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Mistery Fiction criada por Vandinha Adams em 13 de Janeiro de 2005
“Sempre tinha a impressão de estar imersa num passado remoto, num mundo que, por assim dizer, já desapareceu. Por isso era desconsertante ver-se outra vez na rua, em Paris, com gente viva...”
Georges Simenon – “Maigret et les Vieillards” (livre tradução e adaptação da autora).
O inverno na Europa prometia ser o mais rigoroso dos últimos vinte ou trinta anos. Debaixo de um sobretudo negro e um gorro de lã da mesma cor, uma jovem mulher aproximou-se da fachada de um desconhecido antiquário da cidade, o Mazeron. Sentiu o vento frio que cortava a Rua Jacob, a muitas quadras do centro de Paris. Acabara de descer de um táxi na ponte do Senna, onde permanecera por algum tempo apenas observando a água.
Também usados para esconder seus olhos, os óculos escuros protegiam sua pele, acostumada à primavera do hemisfério sul, da qual se despedira há apenas dois dias. Retirando pacientemente o par de luvas, a mulher tocou a maçaneta e girou-a até ouvir um clic. Abriu a porta apenas o suficiente para entrar, tornou a fechá-la, deu dois ou três passos rumo ao interior do recinto e esperou ainda alguns instantes até que uma senhora viesse atendê-la.
Pela expressão de ligeira surpresa no rosto dela, não foi difícil constatar que poucas pessoas entravam naquele antiquário. Alguns objetos estavam empoeirados, sujos e talvez até mal organizados. Ainda assim, o ambiente atraíra a atenção da mulher que passava pelo lado de fora. Próximo da porta havia um cabide que parecia ser de marfim, mas infelizmente estava muito mal conservado. A maioria dos artigos eram pequenos enfeites, tudo coisa muito velha, à exemplo da senhora que atendia a primeira cliente em três dias.
– Em que posso ser útil? – perguntou a gentil senhora, que tinha os cabelos brancos presos no alto da cabeça.
– Estou procurando um objeto e acredito que possa encontrá-lo em sua loja, madame Mazeron.
– Se for velho, imagino que possa sim. É algo em especial ou procura apenas um presente?
– Eu diria que procuro os dois. Um presente especial.
– Mademoiselle, sei que pode parecer estranho vindo de minha parte, mas encontrará artigos mais interessantes nos antiquários na Boulevard Garibaldi, ou na-
– Teria me dirigido a esses lugares se assim o quisesse, madame – interrompeu a jovem. – Os conheço muito bem e sei que o que procuro não está lá... agora, pode me ajudar?
– Com todo o prazer. O que tem em mente?
– Um relógio de bolso – disse a jovem, pela primeira vez ensaiando um sorriso.
A senhora demorou um pouco nos fundos da loja mas voltou em seguida, com uma caixa aveludada contendo duas dezenas de relógios de bolso, alguns de ouro, outros de prata e a maioria de pouco valor. Dois deles sequer funcionavam.
– São todos os que possuo. Há várias faixas de preço, de acordo com o seu gosto, mademoiselle.
– Posso tocá-los? – perguntou a jovem, receosa, parecendo inclusive um pouco nervosa.
– Claro que sim. Se tiver um pouco de cuidado. Algum deles lhe agradou?
Sem responder, a jovem tomou o maior deles em sua mão, olhou-o por alguns instantes, não havia dúvidas de que era verdadeiro, folheado a ouro como o cordão que o acompanhava. Estava funcionando perfeitamente e marcava a mesma hora que o relógio de pulso que ela consultara há instantes: nove e quinze da manhã.
“É um belo objeto, o melhor, eu diria” A mulher começou a falar sobre o relógio, enquanto a jovem continuava observando-o. “Está aqui há menos de um ano, meu sobrinho comprou em um leilão em Londres, mas acabou querendo se desfazer dele e pediu para que eu o ajudasse”.
– Posso perguntar por que foi que ele quis se desfazer?
– Não se adaptou aos relógios de bolso. Hoje em dia eles são tão pouco usados que... bem, têm servido apenas como enfeite...
