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Fiction » Fantasy » Uma Alma, Quatro Vidas font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Naru
Fiction Rated: T - Portuguese - Drama/Adventure - Reviews: 6 - Published: 08-09-05 - Updated: 08-26-05 - id:1982227

Uma Alma, Quatro Vidas

Prólogo


Nada
Eterno e infindável.

Nada.
Solidão.

Por vezes quase dolorosa demais para suportar.
Sentimentos

Quase sempre desnecessários.

E mesmo assim inevitáveis.

Olhos prateados observavam de dentro da escuridão o pacifico mundo às seus pés. A extensa e conhecida planície, salpicadas por arvores tão antigas quanto sua própria existência. Grama tão verde quanto a que povoava suas lembranças infantis. O límpido rio que serpenteava, cortando o gramado e perdendo-se em meio à mata longínqua.

Solidão. Vazio. Silêncio.

Seus únicos e fieis companheiros. Indesejados e amaldiçoados por tantas vezes que não mais possuía sentimentos ou forças para lutar contra a tristeza que trespassava seu peito a cada momento que os percebia.

Não havia razão para lutar contra seu destino ou sonhar com algo impossível de ser conseguido. Sempre haviam lhe dito que essa era sua missão, algo decidido por seres sem nome e impossível de ser revogado.

Os antigos membros de seu povo diziam ser um dom poder ajudar a tantos.

Ela julgava aquilo como maldição.

Não ter a chance de permanecer com os a dor nos olhos da mãe no dia que partira, ainda uma criança de colo, para seu treinamento. Abdicar de uma vida normal, brincar com as crianças de sua idade. Namorar, encontrar o amor.

Atos banais não foram feitos para ela.

Os quatro sinais que marcavam seu corpo, desde o dia em que nascera.

A incomum cor de seus olhos, que tantas vezes assustara os que a cercavam.

O doce som de sua voz, que fora ouvida por tão poucos.

A incapacidade de envelhecer... A dor que isso causara ao ver as pessoas que amava morrerem em frente a seus olhos.

Alguém detentora de tanto poder não podia ter uma existência normal. Deveria ser treinada, afastada e protegida. Viver na escuridão, sem que ninguém soubesse de sua existência.

Alguns a chamavam de deusa, outros de demônio. E a maioria a conhecia como mito.

Conhecida por seus inimigos e ignorada pelos que protegia.

Dor.
Cada lembrança, seja feliz ou triste,
Traz a inesgotável dor de um dia ter acontecido.

Acompanha nossos pensamentos
Mesmo quando você quer pensar
Em nada.

Pálpebras emolduradas por longos cílios negros cerraram-se, escondendo a promessa daquilo que jamais poderia conseguir. Vida. Luz. Alegria. O rosto de traços jovens e delicados, que escondiam sua idade real, inclinou-se para a direita. A sabedoria infindável passada de geração para geração a cada uma das escolhidas de seu povo.

Todo o histórico da humanidade passado à geração seguinte quando uma deixava de existir cedendo seu lugar a outra ‘amaldiçoada’. A dor era tão grande, o sentimento de solidão insuportável devido ao acumulo de lembranças dolorosas de cada uma das ‘deusas’ anteriores.

O cansaço distorcia as feições perfeitas, mas isso tornava-se impossível de ser observado na completa escuridão que habitava. A sabedoria infligindo rugas invisíveis ao semblante falsamente jovem. As mãos formigavam pelo longo período sem utilizar seus poderes, e ela nada podia fazer além de esperar.

Sentimentos contraditórios passavam por sua mente a cada levantar e descer do sol, há muito deixara de contar os dias. Ou admirar a beleza das mudanças constantes de estações. Nada acontecia consigo mesma e havia dias que tudo o que desejava era que seus poderes começassem a fraquejar. A morte era um pensamento confortador quando não havia nenhuma outra mudança a esperar da vida. Mas ela sabia o que seu descanso significava. Uma outra pobre garota surgiria e seria treinada para tomar seu lugar.

