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FOGO
--escrito por Júnia --Janeiro-Fevereiro/2003
01
Ela corria. Corria sem parar, sem ter tempo para respirar. Atrás de si estava tudo queimando. Muito fogo, calor, e pessoas gritando. O inferno na Terra. Mesmo assim aqueles homens continuavam a lhe perseguir. Ela atravessou o imenso salão principal e a porta da frente. Durante os anos que passara dentro da Organização, nunca estivera ali. Não conseguia acreditar nos seus próprios olhos. Só tinha que atravessar o portão e estaria livre. Agora já se encontrava no jardim. Um belo jardim estilo japonês, com carpas num lago e uma pequena ponte sobre ela. Quem passasse por ali nunca imaginaria o que se escondia atrás daquelas portas e dos vidros espelhados. Ela parou e se virou para trás, olhando furiosamente para o lugar que estava deixando. Ao mesmo tempo os homens que a perseguiam pararam. Eles sabiam o que ia acontecer e que não sairiam vivos. A temperatura começou a aumentar cada vez mais. A água do lago começou a borbulhar e as carpas pulavam desesperadas. Logo todo o jardim estava em chamas.
02
Seu nome era Katherine. Não tinha sobrenome pois não sabia quem eram seus pais. Mas ela sabia que não tinha nascido: tinha sido criada.
Dezesseis anos antes um grande prédio com o nome de Napoleon havia sido construído na cidade de Great Mine, nos Estados Unidos. Diziam que era uma firma de consultoria, reconhecida mundialmente. Mas o que uma empresa tão importante estaria fazendo naquela cidade, não tão importante assim? Era pura fachada. O que se escondia atrás do prédio com nome de líder francês era algo chamado simplesmente de Organização. Não havia outro nome. As pessoas que trabalhavam ali a chamavam assim.
A Organização desde o início explorou as pessoas. Tudo discreta e secretamente, nada do que se passava dentro de seu majestoso prédio ficava conhecido "lá fora". Sua primeira, digamos, atividade, foi tirar algumas mulheres da rua e levá-las para a Organização, dirigida por um homem não muito jovem chamado de Jake por seus colegas - seu verdadeiro nome sempre foi um enigma, assim como sua pessoa. Um ato caridoso, alguns diriam. Mas um ato cruel. Aquelas mulheres foram alvo de uma experiência e morreram. Somente uma sobreviveu, mas não se sabe o que eles fizeram com ela.
Antes de se fixar naquela cidade a Organização já existia há muito tempo. Conduzia muitas pesquisas genéticas e tinha o objetivo de criar pessoas com poderes sobre-humanos. Diversas tentativas de se implantar o embrião modificado foram feitas em mulheres, mas ou elas ou o bebê não sobrevivia. Naquele ano, somente uma tentativa se concretizou. Assim nasceu Katherine.
03
Todos os anos de sua vida Katherine havia passado dentro da Organização. Somente tinha visto o mundo de fora através dos livros e da televisão. Sonhava com o dia que iria conseguir sair de lá e ver tudo com seus próprios olhos.
Todos os dias enfrentava uma dura rotina de treinamentos. Acordava, tomava café no seu quarto, e depois fazia tudo o que lhe mandavam. Quando ficava sozinha em seu quarto, gostava de ler. Apesar de ser observada 24 horas por dia - havia câmeras por toda a Organização e ela não se importava com isso - se sentia a pessoa mais solitária do mundo. Por isso os livros eram seus únicos companheiros, ela sabia que nunca poderia ter um amigo lá dentro. Jake também sabia disso, e providenciava para que a estante da garota nunca ficasse vazia. Jake era como um pai para ela, e ao mesmo tempo seu chefe. Katherine o odiava por ele mantê-la naquela prisão, mas também gostava quando ele a elogiava por seu desempenho nos treinos, ou fazia "truques" como mover objetos com o pensamento. Ele também era resultado de uma antiga experiência.
Aliás, os treinos eram a única coisa que motivava Katherine a se manter viva. Exceto pela vez em que perdeu o controle dos seus poderes e acabou ficando com os braços queimados - a partir desse dia ela passou a usar somente blusas de manga comprida, mesmo sabendo que ninguém se importava com sua aparência lá dentro. Mesmo assim, ela queria treinar, queria ficar forte, para conseguir escapar daquele lugar no futuro. Sabia que tinha poder o suficiente para matar a todos - menos a Jake talvez - , mas não tinha coragem para fazer isso. Talvez tivesse, mas algo lhe dizia que não poderia fazer isso.