– Compreendo – disse a jovem. – Madame disse que todos os relógios que possui estão dentro desta caixa?
– Sim.
– Perdoe-me a insistência, mas não haveria mais um?
– Como assim?
– Ouça, estou procurando um relógio em específico e sei que ele está em seu poder, no entanto, não o vejo dentro da caixa.
Por instantes, a jovem viu a senhora a sua frente abrir e fechar a boca repetidas vezes, ensaiando uma resposta adequada.
– Específico? E posso saber como ele é?
– Muito parecido com este aqui na minha mão. Contudo, possui uma particularidade que o torna único no mundo...
– E essa particularidade por acaso não seria uma frase gravada no verso? – perguntou a senhora.
– “Lembrança de um amigo, H. Florence, Paris – 1832” – disse a jovem, incisiva.
– Não pode ser – exclamou a dona do antiquário.
– Está com a senhora, então?
– Oui... sim, está. Mas como... como sabe?
– Uma grande amiga sua lhe presenteou com ele, não foi? Madame Moers, certo?
– Sim... Jaquette, minha amiga... mas ninguém sabe disso!
– Sei que foi um presente, mas a senhora se incomodaria de deixar-me vê-lo?
– Não, vou pegá-lo, está em meu apartamento... é aqui, em cima da loja.
– Claro, eu esperarei, madame.
Dessa vez a senhora demorou-se mais de dez minutos para voltar. Trouxe consigo uma pequena caixa negra, de onde retirou o relógio, alcançando-o à jovem que pedira por ele.
– Está comigo há apenas cinco dias.
– Um presente muito especial – comentou a jovem. – Certamente madame Moers lhe tem em alta conta.
– Sim, somos amigas há muito tempo. O falecido marido de Jaquette comprou-o de um colecionador-
– Chamado Urbain de Chézaut, um magistrado – antecipou a jovem.
– Como sabe que era de um magistrado? – a senhora não conseguiu conter a pergunta.
– Acompanho a trajetória desse relógio há mais tempo do que imagina, madame Mazeron. De que outra maneira teria descoberto que a senhora o recebeu de presente? Ouça, estou disposta a pagar qualquer preço por ele.
– Sinto muito, ele não faz parte da coleção da loja e, portanto, não está à venda.
– Sei que é um presente e que tem grande valor sentimental, madame.
– E se Jaquette vier aqui e quiser ver o relógio, o que direi? Que vendi o presente da melhor amiga que já tive?
– Jamais foi minha intenção fazê-la passar por qualquer tipo de constrangimento, madame. Por isso mesmo, trouxe-lhe isto aqui – disse a jovem, tirando do bolso um relógio idêntico ao outro.
– O que é isso?
– Uma réplica perfeita, madame. Somente um especialista poderia perceber a diferença através de uma análise minuciosa do desgaste das peças, o que acredito que sua amiga não fará...
– Sim, mas...
– É muito importante para mim ter o original, madame. Repito que pagaria qualquer preço por ele. Apenas a réplica já me custou dois mil dólares, não estou poupando despesas.
– Chegou aqui dizendo que era um presente... imagino que a pessoa que irá recebê-lo seja muito especial.
– Sim, ele é. Ouça: sua amiga lhe deu esse relógio com boas intenções, imagino. Mas com o intuito apenas de dar-lhe um objeto antigo, uma coisa bonita... essas intenções poderiam ser facilmente substituídas por qualquer outro relógio semelhante, não acha?
– Pode ser.
– A pessoa para quem pretendo dar o relógio que madame ganhou de sua amiga esteve atrás desse exemplar durante muito tempo. Significa muito pare ele, espero que entenda.
– Entendo, mas não me sentirei bem vendendo um presente... isso não é muito educado.
– Claro que não. Por isso, a senhora vai ficar com a cópia perfeita e esquecer essa história, assim como eu. Será o nosso segredo, o que acha?
– Tudo bem – cedeu a senhora.
