Sabe quando você passa várias vezes pela mesma situação, que se encontra da exata mesma forma, ao ponto de começar a pensar como seria se não fosse assim? Dias desses, percorrendo o trajeto Pelotas-Bagé de busão, algo que sempre imaginei como seria se acontecesse diferente... aconteceu. Exatamente no meio do percurso, o ônibus, invariavelmente, sai da rodovia e penetra adentro do município de Pinheiro Machado, para cerca de 15 minutos de embarque e desembarque na rodoviária do município. De certa forma, sinto que já conheço a fundo a pequena e pacata cidade - ao menos o trecho compreendido entre o asfalto e a rodoviária da cidade - suas vitrines, lojas, mercados parecem sorrirem à medida em que o ônibus passa. O veículo entra por avenidas largas, passa por uma rua extendida, contorna a estação de tratamento de água da cidade (onde muitas vezes é possível reparar a presença de um Fiat 147 branco parado bem em frente à porta principal), dobra numa placa de "Pare" de medidas desproporcionais (placa pequena demais para a altura em que se encontra), segue reto por uma rua relativamente larga, e pára na rodoviária.
Na saída, o ônibus percorre um caminho diverso. Dobra numa esquina e penetra em uma ruazinha estreita, dessas que só passam um carro por vez, embora tenha mão dupla, e segue adiante, até atingir novamente a larga avenida da entrada, e, logo após e novamente, chegar à estrada. Da última vez que percorri tal trajeto, tudo parecia igual. Vitrines, bares, mercados, clima pacato. Rodoviária. 15 minutos. Na hora da saída, porém, o ônibus principiava a percorrer o mesmo trajeto de sempre, quando, ao dobrar a esquina, teve de frear bruscamente. Algo que sempre imaginei como seria se acontecesse se realizara: na ruazinha estreita, havia um carro estacionado de cada lado da quadra, bem na esquina. Ficara impossível para o ônibus, imponente e comprido, completar a manobra e continuar em seu trajeto. Enquanto uma fila de ônibus se formava atrás do ônibus em que eu estava, e um pessoal simpático reunido na porta do bar que se localizava bem na referida esquina se desatava a rir, eis que surge do interior do estabelecimento um motorista preocupado. Com a chave na mão, correu para retirar sua Palio Weekend vermelha de uma das esquinas, para permitir a manobra do ônibus. Depois de uma fração de minuto, podemos finalmente seguir viagem - sem que o motorista da Brasília amarela que se encontrava na esquina oposta sequer se manifestasse. Como se o carro dissesse: "Por favor, me amasse!"