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Prólogo ---Nascimento---
- Batimentos cardíacos?
- 160 por minuto.
- Está muito rápido! Não vai explodir?
- Precisa resistir, não pode dar errado dessa vez!
- Ela vive! Ela vive! Parabéns senhores! O experimento foi um sucesso!
Essas foram as primeiras palavras que ouvi através dos grossos vidros e do espesso líquido no qual estava mergulhada. Com um enorme esforço abri meus olhos, arderam com a luz ofuscante, mas mesmo assim pude ver aqueles que rodeavam meu corpo. Estava dentro de uma enorme coluna que se parecia com uma proveta gigante, vários tubos se ligavam ao meu corpo, máquinas e mais máquinas enfeitavam toda sala, todas cinzas e muito complexas.
Vários homens e mulheres de jalecos pareciam alegres, se cumprimentavam e choravam com felicidade, não consegui ouvir sobre o que falavam... Meus ouvidos eram bombardeados pelo som de minha própria respiração ecoando pelos tubos ligados a minha boca. Não entendia o que acontecia ao meu redor, por que haveria de entender? Aquela era a primeira vez que abria meus olhos, a primeira vez que respirava, a minha primeira vez em tudo.
Um dos homens se destacava no grupo, ele era mais alto e mais sério do que os outros; não estava comemorando, mas de seus olhos negros rolavam sinceras lágrimas de alegria. Ele se aproximou de mim e encostou sua mão no vidro, tinha cabelos brancos e a face cansada, mas tudo o que consegui manter em minha mente foi o brilho daqueles olhos. Minha visão foi aos poucos escurecendo e fechei meus olhos.
Fiquei naquele laboratório por umas algumas semanas, passando a maior parte do tempo emersa em diversos líquidos e ligada a outras máquinas. Eram testes. Testes para ver se estava completamente pronta, se eu não tinha nenhum defeito, enfim, para ver se eu iria durar. Checavam meus reflexos, suavizaram minha voz, mas não foi o suficiente a ponto de parecer totalmente humana. A tecnologia não era suficiente para me fazer perfeita.
Depois de um tempo fui levada para outro lugar, uma mansão. Durante toda a viagem fui acompanhada pelo mesmo homem de olhos negros que derramou lágrimas de alegria quando fui criada, Wilson era seu nome.
A mansão para qual fui levada era cheia de regras. Eu não podia sair, nem ficar muito tempo na janela. Minha existência era um segredo, ao menos isso foi o que me contaram, que o mundo não estava preparado para o meu nascimento. O mais estranho era o porão, permanecia sempre trancado e eu não tinha permissão para entra lá.
Aos poucos fui aprendendo a falar, minha cpu absorvendo todos os pequenos retalhos de informações como se fosse uma esponja. Era estranho ouvir minha própria voz, nua e fria, sem sinal de emoção e digitalizada.
Nessa mesma mansão foi onde conheci Emily, esposa de Wilson. Ambos me tratavam muito bem, me dando atenção e afeição, para eles eu era uma criança. Gostavam que os chamassem de Papai e Mamãe ao invés de seus nomes verdadeiros, assim eu fiz. Não retornei a ver nenhum dos outros cientistas que trabalharam no projeto da minha construção.
- Aralyn! – Mamãe exclamou uma noite quando estávamos sentados em volta da lareira, estava fascinada com a dança das chamas, queria toca-las. Pareciam com salamandras, corpos esguios e ondulantes dançando a música própria dos estalos da madeira. – Aralyn, não chegue muito perto do fogo, você vai acabar se queimando!
Queimando? O que era aquilo? Não sei dizer por que, mas continuei a aproximar minha mão das chamas... Acho que foi culpa do meu programa, quando fui criada queriam que eu fosse curiosa. Nem mamãe nem papai podiam me ver, tinham ido para cozinha trazer o chá e o jornal, aproveitei o momento sozinha para retirar a tela que estava na frente da lareira.
Estava tão perto... Tão próxima daquelas chamas... Estiquei meu braço e com minha mão direita tentei agarrar o fogo, tentativa inútil. Não era material, impossível de tocar. Mantive minha mão lá, vendo como as salamandras envolviam meu braço que aos poucos começava a derreter se deformando.
- Aralyn!!! – Mamãe gritou desesperada correndo em minha direção, ela puxou meu corpo para longe da lareira, mas não tocou no meu braço, que agora estava tão vermelho quanto às chamas. Olhavam assustados para o metal semiderretido.
- Por que eu não posso tocar o fogo? – Foi tudo o que consegui perguntar, minha voz lenta e digital fazendo perguntas idiotas, por que? De novo culpa do meu programa. Quanto mais eu perguntasse mais conhecimento se armazenava na cpu, mesmo que fossem perguntas que beirasse a idiotice.
Mamãe continuava preocupada com meu braço, com se eu sentisse alguma coisa estranha, mas não sentia nada. Papai estava calmo como sempre, se agachou e passou a mão pelos cabelos brancos, soltou um suspiro e sorriu para mim.
- É por que o fogo não é feito de matéria, mas sim energia. Se quiser darei explicações mais completas depois que arrumar seu braço. Ele vai estar como novo! – Papai estendeu a mão para aminha, a que não estava derretendo, e eu me levantei. – Agora vamos dar uma olhada, provavelmente só vai ter que trocar a parte exterior. – Ela então me guiou para seu laboratório, era uma versão menor daquele no qual fui criada, mas com o mesmo ar melancólico e cinza. Eu odiava laboratórios...
Nota da autora: Os capítulos que virão a seguir serão mais curtos, esse é diferente por que tem o prólogo embutido. Eu também queria avisar que irei tocar em temas como religião e existência, por isso se você se sente ofendido quando falam desses temas recomendo que não leia.