríamos isso? A atitude dela era tremendamente racional, mas de qualquer forma, deveríamos te-la parado.

Lá fora, o vento se tornava mais e mais violento, mas nós estávamos tão tensos... estávamos em choque.. e nem notamos isso.

Logo que Lidiane cruzou o corpo carbonizado de Cíntia, um vento forte a abateu. Eu nunca tinha visto uma cena como essa em outro lugar que não fosse a tv. Lidiane foi levantada pelo vento e voou pelo pátio.

Os gritos dela passavam pela janela fechada da sala onde estávamos. Os raios iluminavam tudo e foi assim que a vimos ser arremessada contra a porta de vidro da secretaria.

Um segundo clarão nos permitiu ver o vidro quebrado e o corpo ensangüentado que há poucos segundos se mexia e atendia pelo nome de Lidiane.

Os pêlos de minha nuca se arrepiaram e foi com horror que eu percebi que a minha mente estava travada naquele vácuo que nos acomete quando o nosso cérebro não consegue processar as informações recebidas; fechei os olhos, aliviado, quando ouvi um som que eu era capaz de racionalizar: Luciana estava vomitando.

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Com um lenço eu enxugava a testa suada de Luciana, enquanto a ajudava a se sentar. Danilo estava deitado sobre uns colchonetes que achamos no fundo da sala, a pressão dele caiu. Douglas está abraçado a Beatriz, só faltou me beijar quando eu ofereci meu casaco pra ela. Os outros estão tremendo nos cantos ou me olhando criticamente, parece que fui eleito líder.

Já ouviram dizer que um psiquiatra é um médico que não pode ver sangue? Bem, um psicólogo nem chega a ser um médico, mas todo mundo esquece isso na hora do aperto. É por isso que eu estou aqui bancando o enfermeiro.

Uma chuva lascada, duas pessoas mortas de forma estranha, e um bando de gente tendo ataques histéricos, quando voltar pra casa a Ciça me paga!

- Pablo, Gilberto! Me ajudem aqui! – Chamo os únicos dois homens que não estavam agarrados a mulheres chorosas pra me seguirem.

Descemos até o porão da escola, lá pegamos vários encerados. Nenhum de nós falou, era óbvio que os usaríamos para recolher os corpos.

Paramos na frente da porta, eu não estava particularmente ansioso para ir lá fora e creio que meus dois ex-colegas também não.

De qualquer forma, nós começamos a caminhar lentamente e recolhemos os restos queimados de Cíntia. Tivemos que parar uns minutos, o cheiro de carne queimada é de revirar o estômago.

Depois fomos até Lidiane, foi um pouco mais complicado, havia estilhaços de vidro para todos os lados e, por todas as coisas da Terra, a pele do rosto dela fora cortada e se deformava sobre a carne. Vendo isso me pergunto se estou num maldito filme trash.

Eu e Pablo enrolamos o corpo, e Gilberto vai à frente pra abrir a porta. Nesse momento ouvimos um ruído de ferro sendo contorcido e um pedaço do teto, feito com aquelas telhas brasilite, voa por cima de nós.

- VAI LOGO, PORRA! CORRE! – Aos trancos, corremos para o prédio. A porta se fecha segundos antes de outra telha passar rente a nós.

Continua...



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