Até aquela tarde. Naquele dia ela acordou e resolveu que aquilo havia terminado. Queria ser como qualquer outra menina de dezesseis anos. Queria sair de lá e viver sua vida.
O poder que foi concedido a Katherine, vocês já devem ter adivinhado: o controle do fogo.
04
Após atravessar o jardim em chamas, Katherine não sabia para onde ir. Contemplou a cidade rapidamente, os olhos em lágrimas, e saiu correndo novamente em direção à estrada. Viu um caminhão se aproximando e subiu na carroceria. Não sabia para onde ele estava levando-a, mas isso não era importante. O que importava era sua liberdade e o fato de não precisar mais ver a Organização, ou Jake, ou os cientistas que a controlavam. Com o vento em seus cabelos negros, se sentia feliz por ter deixado um peso em sua mente para trás. Imaginava-se começando uma nova vida.
O caminhão foi deixando Great Mine para trás. Katherine reparou que depois de ter saído, os homens não a seguiram mais. Talvez estivessem com medo do que ela seria capaz de fazer. Cansada, acabou dormindo.
05
Katherine acordou com a chuva pesada que havia começado a cair. O caminhão estava estacionado em um posto de gasolina, numa estrada deserta. Ela desceu e começou a andar, experimentando a nova sensação de liberdade, mas achou que o melhor a fazer no momento era se proteger da chuva. Havia uma cabana de madeira alguns metro adiante. Quando chegou lá, se sentou na pequena varanda na frente da cabana, encharcada, contemplando a chuva.
- O que você está fazendo na minha casa?
Katherine se levantou com um susto. A porta da cabana havia sido aberta por um jovem rapaz, que aparentava ter no máximo 18 anos. Ela se desculpou, mas ele respondeu:
- Se você quiser pode entrar, a chuva está muito forte pra você ficar aí fora.
- Desculpe incomodar... Mas eu não tenho para onde ir.
- Qual o seu nome?
- Katherine, e.
- Eu sou Ritchie, muito prazer! Olha, eu moro aqui com a minha irmã mas ela não está na cidade, então se você quiser eu posso pegar umas roupas dela pra te emprestar. Se você continuar assim vai, com certeza, pegar um resfriado!
- Ah, muito obrigada!
Ritchie foi até um quarto buscar as roupas e as entregou para Katherine, que logo foi ao banheiro para se trocar. - Então, de onde você é? - ele perguntou.
- Da cidade de Great Mine.
- Nossa, então deve ter viajado bastante! O que te trouxe até este fim de mundo?
- Eu só... queria conhecer o mundo, sabe?
- Sei... você mora sozinha ou com seus pais?
- Eu... não.
Nesse momento a campainha (ou melhor, um sino que havia na porta do lado de fora) da cabana tocou. Era o entregador de pizzas.
- Eu pedi enquanto você se trocava. Pode ficar aqui até a chuva passar.
Enquanto eles comiam, Ritchie contou que seu nome era Richard James Eckwood, que tinha 18 anos, que morava ali com sua irmã de 23 desde que seus pais haviam morrido. Kat ouvia tudo com muito interesse, já que nunca tinha conversado com ninguém de fora da Organização antes. Sentia que Ritchie estava se tornando seu amigo, coisa que ela NUNCA conseguiria com algum dos caras de lá. Eles só se importavam se o seu poder estava aumentando, se havia passado nos testes, esse tipo de coisa. Talvez Jake fosse o mais próximo de um amigo que ela já teve.
Katherine tomou cuidado ao responder as perguntas que Ritchie fazia sobre ela. Não queria que ele pensasse que ela era algum tipo de monstro ou algo assim. Se contasse que era fruto de uma experiência secreta de uma organização igualmente secreta, com certeza ele a expulsaria de casa na hora, ela pensou. Então disse apenas que tinha 16 anos e que estava procurando um lugar para morar. Uma das coisas que Katherine logo gostou em Ritchie era que ele não fazia muitas perguntas.
