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Author: Sora Seishin
Fiction Rated: K - Portuguese - Horror/Suspense - Reviews: 15 - Published: 01-28-05 - Updated: 01-28-05 - Complete - id:1819475

O SONHO

Por Júnia – 06/07/2003

Desde criança tive essas premonições. Sonhos que previam o futuro. No começo eram coisas bobas, como se iria chover ou se a televisão ficaria fora do ar. Enquanto fui crescendo, eles foram ficando mais importantes. Comecei a prever acidentes. Desastres. Até o dia em que previ a minha própria morte.

Os sonhos nunca eram previsões perfeitas. Eu acordava sabendo que ia acontecer, mas nunca o porquê, ou como, ou onde. Nesse dia, eu acordei sentindo o cheiro da morte, tendo a sensação de que ela estava próxima, esperando somente o momento certo para me levar.

Fiquei com medo. Ainda era jovem, não tinha nem quarenta anos! Tinha uma alimentação saudável, fazia natação três vezes por semana, não fumava nem bebia. Com certeza vou morrer em um acidente, pensei. Afinal, um louco dirigindo um carro aparece quando menos se espera.

Com isso, deixei de sair de casa. Se colocasse um pé na rua, morreria atropelado. Se tomasse sol, teria câncer de pele. Se um cachorro me mordesse, pegaria raiva. Se ficasse embaixo de uma árvore, um galho cairia na minha cabeça. Se começasse a ventar, pegaria uma pneumonia. Se corresse, teria um enfarto. Se me distraísse, seria roubado e assassinado.

Depois deixei de comer e beber. Se comesse, morreria engasgado. A comida também poderia estar estragada, não se pode confiar no que se compra. Daria uma diarréia mortal. Se bebesse, a água estaria contaminada. Sabe-se lá quantas bactérias podem viver em um singelo copo d’água.

Deixei de ter amigos. Desisti da minha família. Primeiro, porque eu não queria que eles sofressem com a minha morte. Segundo, porque muitas doenças se transmitem no contato humano. Gripe, SARS, sarampo... Não poderia correr o risco de desenvolver uma doença que me fizesse definhar até a morte.

Deixei de dormir. Se eu encostasse a cabeça no travesseiro, poderia iniciar a jornada rumo ao sono eterno. Deixei de assistir televisão. As tristes notícias sobre o mundo poderiam me deixar estressado, nervoso ou desenvolver outro tipo de doença psicológica. Deixe de atender ao telefone e de usar o computador. Nunca se sabe quanta radiação aqueles aparelhos podem nos transmitir.

Tive o sonho já faz várias semanas e ainda estou vivo. Não saio do meu quarto, não como, não bebo, não converso com ninguém, não durmo, não assisto televisão. Não sei se o desejo de ter uma vida longa está valendo a pena. Devido à falta de alimento e exercício, não consigo sair da cama. Não movo minhas pernas. Sinto-me cada vez mais fraco. Até mesmo respirar está ficando difícil para mim. Posso sentir novamente o cheiro da morte, à espreita. Mas forço um sorriso e fico feliz. Pelo menos consegui engana-la e permanecer vivo por mais algum tempo.



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