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Author: Sora Seishin
Fiction Rated: K - Portuguese - Horror/Sci-Fi - Reviews: 6 - Published: 01-28-05 - Updated: 01-28-05 - Complete - id:1819474

P.C.

escrito por Júnia - 8/12/2003

Tinha aversão a computadores. Deve ser da idade. Sou dos tempos antigos, quando para se escrever um texto ou uma carta usava-se as teclas emperradas de uma máquina de escrever. Não conseguia me adaptar ao ruído suave de um teclado. Mas certo dia, concluí que era necessário me modernizar: resolvi comprar um computador.

“Vai mudar sua vida”, disse o vendedor da loja. Ele me convenceu a comprar o que havia de melhor no mercado (e também o mais caro), com gravador de cd, placa de rede, monitor tela plana, mouse óptico... Cheguei em casa, descarreguei as caixas. Abri o manual de instruções e comecei a ligar os fios do aparelho.

Tudo certo, de acordo com o manual. Ligo o fio do estabilizador na tomada, aperto um botão... Como mágica, a tela mostra uma tela preta, na qual várias letras brancas aparecem rapidamente. Logo surge o logotipo da empresa de software e o computador está pronto para o uso.

Decidi que a primeira coisa que faria seria entrar na Internet... A teia mundial de computadores, na qual posso acessar sites e conversar com pessoas do mundo inteiro. Conecto o fio no telefone e abro a janela para conexão.

Passo horas no mundo virtual: visito museus, vou a praias, faço novas amizades... Tudo sem sair da frente do computador. “É uma maravilha da tecnologia”, pensei. Ao desligar, mal reparei num pequeno ícone de Smile que havia surgido na barra de tarefas. Imaginei que não devia ter significado, cliquei no botão Desligar e fui dormir.

Acordei, no dia seguinte, feliz por ter feito um bom negócio com o computador, e fui para o meu escritório. O computador estava ligado. Não me lembrava de tê-lo esquecido ligado na noite anterior. Apertei o botão para desliga-lo.

Virei-me e, ao voltar para o escritório, o computador estava ligado novamente. Pensei que estava ficando louco. Apertei o botão novamente, mas as luzes continuaram acesas. Puxei o fio da tomada. Foi quando apareceu na tela a mensagem: “vou te matar”.

Só podia ser um defeito de fabricação... Liguei para a loja, e o vendedor disse que iria mandar um técnico à minha casa imediatamente. Cinco horas depois, ele chegou.

A mensagem ainda estava na tela. O técnico se aproximou do computador e colocou sua maleta numa cadeira, tirando dela algumas ferramentas.

“Só vai levar um instante. Poderia me trazer um copo d’água enquanto isso?”

“Claro, só um minuto”.

Dei-lhe as costas e fui para a cozinha. Foi quando ouvi um estrondo vindo do escritório. Corri até lá e me dei com o técnico imóvel no chão, de olhos abertos, fitando o vazio. Na tela do monitor, somente o ícone de Smile.

Corri para o telefone e chamei uma ambulância. “Estaremos aí em quinze minutos”. Quando chegaram, me perguntaram o que havia acontecido.

“Não sei, me virei e quando voltei encontrei-o assim”.

Quando os paramédicos entraram no escritório, o monitor e todas as luzes do computador estavam apagados.

No dia seguinte, ainda meio assustado pelo que acontecera, telefonei para o meu sobrinho, que entendia muito de computadores, e contei-lhe o ocorrido. Disse-me que eu era louco, mas que viria dar uma olhada na máquina.

Conduzi-o ao escritório, mas dessa vez permaneci no recinto com ele. Nada aconteceu. Meu sobrinho desmontou e remontou a máquina, e quando a ligou estava funcionando normalmente. Devia ter sido impressão minha, então.

Despedi-me do garoto e sentei-me à frente do computador. Assim que toquei o mouse, a tela ficou preta novamente. A pequena Smile surgiu de novo, assim como a mensagem “vou te matar”.

Abaixei-me para tirar o fio da tomada, quando uma grande quantidade de luz, carregada de carga elétrica, jorrou do monitor. Não sei o que aconteceu depois. Quando dei por mim, estava no hospital, com fios conectados em mim por todo corpo.

O homem que tinha me vendido o computador me encontrou e foi me visitar.

“Parece que aquele era um modelo experimental, que apresentava um problema quando se conectava a Internet... teremos prazer em substituí-lo por um novo modelo”.

Tive vontade de mandar o vendedor àquele lugar. Mas me contive e agradeci a preocupação. Era claro que um computador não seria mais o presente mais adequado para mim. O médico disse que havia perdido a visão “devido a um estranho tipo de radiação”. “Como?”, indaguei. “Inexplicável”.

Fechei os olhos na esperança de que tudo tivesse sido um pesadelo. Comecei a me sentir melhor imaginando que nada daquilo tivesse acontecido. Computadores com vontade própria, imagine!

A tela do aparelho que monitora o coração escurece. Um pequeno Smile aparece no canto. Médicos ouvem gritos e correm para o quarto.

“Ataque cardíaco... está morto”.



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