- Kat, me passa o refrigerante, por favor?
Ela esticou o braço para pegar a garrafa e a parte queimada apareceu do moleton da irmã de Ritchie.
- Nossa, o que aconteceu com você!
Ela puxou rapidamente a manga da blusa e andou até a janela, com lágrimas nos olhos.
- Ritchie, obrigada pela ajuda, mas a chuva já está parando... Eu acho que vou andando então. - caminhou até a porta, mas o garoto puxou-a pelo braço.
- Eu disse alguma coisa errada?
- Me larga!
Nesse momento a toalha da mesa começou a pegar fogo. Ritchie se levantou assustado, correndo para a pia, enquanto Katherine observava, sem conseguir falar. Ritchie foi jogando água e logo o fogo se desfez. Kat reuniu forças e disse:
- Desculpa, eu não queria queimar sua casa. Foi... sem querer mesmo.
- Você está dizendo que foi você que fez isso? Como você?
- Eu simplesmente tenho esse poder, tá bom? Sei que você não vai acreditar em mim, mas é a verdade. Eu preciso ir agora, você foi muito legal, mas se eu ficar aqui você pode estar em perigo. Obrigada por tudo.
Ela abriu a porta e estava saindo da cabana quando ele gritou:
- Espere! - Katherine se virou - Eu vou com você.
- O quê? Você não pode! Eles virão atrás de você também!
- A Organização?
Katherine olhou para ele, espantada. - Eu achei que ninguém sabia... Como você sabe?
- Hmm... Internet. Dá pra descobrir muitas coisas lá. E você, é a tal da primeira experiência que deu certo, não é?
Eles voltaram para dentro da cabana, onde ela contou-lhe tudo. De algum modo não tinha mais medo que Ritchie soubesse sobre ela, na verdade sentia-se melhor assim. Pelo menos alguém no mundo a entendia agora. Depois de ouvir tudo, Ritchie decidiu que seria melhor se eles passassem a noite na cabana, e na manhã seguinte eles sairiam juntos.
- Como assim NÓS? - perguntou Kat - Você não entendeu? A Organização é muito poderosa! Se você vir comigo, e eles nos pegarem, com certeza você estará morto!
- Eu não me importo. Não tenho nada para fazer aqui, então não custa te ajudar. Assim eu também conseguirei mais dados sobre a Organização para colocar no meu site.
- Mas e quando a sua irmã voltar?
- Talvez nem volte, ela foi atrás de um cara que ela gosta. Se der certo entre eles eu nunca mais a verei mesmo.
Ritchie acabou convencendo-a. Então eles foram dormir para se prepararem para o dia seguinte.
06
Katherine se levantou antes do sol nascer. Colocou suas antigas roupas já secas e abriu a porta da cabana. Olhou para trás. Ritchie era o único amigo que jamais teria, ela pensou, mas não podia arriscar a vida dele assim. Teria que continuar sua fuga sozinha.
Andou durante horas. A paisagem era sempre a mesma: pequenos arbustos ao redor da estrada, que não parecia ter fim nem levar a lugar algum. Mas ela prosseguia na esperança de nunca mais ser encontrada, de poder levar uma vida normal em algum lugar. Sim... devia existir algum lugar onde ela pudesse morar, onde nunca mais faria nenhum teste. Ela continuava andando com essa esperança, quando escutou alguém atrás de si. Virou-se depressa e lá estava Ritchie, correndo até ela.
- Kat! Espera!! - ela foi ao seu encontro.
- Você estava me seguindo? Você sabe que não pode, você.
- Me escuta! - ele segurou os braços dela com força - Eles estão vindo te pegar! Eles vão te levar DE VOLTA!
- Como..? Eles não sabem onde eu estou! É impossível!
- Não, eu... - Ritchie abaixou a cabeça - Eu disse a eles.
- QUÊ?! Como você fez isso? Como pôde?
A temperatura começou a subir.
- Kat, não foi culpa minha! Eles... Jake disse que eu poderia sair por uns tempos se eu fizesse isso, se eu ficasse de olho em você. Eu posso entrar na mente das pessoas, entende?
