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Fiction » Fantasy » Uma Alma, Quatro Vidas font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Naru
Fiction Rated: T - Portuguese - Drama/Adventure - Reviews: 6 - Published: 08-09-05 - Updated: 08-26-05 - id:1982227

Uma Alma, Quatro Vidas

Capítulo 1


Choque. Confusão. Alívio misturado à decepçãão, esse seria seu final?

Anos de solidão e sofrimento, servindo fielmente ao que o destino lhe propusera e tudo acabaria assim? Quando a fiel missão de ser a portadora de tanto poder passara a ser algo tão cobiçado?

Poder... Todos buscavam por poder sem saber as conseqüências... Tolos...

Morgan fechou os olhos novamente, inconscientemente encostando-se a lamina afiada. Estremeceu com a fina dor causada pelo pequeno corte em sua pele. Suas mãos apertaram o braço da garota enquanto afastava-se instintivamente da adaga. Aquele não podia ser o final. Conhecia os detalhes, estudara os documentos. Vira a dor que a mulher que ocupara seu lugar anteriormente sofrera no final. Sua fraqueza até mesmo para pronunciar o antigo encantamento que a liberaria daquela missão.

Apertou os braços da garota com mais força, suas palmas aquecendo com o poder acumulado e ouviu-a soltar um grito abafado antes de libertá-la.

Não. Esse não seria seu fim. Seus poderes continuavam fortes como sempre e aquela garota certamente não poderia tomar seu lugar.

Afastou-se rapidamente, virando-se para encará-la. Observou curiosa a sombra disforme à sua frente, aquela não podia ser a mulher que tomaria seu lugar pelas próximas gerações. Ninguém emanando aquele tipo de luz negra era capaz de tomar seu lugar.

- Diga seu nome.

- Você me queimou!

- Diga seu nome. – Morgan repetiu calmamente, ignorando a dor que a garota deveria estar sentindo.

- Eu não tenho um nome. – Foi a resposta da garota depois de um tempo – Ao contrário de todas as outras não tive a chance de sequer conhecer meus pais. – Um riso amargo fez os ombros delicados estremecerem, antes que ela levantasse a cabeça. Deixando que a luz de um relâmpago iluminasse seu rosto parcialmente – Eles morreram antes de sequer terem a chance de escolher um nome para mim.

- Tolice, todos tem um nome.

- Eu não tenho.

- Quando querem chamá-la o que fazem? – Morgan perguntou, começando a perder a paciência. Estava com frio, encharcada até os ossos e podia sentir o desagradável cheiro de madeira queimada penetrando em cada poro. – Assobiam? Estalam os dedos? – Fez uma pausa, observando a tensão crescente na postura da garota – Talvez apenas joguem uma pedrinha na sua cabeça...

- Ônix. – A garota murmurou entre dentes – Os velhos me chamam de Ônix.

‘Ônix... A escuridão com capacidade de absorver a negatividade a seu redor’

Era isso o que haviam lhe ensinado durante o longo treinamento a que fora obrigada a fazer. Ônix era aquela que nunca deveria ser a escolhida. Absorver energia era algo ao mesmo tempo bom e ruim. Tornava seu portador invencível, mas existia o lado perigoso de tudo aquilo. Quando não maduro esse mesmo poder tornava seu portador suscetível a qualquer energia exterior.

- Não parece mais tão confiante agora... – A garota sorriu, dando um passo em sua direção. – Era essa a razão para tentar descobrir meu nome? – A adaga girou habilmente em sua mão, assumindo um aspecto assustador enquanto o sorriso aumentava. – Queria descobrir meu poder, Morgan? – Mais um passo e os traços delicados do rosto feminino tornaram-se visíveis com uma clareza absurda. – Está tentando pensar em um modo de me destruir? – Olhos vermelhos brilharam na escuridão enquanto o braço delicado levantava ameaçadoramente.

- Não existe maneira de destruí-la.

- Correto.

- E também não existe uma maneira de me matar.

- Errado! – A garota sorriu satisfeita, baixando o braço rapidamente. – Você não pode ser morta e nunca irá envelhecer... Um pequeno presente pelos serviços prestados, se é que me entende. – Arqueou a sobrancelha direita quando a outra garota não se moveu – Mas quem disse que não posso absorver seu poder?