‘Outra amaldiçoada para proteger o mundo’

Outra escolhida para carregar o dom de ter poder incomensurável e desistir de uma vida normal e pacata em troca de dor, solidão e lembranças dolorosas o suficiente para enlouquecer qualquer enviado mais fraco.

Quando sua própria dor a lembrava do que sua morte significava, ela ficava mais forte. O porte altivo voltava a tomar controle e não havia nada no mundo que a desanimasse. A dor era empurrada para o fundo de sua alma, enquanto ela realizava suas funções com afinco maior do que antes. Até que a exaustão a fizesse fraquejar novamente.

Felicidade.
Tristeza.
Companheiras que fazem parte de nossa rotina.
E por mais que você queira a presença apenas de uma delas
Inexistentes, sem seu oposto.

Dias nublados existiam em sua vida desde a primeira vez que fora informada de sua missão. O sol podia brilhar, forte e radiante, convidá-la a partilhar de seus raios e alegria, mas isso não passava de uma promessa. Uma tentação da qual não podia desfrutar. Uma lenta e dolorosa tortura que nunca teria fim.

Momentos de felicidade foram tão escassos e frágeis que ela não mais lembrava qual era a sensação que traziam. Há muito não passava de uma velha sacerdotisa, velha e rabugenta para todos que pousassem os olhos sobre sua figura solitária.

Essa era a sina das escolhidas.

Felicidade você busca.
Tristeza você consegue.

As enganosas calmarias que pincelavam sua vida eram apenas mais um teste. Aqueles que a haviam escolhido, antes mesmo que nascesse, pareciam estar sempre desejando certificar-se de que haviam tomado a decisão correta. Pareciam querer vê-la cair em tentações mundanas ou torturá-la por algum crime que não lembrava de ter cometido.

Talvez apenas quisessem vê-la sofrer.

Os anos tornam qualquer solitário amargo, e não havia sido diferente para ela. A cada ferroada de dor em seu peito, a cada sonho despedaçado, ela cada vez mais se certificava que seu ‘dom’ era uma ‘maldição disfarçada’.

Nenhum poder maior, cheio de luz e bondade permitiriam que sua escolhida sofresse tanto. Eles não desejariam ver sua criação chorando lágrimas invisíveis. Sentindo aquela dor inabalável. Amaldiçoando sua própria existência e desejando morrer.

Não, nenhum poder maior desejaria torturar sua filha mais querida daquela forma cruel.

Tudo.
Impossível de conseguir,
Mesmo que passemos a vida tentando alcançá-lo.
Nada.
O lugar para o qual sempre voltamos.

Ela quisera tantas coisas ao passar dos anos. Desejara, vezes sem conta, que algum inimigo aparecesse e a matasse. Parara em meio a batalhas para saber se sua resistência desmoronaria ou se algum de seus criadores viria a seu resgate.

Nada acontecera.

Sobrevivera a todas as lutas das quais participara. Sofrera com feridas físicas e a dor da certeza de realmente estar sozinha. Perecera com a certeza de que sua vida ou morte não importava a ninguém desde que cumprisse sua missão.

Missão.

Dom.

Até quando aquilo duraria?

Baixou a cabeça, abrindo os olhos lentamente. Podia ver a energia fluindo por seus braços, acumulando-se nas palmas macias e lançando sombras para os longos e delicados dedos. Era confortador saber que aquilo cessaria um dia. Não mais precisaria concentrar-se em controlar toda aquela força para não ferir a si mesma ou os outros.

Seria tão mais simples liberar todo aquele poder até que lhe restasse forças apenas para respirar.

Não, sua missão ainda não terminara. Precisava suportar tudo aquilo até que seus criadores enviassem outra escolhida a seu encontro Alguém para dividir seus conhecimentos e sugar sua dor. Seria libertador poder livrar-se daquele peso.

Tudo é o que deseja
Nada o que aparece a sua frente.