Katherine não conseguia acreditar. Achava que tinha feito seu primeiro amigo, mas havia acabado de perdê-lo. Todos estavam mentindo, afinal. Jake devia ter deixado-a escapar. Parecia tão óbvio agora. Senão, como ela teria fugido da Organização, que era mais segura que Alcatraz? Talvez até mesmo o motorista do caminhão no qual ela tinha pegado carona fosse um deles. E Ritchie, ou melhor, Richard, era mais uma experiência deles. Os arbustos ao longo da estrada ficaram em chamas.
- Kat, não espero que você me perdoe ou algo assim, mas saia daqui o mais rápido possível. Incendeie todo o lugar se quiser, mas faça isso logo, eles estão muito perto. Tudo que havia acontecido desde sua fuga apareciam como flashes na sua cabeça. Havia um barulho que ficava cada vez mais próximo. Helicópteros.
- Corra.
Ela olhou para ele pela última vez e começou a correr. Foi o mais que podia para longe da estrada, até ver que dezenas de carros pretos estavam cercando-a. Um círculo de fogo começou a se formar em volta dela e logo explodiu em direção aos carros. Katherine sentiu algo em seu braço. Virou-se e viu Jake descendo de um helicóptero preto em meio ao fogo e à fumaça, uma pistola de dardos paralisantes em sua mão.
- Katherine querida, você nunca vai aprender, não é mesmo? Ninguém consegue fugir da Organização.
Tudo ficou preto.
07
Quando acordou, estava de volta ao seu quarto na Organização. Não sabia quanto tempo estivera ali dormindo, mas tudo tinha sido em vão, afinal. Jake ganhara novamente.
Katherine sentou-se na sua cama, com um pouco de dor de cabeça. A porta se abriu. Harry, o homem que trazia as refeições, entrou, porém de mãos vazias.
- O chefe disse para eu levá-la ao salão, parece que quer tomar o café da manhã com você.
Eram raras as ocasiões em que ela tinha comido no salão. Não se lembrava de outro dia que nao fosse Natal ou Páscoa em que isso tivesse acontecido.
- Só um instante, eu vou me trocar.
Harry saiu, fechando a porta. Dez minutos depois eles se dirigiam ao encontro de Jake.
08
O salão não parecia pertencer àquele lugar. Enquanto toda a Organização era como um labirinto de frios corredores cinzentos, o salão era um lugar acolhedor. Possuía grandes janelas iluminadas (porém sempre fechadas com cortinas brancas), uma enorme mesa de madeira no centro e uma lareira no canto. A mesa estava coberta por diferentes pratos. Jake sentava-se na cabeceira. Quando Katherine chegou, ele se levantou.
- Kat, como é bom tê-la de volta conosco. Dormiu bem?
Katherine ia puxar uma cadeira para se sentar, mas nesse instante Jake fez um movimento com a mão e uma das cadeiras próximas a ele afastou-se da mesa. Ela olhou para ele, se sentou e começou a comer um bolinho de chocolate. Havia acontecido tantas coisas nos últimos dias e só agora percebera como estava faminta.
Jake segurava uma xícara de chá e olhava para ela.
- Katherine.
- O quê? - ela ergueu a cabeça depressa, interrompendo-o.
- Não é nada. - Jake tomou um gole de chá. Não era comum ele desperdiçar palavras daquele jeito.
- Que horas será o primeiro teste? - ela perguntou, engolindo uma torrada com geléia.
- Você está dispensada dos testes hoje. Eu quero te mostrar uma coisa, se já tiver terminado.
Ela se levantou.
- Vamos.
Jake repousou a xícara sobre a mesa, se levantou e ergueu a mão, o que fez a porta do salão se abrir.
09
Andaram por diversos corredores, todos iguais e cinzentos, e subiram e desceram diversas escadas, até ele dizer que haviam chegado. Em uma das paredes não havia cimento, apenas vidro. Do outro lado podiam ver diversas crianças, separadas por paredes, cada uma com um técnico da Organização. Pareciam que estava brincando.
Katherine apoiou as mãos em um dos vidros, observando um garotinho fazer uma colher flutuar no ar.
- Todos eles são.
- Psíquicos - completou Jake -, como você.
- Eu ia dizer experiências. - ela olhou para ele - Por que você está me mostrando isso?