Morgan deu um passo para trás, instintivamente levantando as mãos para se defender. Piscou quando viu Ônix sorrir e continuar imóvel como se esperasse por sua ação. Observou-a em silêncio, as mãos formigando, enquanto continha o ataque. A garota não estava tentando fugir ou se defender, era como se apenas esperasse que ela a atacasse para...

- Tente novamente, Ônix.

- Os anos em isolamento não a deixaram mais burra? – A garota perguntou lentamente. – Que pena, se você tentasse lutar ao menos seria divertido.

- Seus próprios mestres disseram que não podia assumir meu lugar... – Morgan estreitou os olhos, afastando-se cuidadosamente da outra – O que a faz imaginar que lhe entregarei meus poderes tão facilmente?

- Você não os quer! – A voz de Ônix soou alta, em uníssono com o próximo trovão – Vive nessa sua ‘caverna’ lamentando tudo o que perdeu por nascer com esse dom! Por ser a escolhida de seu povo!

- Você não faz idéia do que está falando...

- Você não passa de uma sacerdotisa frustrada e cheia de pensamentos antiquados sobre manter o mal afastado! – Ônix devolveu, a tempestade a sua volta se intensificava a cada palavra raivosa que deixava seus lábios. – A justiça e a honra não mais existem. O poder e a força comandam o mundo!

- Eles nunca ensinariam isso a você.

- Não mesmo? – A garota sorriu – Os tempos mudaram, seus mestres não existem mais e seus valores foram extintos com eles.

- Pare de mentir! – Morgan gritou, sua voz ecoando na clareira vazia e provocando um sorriso nos lábios de Ônix – Você nunca seria escolhida para tomar meu lugar.

- Por que não compartilho seus valores antiquados?

- Porque seu poder é o da destruição!

- Não, Morgan. – Ônix sorriu – Meu poder é o da aniquilação. – Com um movimento rápido do pulso, atirou a adaga na direção da outra, rindo quando uma barreira apareceu impedindo-a de acertar seu alvo – E logo compartilharei dos seus também.

Morgan levantou a mão, segurando a adaga ao mesmo tempo que a barreira ao seu redor desaparecia lentamente. Lançou um olhar na direção de Ônix antes de baixar sua atenção para o cabo decorado com os símbolos antigos.

- Você... – Piscou algumas vezes sem querer acreditar no significado dos símbolos encravados no cabo de prata – Foi treinada pelos sacerdotes das sombras!

- Fui? – Ônix sorriu, o rosto delicado retorcendo-se em um falso sorriso inocente – Acho que me contaram qualquer coisa sobre essa alcunha...Vamos ver... – Balançou a mão no ar, como se espantasse uma mosca imaginária – Ensinamentos proibidos... Escolhas indevidas... Métodos duvidosos... Eram chamados pelos antigos de sacerdotes das sombras... – Sorriu, aproximando-se de Morgan novamente – Isso mesmo. Sua memória é perfeita... Para detalhes insignificantes!

- Por que eles mudaram de idéia?

- Mudaram de idéia?

- Você disse que completou seu treinamento, mas que ’os velhos’ não a consideram suficiente.

- Ah... Isso? – Ônix sorriu – Imagino que tenha algo a ver com as pessoas que absorvi.

- E quem seriam?

- Você é curiosa demais, sabia? – A garota suspirou – Eu deveria me apresentar aos seguidores de seu povo e convencê-los de que estavam enganados a temer alguém com o meu poder... As coisas não ocorreram como deviam e... Bem... Eu tinha que me defender, não tinha?

- Você os matou?

- Essa é uma palavra muito forte. Apenas fiz o que fui treinada a fazer. – Ônix de um ultimo passo parando a frente da outra garota. – Eles deveriam ter me agradecido, mas não! Assim que coloquei os pés na cidade proibida o que aconteceu? – Tocou a barreira entre as duas, o sorriso em seus lábios contrastando com a revolta aparente em suas palavras – Eles tentaram me matar!

- Você desobedeceu às ordens...