– Ótimo. Madame pode ter certeza de que jamais esquecerei o favor. Por favor, mande entregar neste endereço – disse a jovem, alcançando-lhe um pequeno cartão.
– “17, Quai d’Anjou. Île Saint-Louis”. Em nome de quem?
– Em nome de Marcelle Mazeron – informou a jovem, já deixando o antiquário.
– Mas esse é o meu nome!
– Eu sei, madame. Apenas mande entregar nesse endereço e saberão que é para mim... A tout à l’heure.
De fraque por baixo do casaco, um homem de meia idade abriu a porta para ela e cumprimentou-a com um aceno. Devagar, a jovem levou três minutos para subir as escadas que conduziam à porta de entrada do seu mundo particular.
– Bom dia, doutora. Seu casaco, por favor – pediu um senhor de idade avançada, também vestindo fraque, que a aguardava do outro lado da última porta; a única daquele corredor.
– Bom dia, obrigada, Vinci.
– Como foi o passeio?
– Agradável, apesar do frio. Teremos um inverno rigoroso em Paris – respondeu ela, dirigindo-se à escada interna que levava ao andar superior. – Alguma ligação para mim, Vinci?
– Sim. O doutor Franklin ligou assim que saiu.
– Disse do que se tratava? – perguntou ela, parada no quarto degrau, com uma das mãos no corrimão.
– Não.
– Alguém mais?
– Não. Ah sim, sua correspondência chegou, doutora.
– Algo importante?
– Uma carta postada em Frankfurt, doutora.
– Frankfurt? Como ele soube que vim a Paris? – perguntou a jovem, irritada.
– Não sei, doutora. Vai ler?
– Queime, como as outras – ordenou ela. – E o motorista que lhe pedi, conseguiu contratar?
– Sim, estará à sua disposição antes do meio dia, doutora.
– Obrigada, vou me trocar. Peça à Constance para preparar um chá, sim?
– Como quiser, doutora. Devo levá-lo aos seus aposentos?
– Sim, assim que estiver pronto. Com licença, Vinci.
Ela continuou subindo as escadas, degrau por degrau. Tinha muitas coisas na cabeça, não apenas pelo que fora fazer logo pela manhã, mas pelo que tinha planejado para os próximos dias. Dentro de algumas horas seus amigos estariam em Paris, e ela estaria novamente em casa...
Clark Saint-Denis, um famoso historiador e grande amigo seu, há poucos dias enviara-lhe um telegrama informando que o esperado “Musée de la Mémoire Policier” finalmente fora aberto ao público, em Paris. A partir daquele dia, detalhe após detalhe, Julie preparou sua volta à capital francesa e a chegada não só de Clark, como também de todos os outros integrantes da equipe que costumava juntar-se em busca de mistérios a serem resolvidos.
N/A 2: Como ninguém é obrigado a dominar o francês, aqui vai uma pequena “cola” da pronúncia dos sobrenomes que aparecerão na história a partir do capítulo 1. Beaumarchais (lê-se Bomarchê); e Saint-Denis (lê-se San-Dení).
Gasconha, sudoeste da França, 12 de Janeiro de 2005. O dia ameno transformava-se aos poucos em uma noite fria e escura do outro lado da janela da cozinha, por onde se podia enxergar finos pingos de chuva que brilhavam à luz dos archotes. Marie dava o toque final ao jantar, enquanto Isabelle encarregava-se de anunciá-lo aos patrões.
Alexander e Josephine de Beaumarchais aguardavam uma convidada para aquela noite, entretanto, por algum motivo que um dos assistentes dela não soube explicar, o jantar fora adiado para o dia seguinte. Ninguém no castelo estava acostumado a desfeitas. Os Beaumarchais eram legítimos representantes da velha e falida aristocracia francesa, gente habituada a viver de costumes e tradições, pessoas que prezam valores quase medievais e que, por extensão, adotam tais práticas em seu cotidiano.
