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Fiction » Sci-Fi » Coração de Metal font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Libellule penseuse
Fiction Rated: K - Portuguese - Drama/General - Reviews: 12 - Published: 07-05-05 - Updated: 05-09-07 - Complete - id:1955941

---Felicidade---

Estava mergulhava na escuridão... Na mais densa e profunda escuridão. Era como se tivessem arrancado o meu corpo da neve macia e o jogado em um balde de tinta preta, gosmenta e gordurosa. Minha consciência não passava de um leve vestígio do que fora um dia. Era como se todos os meus arquivos guardados tivessem sido destruídos pela tempestade.

- Aralyn... – Um sussurro brincava em minha mente. – Aralyn! – A voz foi ganhando força. – Aralyn, acorde! Acorde sua preguiçosa Você está em casa!

Comecei a abrir os olhos, mas eles arderam com a intensidade da luz. Fechei-os com força e levei minha mão até a altura do rosto para me proteger da luz. Foi nesse momento que meus dedos deslizaram sobre a pele de minha face... E eu descobri que não era mais feita de metal. Minha pele era quente e macia!

O céu estava vestido de azul gritante e o sol aquecia o meu corpo deitado sobre a grama levemente seca. Eu podia sentir tudo... Absorvi cada sensação com um prazer imenso. Era como uma criança que se delicia com o chocolate que derrete aos poucos na boca. Que cobre a língua vagarosamente e tortura as almas com seu sabor.

Minha visão foi ficando embasada e lágrimas, gordas e roliças, escorreram vagarosamente sobre minhas bochechas morrendo ao caírem na grama. Eu estava chorando. Podia chorar! Depois de tanto tempo... Depois de tudo o que passei... Comecei a soluçar, cada soluço sendo arrancado do fundo da minha alma, rasgando meus pulmões. Chorei por tudo o que não consegui chorar antes. Chorei pela mamãe, por Isabel, pelo papai, por Baher e por Ciri.

Meu corpo estava encurvado em posição fetal, minha cabeça apoiada sobre a grama quente. Algo me aninhou, colocando seus braços envolta das minhas costas, que subiam e desciam de acordo com os soluços. Senti o calor bem vindo do outro corpo.

- Está tudo bem agora... Não precisa mais chorar. Se você continuar ai desse jeito mamãe vai ficar preocupada. Já estamos esperando por você há bastante tempo! Ainda bem que você chegou.

Levantei minha cabeça e meus olhos se encontraram com um par de olhos idênticos aos meus... Eles emanavam tanto calor e alegria que eu sorri. Eu consegui sorrir... Finalmente, um sorriso que podia refletir toda a minha alegria.

Isabel se levantou arrumando seu vestido e estendeu sua mão para mim. Lá estava Isabel... Seus cabelos curtos reluzentes sob a luz do sol, seu vestido xadrez com a bainha suja de terra, seu sorriso idêntico ao da mamãe.

Estendi minha mão e a agarrei com força. Ela é a irmã que nunca conheci, mas que, ao mesmo tempo, sempre esteve presente... Ela me esperou. Juntas caminhamos para a antiga mansão estilo colonial. Mamãe estava sentada em uma cadeira de balanço ao lado da porta de entrada, ela tricotava e cantarolava. Papai estava sentado próximo a ela, lendo o jornal e fumando seu cachimbo. Ciri estava lá também, mas diferente. Ela não era mais um pequeno robô, uma imitação que somente lembrava a forma humana. Ela era uma garota pequena e esguia, não aparentava ter mais do que cinco anos.

Ao me ver, Ciri correu ao meu encontro. Ela parecia ser tão radiante como um raio de sol. Segurou a minha mão livre e a apertou gentilmente. Não precisava falar nada, eu sabia exatamente o que ela estava sentindo. Andamos as três com o mesmo ritmo e nas mesmas passadas, ligadas por nossas mãos, em direção ao papai e a mamãe que sorriam para nós...

Quando foi que conseguimos uma alma? Será que a gente chegou a conseguir uma alma? Eu não sei. E também não queria saber. Talvez nós sempre tivéssemos uma alma. Talvez nós tenhamos a conquistado em algum ponto de nossa jornada. Ou até mesmo as achado perdidas por entre as luzes da Aurora... Pense no que quiser. Eu gostaria de pensar que nossa alma foi conquistada pelo amor... Pelo amor que sentíamos pela nossa famíla, e pelo amor que ela sentia por nós.

E daí se nada daquilo fizesse sentido! E daí se fosse tudo uma mera ilusão. E daí se aquilo fosse o paraíso ou se fossemos somente almas penadas presas a aquela mansão velha... Eu estava junto á minha família, estava rodeada pelas pessoas que eu amo e... Eu era finalmente humana! Como um desejo concebido por uma estrela, a mais improvável das fantasias havia se tornado realidade... E então eu achei a minha felicidade, e sabia que ela duraria para sempre...

---...Fim...---


Obrigada por terem acompanhado a estória de Aralyn até aqui... E me desculpem por ter demorado tanto para que esta tenha, finalmente, se completado.

Também espero que tenham gostado de Aralyn e de sua viajem!

Beijos da autora...

Clara



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