- Para você ver que não está sozinha aqui. Apesar de nós ainda não termos conseguido recriar uma pessoa com o seu poder, temos telepáticos, telecinéticos, clarividentes e precognitivos. Mas aqui está uma menina que gostaria que conhecesse.
Jake abriu uma porta sem tocá-la e deu espaço para Katherine entrar, ao mesmo tempo que o técnico deixava a sala. Havia uma menina loira com no máximo seis anos, com vivos olhos azuis. Katherine puxou as mangas da sua blusa. Fazia muito frio naquela sala.
- Seu nome é Kitty. - disse Jake - Tente queimar alguma coisa nessa sala, Kat.
Katherine olhou para ele e depois virou-se para uma almofada, que começou a pegar fogo. Nesse instante Kitty olhou para a mesma almofada, e o fogo desapareceu, dando lugar a pedaços de gelo.
- Como... - Kat começou.
- Criocinese. - continuou Jake - Você controla o calor, e Kitty o frio.
Ela olhou para a garota com pena. Sabia pelo que ela estava passando, e o que teria que enfrentar no futuro. Não era fácil passar a vida toda dentro daquele lugar.
- Agora vamos. - disse Jake - Não queremos ficar congelados.
10
Ao saírem da sala, Katherine viu uma pessoa de costas para ela, que conhecia.
- Ritchie!
Ele se virou e andou até ela, acenando.
- Kat! Como você está? Eu vim aqui para treinar um garoto que.
- Katherine - interrompeu Jake -, espero você no final do corredor.
- OK, eu já estou indo.
Os dois observaram Jake caminhar. Quando Katherine virou-se para Ritchie para continuar a conversa, ele parecia ter acabado de levar um susto.
- O que foi, Ritchie? Que cara é essa?
- Jake... ele queria lhe contar algo importante quando vocês tomavam café da manhã hoje... - os olhos dele estavam fixos no nada.
- Do que você está falando?
- ...mas ele não teve coragem, acha que você nunca aceitaria o que ele ia lhe dizer... Ele tem um pouco de medo de você, Kat. Medo do que você possa fazer.
- O que você quer dizer, Ritchie? O que ele ia me contar?
- Ele... isto é, eu acho que.
- Terminaram, garotos?
Nesse instante Jake surgiu atrás deles. Talvez tivesse escutado o que Ritchie estava tentando dizer e havia voltado.
- Acho que você tem uma tarefa agora, não é mesmo, Richard?
- Senhor, você precisa contar a ela.
Jake ergueu a palma para ele. O corpo de Ritchie bateu no vidro e se caiu no chão.
- Katherine, é melhor voltarmos para o seu quarto, você precisa descansar.
Ela tentou ajudar Ritchie a se levantar, mas ele estava inconsciente. Virou-se para Jake.
- O que você precisa me dizer? Do que ele estava falando?
Jake se aproximou dela.
- Katherine, acho que você não está preparada para ouvir isso. Tenho certeza que você irá me odiar ainda mais depois que eu lhe contar.
- Contar o quê?
- Kat... Como você já sabe, eu sou telecinético. Fui criado pela Organização, em outra cidade, anos atrás. Sou como você. Mas você é especial, pois foi a primeira criada a partir das células de outros psíquicos. Metade de você, a partir das minhas células. O que significa, Katherine, que eu sou seu pai.
11
Ela deu um passo para trás. Teria ouvido direito? Jake era... seu pai!
- Mas então por quê? - Katherine gritou - Por que você me mantém aqui? Por que nunca me contou isso?
- Eu tinha que fazer isso, Kat! - ele também começou a gritar - Proibiram-me de contar-lhe a verdade, mas eu não aguentava mais, depois de quase dezessete anos!
Ela sentia-se confusa. Isso não poderia estar acontecendo.
- Mas por que você me trouxe de volta, quando eu consegui sair? - estava quase chorando - Por que você faz isso comigo?
- Eu tenho que cumprir ordens! Se soubessem que você tinha fugido, matariam a mim e a você! Por isso precisei trazer-lhe de volta, não queria que a matassem, ou fizessem algo pior. Eu concordei em usar minhas células porque disseram que eu poderia cuidar de você. Não entende, Kat? Tudo que eu fiz foi pelo seu bem!