O castelo onde viviam, rodeado por campos e muito distante da cidade mais próxima, era o mais evidente exemplo de como duas pessoas – ou mais, ao considerar-se que os criados acabavam fazendo parte da família – podiam viver no século XXI e agir como se ainda estivessem no fim do XVII. Não havia luz elétrica, telefones, calefação, ou qualquer tipo de aparato moderno; grandes candelabros iluminavam os ambientes após o pôr-do-sol e todo o serviço de cozinha e jardinagem era feito artesanalmente pelos cinco empregados: Victor, Sansvillie, Marie, Édouard e Isabelle. Apenas Alexander dava-se ao luxo de possuir algumas das exceções, como um telefone celular e um carro de passeio.
Nas redondezas costumavam dizer que o castelo era mal-assombrado e que Alexander era, na verdade, o fantasma do próprio pai, que se matou durante a crise monetária de 1974. Josephine não era vista fora da propriedade há muitos anos, e isso só servia de reforço para as histórias infundadas de quem dizia conhecer os Beaumarchais.
Bernard Beyle, advogado e melhor amigo de Alexander, sabia que o ar misterioso da família tinha muito mais a ver com a necessidade de manter o prestígio nobre do que com algo sobrenatural; também sabia que Alexander estava muito mais para um playboy excêntrico do que para fantasma de um Conde, ainda mais do próprio pai, que ele mal conheceu. Josephine passava os dias e as noites ocupada em azucrinar a vida dos empregados. Quinze anos mais velha que Alexander, era quem geralmente tomava as decisões dentro do castelo, sempre se mantendo austera, irredutível, chegando muitas vezes a ser fria. Apesar de sair do castelo duas ou três vezes por semana, Alexander tinha pouquíssimos conhecidos na cidade, e uma vida social praticamente nula.
A chuva fina havia dado uma pequena trégua quando todos foram para os seus aposentos. Alexander ficou pensando no misterioso telegrama enviado pela doutora Franklin, no qual ela oferecia-se para passar alguns dias no castelo e discutir assuntos que – segundo ela – eram de interesse do próprio Conde. Ele jamais ouvira falar nela, mas algo dentro de si o fez dar crédito à mensagem e convidar a remetente para o jantar. Sabia que poderia ser mais uma jornalista interessada em fazer uma matéria com os chamados “últimos nobres da França” – como os Beaumarchais eram conhecidos -, contudo, resolveu arriscar. Somente no dia seguinte é que teve realmente certeza de que fizera a coisa certa...
– O que foi, Julie? Você parece decepcionada.
– E estou, Carmen. Não gosto de mudanças de última hora – respondeu ela, virando-se.
Ambas tinham a mesma altura quando Carmen usava suas inseparáveis botas de salto alto. Julie tinha olhos intensos, às vezes castanhos e às vezes verdes, mas poucas pessoas sabiam que eles mudavam de acordo com o seu humor. Carmen não era uma delas. Entretanto, as duas eram amigas há alguns anos e conheciam-se o suficiente para perceber quando a outra estava contrariada.
– Sabe, Julie, você não deveria ir sozinha – disse uma das mulheres, que estivera sentada na cama e levantara-se ao falar.
– Por que não, Jessica?
– Pode ser perigoso – afirmou Caio, um sujeito trajando sobretudo e óculos escuros, apesar de ser quase madrugada e de eles estarem dentro do hotel.
– Bem, além disso, você vai precisar de ajuda – continuou Robert, que até então estivera ocupado em limpar sua Nikon, a inseparável máquina fotográfica.
– Isso sem mencionar que o Conde pode desconfiar – manifestou-se Clark, piscando mais do que o normal por trás das lentes de seus óculos e correndo a mão pelo denso cabelo castanho.
– Já pensamos em tudo isso – defendeu-se Julie, suspirando cansada.
– Então pense outra vez, Ju – o tom significativo de Felicia precedeu um silêncio que durou quase dois minutos.
Enquanto isso os demais se ocuparam em esperar a reação de Julie, que parecia estar pensando em tudo o que ouvira e repassando mentalmente o plano montado por todos eles nos últimos meses. O nervosismo era palpável, era quase como se houvesse mais uma pessoa entre eles. Perto da porta, aparentemente alheios à discussão, estavam Kevin e Paul, cada um com um copo de uísque nas mãos. Clark os observava discretamente, franzindo o cenho e fazendo uma nota mental de comentar algo com Julie antes de dormir.
