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Devido ao crescente número de assassinatos que a sociedade tem relacionado com o RPG (que na verdade não passa de um simples jogo, tomado como desculpa para os crimes), tive a idéia para esta história, como uma crítica ao que poderia ocorrer no futuro se essa crença se tornasse mais forte. Bem-vindos a...
O Jogo Proibido
“Jogo de RPG motiva assassinato de família no ES.”
“Polícia investiga relação entre assassinato e RPG.”
“Polícia prende acusados de matar família durante partida de RPG.” (1)
Felipe Mendes já estava cansado de ler esse tipo de notícia nos jornais. Já há alguns anos, vários crimes estavam ocorrendo pelo Brasil. Todos culminavam em assassinato e tinham como culpado (ou culpados) algum jogador de RPG. A polícia nem traçava o perfil psicológico do assassino; logo que encontravam livros como Dungeons & Dragons e Vampiro na casa do sujeito, já apontavam o RPG como culpado por deturpar a mente, transformando jovens normais em criminosos psicopatas. Felipe e seu grupo sabiam que isso era pura mentira. Uma desculpa para não admitir que os jovens podem matar, sim, mas que isso independe dos jogos que ele usa.
Eram quatro. Felipe era o Mestre, com 18 anos, um garoto ágil e inteligente, sempre o primeiro aluno da classe. Sua namorada, Carolina Barros, 17 anos, era uma garota meiga e de cabelos claros, mas no RPG interpretava uma forte guerreira. Seus amigos Guilherme Kimura, 17 anos, também conhecido como O Anão por ser de baixa estatura (e por isso mesmo sempre representar o anão nas partidas de D&D); e Renato Ribeiro, 16 anos, apaixonado por magia, integravam o restante do grupo.
Eles se reuniam na casa de Felipe todos os domingos à tarde para jogar, que sempre esperava os amigos já com a mesa arrumada: o escudo do Mestre na cabeceira, atrás do qual havia mapas e a aventura que só ele poderia ver; vários dados de múltiplas faces e cores; e, claro, uma tigela de salgadinhos para petiscar durante o jogo. Seus pais simpatizavam com seus amigos e, mesmo com as notícias de assassinatos, não proibiam o filho de jogar, pois sabiam que ele era um garoto saudável e não mais um daqueles “psicopatas”.
Por volta das 15 horas, Carolina bateu à porta. Assim que Felipe atendeu, ela enlaçou os braços em seu pescoço e deu-lhe um demorado beijo. Alguns minutos depois Guilherme e Renato chegaram, com livros embaixo do braço. Sentaram-se a mesa, para que Felipe desse início ao jogo. Dessa vez os aventureiros deveriam resgatar uma princesa que havia sido seqüestrada por um dragão, que estava escondido em algum lugar do reino.
O jogo transcorreu sem maiores problemas, todos estavam se divertindo muito, como sempre. A guerreira de Carol pilhava cidades, enquanto o anão de Guilherme procurava armadilhas e o mago de Renato pesquisava novas formas de magia. Já estava anoitecendo quando o pai de Felipe os chamou, dizendo que havia uma notícia na televisão que eles deveriam ver.
“Governo proíbe o jogo de RPG”, dizia a repórter. “Por ter relação com os assassinatos ocorridos nos últimos anos, o Governo decidiu proibir o jogo de RPG. Foi criado um órgão denominado Força Tática Anti-RPG, ou FTA, que será responsável pela retirada dos livros de RPG das prateleiras do país. As pessoas que continuarem a prática do jogo serão punidas pela FTA.”
Eles olhavam para a tela estupefatos. Renato foi o primeiro a falar, jogando os dados de seis faces.
“Não acredito nisso!”
“Que coisa mais ridícula!”, disse Carol. “Como eles esperam acabar com o RPG assim, de uma hora para a outra?”
O pai de Felipe se levantou do sofá, calçando os chinelos, e colocou a mão direita no ombro do filho.
“De qualquer modo, tente não jogar mais fora de casa... Nunca se sabe o que esses loucos do Governo podem fazer.”
Parecia que a sombra da Ditadura se abatia sobre o país. Depois de tanto tempo livres, haviam criado outro tipo de censura: um jogo. Logo o jogo de RPG, tão apreciado por jovens de todas as idades, um jogo que nunca havia machucado ninguém, mas que havia se tornado desculpa para alguns cometerem assassinatos. Felipe segurou a mão de Carolina. Renato se abaixou procurando os dados que havia atirado. Guilherme sentou-se ao sofá, com o Livro dos Monstros aberto no colo. Eles sabiam que, depois desse dia, tudo seria diferente.
Continua...