Levantou a cabeça, repentinamente desperta de seus pensamentos. Algo conhecido aproximava-se na escuridão que o pôr-do-sol infringia à terra. Ergueu-se rapidamente, abrindo e fechando as mãos lentamente. Podia sentir a energia percorrendo todo seu corpo, forte e tempestuosa, indicando-lhe que alguma parte de seu ser conhecia o inimigo que vinha à seu encontro.

Respirou fundo, ignorando a brisa noturna ou os raios que cortavam o céu repentinamente. Aqueles eram apenas truques que àqueles que a procuravam usavam para tentar intimidá-la. Quando iriam aprender que comandar a natureza para algo tão banal era um erro?

A presença parou e ela pode sentir, em cada fibra de seu ser, o poder aumentando perigosamente. Tremia, não de medo, mas de antecipação pela batalha que estava por acontecer. Estranho como sua natureza pacifica desvanecia quando a sensação de perigo sobrepujava seus pensamentos coerentes.

Deu um passo em direção a saída, ignorando a eletricidade que percorreu sua espinha. Não havia espaço para o medo ou confusões quando havia um inimigo a ser vencido à sua espera. Respirou fundo, o vento tornando-se mais forte no momento em que colocou os pés no solo úmido. As mãos juntaram-se à frente do peito, em posição de oração enquanto o vento regia uma melodia inaudível para que os longos cabelos dançassem livremente.

Fechou e abriu os olhos rapidamente. Concentrando-se em acalmar aquilo que seu inimigo tinha despertado. Um raio cruzou o céu, atingindo uma arvore próxima. O incêndio começou no mesmo momento que as grossas gotas de chuva caíram do céu, umedecendo suas roupas e embaçando sua visão.

Sorriu, quando em meio a aparente confusão, uma forma apareceu. Aproximando-se lentamente, mascarando o som de seus passos aos da tempestade fustigando a clareira. Aquilo era tão previsível, despertar todos os elementos e aproveitar-se do momento em que ela tentava acalmá-los novamente para pegá-la.

- Vai ter que fazer melhor do que isso.

A forma continuou a caminhar em sua direção, um riso baixo e doce chegando a seus ouvidos apesar do barulho ensurdecedor da tempestade. Baixou a cabeça, entrelaçando os dedos com mais força enquanto concentrava seus poderes em uma barreira invisível.

- Digo-lhe o mesmo, Morgan.

Ela abriu os olhos ao ouvir seu nome ser pronunciado pela suave voz feminina. Roupas semelhantes as suas colavam-se ao corpo da desconhecida, que continuava a aproximar-se sem medo ou apreensão.

- O que você quer?

A mulher riu, retirando uma adaga de suas vestes. A mão delicada levantou, deixando a lamina ser atingida pela luz do próximo raio que iluminou o céu.

- Não parece óbvio? – A desconhecida correu, desaparecendo em meio às sombras, sua voz ecoando como uma doce canção em meio à chuva. – Vim realizar seus desejos.

- Tolice. Eu não tenho desejos a serem realizados.

- Correto. – A voz soou as suas costas e antes mesmo que ela tivesse tempo para reagir, a lamina brilhou à frente de seus olhos – Completei meu treinamento, mas não parece ter sido o suficiente para os velhos. – A desconhecida riu novamente, encostando a lamina gelada contra seu pescoço – Vim tomar o que é meu por direito. – Outro trovão fez a terra estremecer e a chuva intensificou-se junto ao brilho incontrolável das arvores em chama a redor das duas – Seu lugar.

Opostas são as coisas que a vida nos trás.
Cada segundo, minuto ou hora.
Cada pequeno pedaço que você se obriga a suportar
Nesta vida cheia de tudo que você tem que caminhar
E onde a única chegada é a imensidão do nada.


N.A. – Essa é história que eu comecei a um tempo e estava relutando em publicar, mas... Nada pode ficar escondido para sempre ( embora fosse melhor :P)

Como desafio de histórias originais ( e o ‘pedido gentil’ de uma pessoa...) do fórum ( Mundo dos fics) resolvi publicar.

Espero que gostem, vou tentar escrever mais rápido.

Beijos,

Naru



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