– Ok – recomeçou Julie, atraindo a atenção de todos. – Vamos nos dividir em três grupos: eu chefio a equipe que vai para o castelo, quero Carmen e Robert comigo. Kevin chefia a equipe que fica aqui no hotel, com Clark, Jessica, Paul e Felicia. Caio, você continua espionando pra nós.
– Pode deixar – disse ele, sorrindo.
– Todos concordam?
– Sim.
– Precisamos avisar o Conde que ele vai ter três convidados. Carmen, você cuida disso pra mim?
– Claro.
– Tem certeza de que vocês três vão ficar bem? – perguntou Paul.
– Vamos sim – Julie respondeu pelos outros. – Por que todo esse medo, gente? Já resolvemos casos bem mais complicados.
– É verdade. Lembram-se daquele lago que diziam ser mal assombrado, na Bélgica? – perguntou Kevin.
– Se resolvemos um caso como aquele, podemos resolver qualquer coisa... somos os melhores do mundo no que fazemos, esqueceram? – disse Caio.
– E somos os únicos também... – comentou Felicia, provocando risos.
– Bem, acho que vamos todos dormir – disse Julie. – Nos encontramos amanhã, às sete da manhã, no quarto do Kevin para repassar o plano, ok?
– Certo.
– E Jessica, você vai ter de rever a localização dos aposentos, não é?
– Sim, eu cuido disso.
– Obrigada, senhores, tenham uma boa noite, nos vemos amanhã – finalizou Julie, deixando o aposento.
Eles poderiam mesmo ser ótimos profissionais: Kevin Stewart era o melhor biólogo que ela conhecia e ainda por cima distraía-se se especializando em conserto e manutenção de equipamentos eletrônicos, Jessica Sullivan fora uma grande arquiteta antes de juntar-se a eles, Robert Wace entendia tudo de fotografia e também tinha a experiência de ter trabalhado quatro anos e meio na Scotland Yard, Carmen Jaurès era uma assistente mais do que eficiente, Clark Saint-Denis era tido como um dos maiores medievalistas da Europa, Caio Trentini jamais falhara como espião, Paul Simon trabalhara durante anos numa das mais confiáveis empresas de segurança da França e Felicia Adamm estudara medicina em Boston, sem falar nas dezenas de especializações em Oxford, Houston e Havana. Ainda assim, Julie Franklin confiava muito mais na própria intuição do que na opinião deles. E tinha seus motivos...
Depois de mais de duas horas de reunião no quarto de Kevin, a equipe ainda discutia os últimos detalhes. Fora acertado que Robert e Carmen acompanhariam Julie até o castelo e se apresentariam como seus assistentes – o que não fugia muito à realidade. Caio continuaria espionando os jardins dos Beaumarchais, de olho em qualquer coisa que pudesse oferecer perigo aos objetivos de todo o grupo. Paul criara e repassara com os amigos todas as regras de segurança, das quais era responsável; Clark checou as informações documentais que conseguira; Carmen foi logo cedo enviar o novo telegrama ao Conde e já estava de volta; e Kevin fora comprar o aparelho de telefonia com o qual se comunicaria com Julie enquanto parte da equipe estivesse dentro do castelo.
– Ouçam, por favor, a Julie e a Carmen têm de ficar no mesmo quarto! – insistiu Jessica.
– Com onze quartos de hóspede naquele castelo você acha que o Conde vai permitir isso? – questionou Clark.
– O Conde é muito cheio de manias e formalidades, vai ser difícil convencê-lo – alertou Felicia.
– Mas não é impossível – disse Paul.
– Tem certeza de que não tem como a gente ficar em quartos separados, Jessica? – perguntou Carmen, querendo encerrar logo a discussão.
– Pelo menos dois de vocês têm de ficar no mesmo quarto – respondeu ela, fazendo um rabo de cavalo nos longos cabelos cacheados.