- Eu fiz o que precisa para continuar viva! – Olhos vermelhos brilharam na escuridão, a mão delicada fechou-se em um punho – É a mesma droga que você faz quando é atacada.

- Não pode se comparar a mim.

- Tem razão, é muito melhor SER você. – Afastou o braço, desferindo um murro contra a barreira. Sorriu quando viu a garota olhar espantada em sua direção – Força bruta não faz seu estilo?

- Vá embora, Ônix. – Morgan falou depois de alguns minutos em choque – Não quero lutar contra você e minha posição não é tudo o que você imagina.

- Você não percebe, Morgan? – Baixou a mão, fechando os dedos sobre outra adaga que deslizou de dentro de sua manga – Eu não tenho para onde voltar. – Girou os olhos perante a falta de ação da outra – Minha família não existe mais e aqueles que me treinaram... – Sorriu perigosamente – Os que sobram – Ergueu a mão, a adaga escurecendo, como se tornasse-se parte dela – Querem minha morte porque me tornei perigosa demais.

- Deixe-me ajudá-la...

- Dispenso sua ajuda. – Ônix sorriu, deslizando a ponta da adaga sobre a barreira e vendo-a absorver seu poder – Eu já disse antes, Morgan, prefiro seu lugar. – estendeu a mão para a garota e sorriu docemente – Não leve a mal, mas prefiro sua morte a minha, entende?

- Você absorveu poder demais, está enlouquecendo. – Morgan murmurou em resposta, afastando a mão da garota rapidamente.

- Nunca pensei tão claro em minha vida! – Ônix retrucou, observando a lamina em suas mãos brilhando com o poder da outra. Fechou os olhos, sentindo a energia percorrer seu corpo e aquecê-la – Ninguém tentará sequer aproximar-se de mim quando eu tiver absorvido seu poder totalmente.

- Ninguém vai se aproximar de você agora.

- Eles tentarão me matar... Você fará o mesmo se tiver uma chance. – Abriu os olhos, encarando-a com raiva – Não tente me enganar. O poder e a força comandam o mundo.

- Você não sabe o que está falando.

- Talvez... Mas sei o que faço. – Ônix respondeu avançando sobre Morgan.

‘Eu sei que desejei a morte muitas vezes, mas não desse modo’ Morgan afastou-se, desviando rapidamente do golpe. Ouviu-a praguejar e voltar a correr em sua direção, a lamina negra brilhando a cada relâmpago que cortava o céu.

- Não suportei essa meia-vida por tanto tempo para entregar o mundo nas mãos de alguém como você. – Saltou para trás, notando a raiva brilhando nos olhos vermelhos que a encaravam – Meu fim não será esse, Ônix.

- Isso quem decide sou eu! – A garota livrou-se da capa que atrapalhava seus movimentos, deixando os longos cabelos negros, presos em um rabo de cavalo alto a mostra. Sorriu satisfeita ao observar Morgan fraquejar. – Qual o problema, medo de perder?

- Não, tristeza por uma criança carregar tanta magoa.

- Eu não sou uma criança! – Ela gritou investindo novamente contra Morgan.

- Isso quem decide sou eu. – Morgan baixou os olhos para a adaga em sua mão. Podia levantar outra barreira, mas já percebera que isso apenas atrasaria o confronto. Nada faria Ônix desistir de seus planos. Desviou de outro golpe, olhando com tristeza para a garota tropeçar a seu lado – Eu sinto tanto por você...

- Essa é a diferença entre nós! – Ônix virou-se rapidamente, apontando a adaga para Morgan – Eu penso em mim em primeiro lugar.

- Eu sei – Morgan respondeu no mesmo tom calmo de antes - E essa é a razão de eu sentir por você. – Levantou a mão direita, liberando seu poder. Seus olhos encheram-se de lágrimas ao ouvir o grito de dor da garota enquanto era atirada para trás com a força inesperada do impacto. – Eu não posso passar essa carga a ninguém, muito menos a você. – Observou-a levantar-se com dificuldade, ignorando suas palavras e preparando-se para correr em sua direção novamente – Isso termina aqui, Ônix, mas não para mim. – Apertou o cabo de prata com força antes de atirá-lo no peito da garota.