Katherine olhou para ele. Sentia raiva, e muita. Um círculo de fogo surgiu ao redor de Jake. Ela levantou as mãos até em cima da cabeça, de onde surgiu uma bola de fogo. No mesmo instante ele ergueu a mão para ela de trás do fogo, o que fez o corpo de Kat voar até o fim do corredor, parando ao encontrar a parede e caindo inerte no chão.
- Sabia que você não entenderia. Desculpe, filha.
12
O dia seguinte começou difícil para Katherine. Tudo que havia descoberto no dia anterior parecia girar na sua cabeça. Depois que havia acordado, teve que enfrentar um teste atrás do outro. E não tinha visto Jake, ou melhor, seu pai, aquele dia, o que era estranho já que ele era também o seu supervisor. Ao final da tarde já estava tão exausta que achava não conseguir criar nem mais uma fagulha. Deitou-se na cama, quando ouviu a porta do seu quarto sendo destrancada. Era Harry, e parecia ansioso.
- Katherine, você precisa vir comigo. - disse, ofegante.
- Aonde, Harry? Pensei que já havia terminado hoje.
- Rápido - ele sussurrou, puxando-a para fora - , não temos tempo.
Katherine o seguiu, correndo por diversos corredores, sem saber o que estava acontecendo, até Harry parar bruscamente na frente de uma enorme porta. Ele bateu, e logo depois ela se abriu.
- Boa sorte, Kat - ao dizer isso, saiu correndo.
Ela entrou na sala que, apesar de ter portas grandes, era pequena e cinza, com outra porta do lado oposto. Jake estava ali, encostado numa parede, aguardando-a. Ele foi até ela e a porta se fechou.
- Kat, eu sei que você está brava comigo, mas escute o que tenho a dizer.
Ela pensou em ignorá-lo, sair e voltar ao seu quarto, mas ao invés disso olhou atentamente para Jake. Ele estava com grandes olheiras e os compridos cabelos grisalhos estavam todos despenteados, em vez de estarem presos como sempre.
- Você está horrível sabia? - ela disse, forçando um sorriso.
- É, eu sei, não dormi essa noite. Fiquei pensando na nossa conversa de ontem. Kat... - ele se aproximou dela e colocou as mãos no seu rosto - Se eu fizer isso provavelmente nunca mais poderei vê-la, mas depois do que eu disse eles vão me matar e levar você para longe de qualquer jeito. Com certeza pegarão seu amigo também.
Katherine olhava para ele e ia dizer alguma coisa, quando uma das portas se abriu e Ritchie entrou ofegante.
- Eles já sabem e estão vindo para cá!
- Nós já estamos terminando. - disse Jake - Espere lá fora por favor, Richard.
Ele saiu pela outra porta. Jake continuou:
- Kat, estou lhe oferecendo a única chance que você tem de sair daqui. Considere isso como todos os presentes de aniversário que eu nunca lhe dei. - Ele colocou as mão sobre os ombros dela e lhe olhou nos olhos - Eu te amo, filha.
Jake virou-se e uma porta se abriu. Ritchie aguardava do outro lado.
- Eles estão aqui, vamos!
A outra porta se abriu e vários homens armados entraram. Jake ergueu a mão e eles voaram para trás.
- Vão! Não poderei segurá-los por muito tempo.
Katherine assistia tudo sem conseguir se mover. Ritchie puxou seu braço e ela se virou para sair.
Um tiro cortou o ar, atingindo Jake, que caiu de joelhos. Katherine tentou ir até ele, mas Ritchie segurou-a.
- Jake! Não! PAI!
A sala incendiou-se. Ritchie puxou Katherine para fora e os dois correram por um longo corredor, que ia se incendiando atrás deles. Ao final, havia uma porta. Ritchie a abriu e eles saíram.
13
Havia se passado um mês desde que haviam fugido. Nunca mais ouviram falar da Organização ou de Jake. Ele garantiu a Katherine e Ritchei que estariam a salvo. Havia dado a eles uma casa, bem afastada de Great Mine, onde moravam agora, e uma boa quantia de dinheiro. Ainda assim, Ritchie começou a trabalhar e Kat se matriculou numa escola para concluir o ensino médio. Ambos começaram a levar uma vida normal. Estavam em liberdade, afinal.