– E se a Carmen e o Robert fingissem ser casados? – propôs Felicia.
– Nada disso – manifestou-se Julie.
– O Conde poderia perceber – completou Kevin.
– Teremos de adaptar o plano e ponto final – decretou Julie.
– Tudo bem, lá vou eu de novo... – reclamou Jessica, passando pela porta, em direção ao seu quarto.
Alguns segundos de silêncio precederam a fala de Robert:
– Acho que ela não gostou muito...
– Jessica passou a noite em claro refazendo os planos, eu também não gostaria se estivesse no lugar dela – disse Julie, pensativa. – Vou precisar de um último favor de alguns de vocês: Carmen, consiga as plantas da Torre Sul e deixe no meu quarto, ainda não analisei essas muito bem; Clark, você vai me devolver aquela lista com os exemplares da biblioteca, ok?; e Paul, em dez minutos eu vou precisar que você me explique de novo aquele seu plano de emergência para entrar no porão... ah, seria bom se a Carmen estivesse junto.
– E eu? – perguntou Robert.
– Você e o Caio vão analisar os mapas da propriedade. Podem fazer isso agora?
– Sem problemas – garantiu Caio. – E você, aonde vai?
– Falar com a Jessica. Com licença – disse ela, saindo pela mesma porta recém cruzada pela amiga.
O quarto de Jessica ficava ao lado do de Julie, no mesmo corredor, um andar acima dos quartos de Kevin, Paul, Robert, Clark e Caio. Tinha uma grande janela pela qual o sol fraco entrava. O vidro estava entreaberto, agitando o voil da cortina, e sua ocupante admirava uma vista que apesar de não ser magnífica, era agradável aos olhos. Estavam há três dias hospedados naquela pequena cidade, privados da agitação que ela tanto gostava, mas mesmo assim, Jessica não via problema... sabia como seriam as coisas quando aceitou fazer parte do plano.
Abandonara o escritório onde era sócia, a cidade onde morava, as pessoas que conhecia, tudo em troca da aventura de juntar-se à equipe da Dra. Franklin. Riu pensando nisso, ainda admirando a vista. Era estranho pensar em Julie como a “doutora Franklin”. Só mesmo um Conde com idéias medievais acreditaria naquilo... se bem que Jessica conhecia de perto a destreza de Julie em representar papéis...
– Tudo bem com você? – perguntou Julie, entrando no quarto e fechando a porta atrás de si.
– Claro – respondeu Jessica, dando as costas para a janela. – Eu só me irritei um pouco, já passou.
– Sei que passou a noite acordada refazendo o plano, mas é assim mesmo. Lembra-se daquela vez que o Caio teve de ficar três dias no meio do mato, sem água e sem comida, espionando aquela cabana na Holanda?
– Lembro.
– Todos nós nos dedicamos ao máximo em cada caso que surge, mas alguns exigem mais esmero de uns e menos de outros. Dessa vez é você que vai ter de trabalhar dobrado, na próxima pode ser a Felicia, o Clark,... qualquer um de nós.
– Claro.
– Você vai voltar para o quarto do Kevin e refazer o plano – disse Julie, incisiva. – Sei que consegue.
– Tudo bem. E você?
– Tenho alguns assuntos a resolver antes de partir para o castelo.
– Quem vai dar o aval para o novo plano, então?
– Eu confio em você, Jessica. Tenho certeza de que encontrará uma saída – disse Julie, saindo em seguida.
Até às três e meia da tarde o plano estava reformulado, rediscutido e reavaliado por todos. A hora de pô-lo em prática se aproximava, e por causa disso, os ânimos ficavam cada vez mais exaltados. No castelo de Beaumarchais o jantar começava a ser preparado...
N/A 2: Agradeçam aos céus, eu arranjei uma beta-reader! Ninguém precisa mais sofrer com erros grotescos de português. O mérito é todo da Clio Trimegista, que sabe melhor do que ninguém que eu travo uma batalha diária contra essa língua de vocês...
Vandinha Adams!