Morgan observou a cena como se passasse em câmera lenta à frente de seus olhos. A adaga prata atingindo seu alvo. O espanto que tomou conta do rosto de Ônix no momento que a lamina afundou em sua carne, a cor fugindo de sua face enquanto ela soltava a própria adaga e caía de joelho, as mãos procurando o cabo, os dedos longos fechando-se sobre a superfície fria.

- Não era assim que deveria terminar... – Morgan fechou os olhos, dando as costas a outra garota. Por mais que soubesse que não havia escolha, não conseguia acreditar que tinha matado Ônix – Você deveria ter me ouvido.

- Não teria feito diferença - A garota respondeu, apertando o cabo com mais força, um pequeno sorriso formando-se em seus lábios ao perceber que Morgan havia baixado a guarda.

- Considera sua vida tão insignificante?

- Não. – Apoiou as mãos no chão, alcançando a lamina negra e levantando-se lentamente – Eu considero a sua valiosa demais... – Esperou que a outra virasse para encará-la antes de tirar a faca do peito de uma só vez. – Sabe... – Sorriu com a expressão chocada no rosto de Morgan – Esqueceu-se de um detalhe importante... – Apertou a adaga prateada com força até que ela desaparecesse – Essa era minha adaga. Eu a criei e ela nunca me destruiria.

- Faz parte de você.

- Sim, e tem um pouco de seu poder também agora... – Respirou fundo, sorrindo – Pretende continuar lutando contra mim?

- Acha que eu devo desistir?

- Não, acabaria com a graça do momento. – Passou a mão pela túnica, olhando com desgosto para o tecido rasgado – Você não deveria ter estragado minha roupa.

- Joguei uma adaga em seu coração! Tentei te matar!

- Sim, e?

- Você está pensando na droga da sua roupa?

- Não conseguiu me ferir, por que eu me preocuparia com algo assim?

- Você é louca!

- Não. – Ônix sorriu – Apenas tenho coisas mais importantes para me preocupar.

- Não vou deixá-la tomar meu lugar.

- Morgan... – A garota suspirou, girando os olhos, impaciente – Está se tornando repetitiva. – Balançou a adaga negra na direção da outra distraidamente – Existem apenas duas opções: eu absorvo seu poder e tomo seu lugar ou... – Sorriu – Mato você, absorvo parte do seu poder e tomo seu lugar. – Deu de ombros – De qualquer modo ganharei.

- Não... – Morgan deu um passo para trás, afastando-se à mesma proporção que Ônix aproximava-se. – Alguém como você nunca poderá tomar meu lugar.

- Pois é isso o que vai acontecer! – Ônix respondeu, correndo em sua direção.

‘Tem que haver um modo....’ Morgan observou os passos da garota cuidadosamente. Seus poderes instintivamente uniram-se formando uma barreira a seu redor poucos minutos antes de ser atingida. ‘Todos tem um ponto fraco...’

- Inútil! – Ônix estendeu a adaga negra, antes de levantar novamente – Suas barreiras são inúteis!

Morgan estreitou os olhos prateados, observando a mão da garota fechar-se no cabo escuro antes que ela corresse em sua direção.

‘A Adaga!’

Esperou que a lâmina estivesse a milímetros da superfície azulada antes de desfazer a barreira e saltar para longe de Ônix. Viu o sorriso satisfeito da garota, os olhos vermelhos brilhando, enquanto corria em sua direção.

Morgan baixou a cabeça, juntando as mãos na frente do peito por alguns segundos antes de apontá-las na direção da garota.

- Eu já disse que seus poderes não funcionam contra mim!

- Não mirei em você. – Murmurou, abrindo os olhos prateados a tempo de ver a o rastro dourado atingir a adaga. – Apenas descobri outra opção. – Sorriu quando a lamina escura explodiu na mão da garota, fazendo-a encolher-se para se proteger dos pequenos fragmentos voando acima de sua cabeça.

- Tola, apenas me deu mais poder! – Ônix gritou. Relâmpagos cortaram o céu, pousando junto as gotas de chuva sobre as mãos da garota antes que ela repetisse os movimentos de Morgan.

- Eu sei. – Ela respondeu calmamente. Observou as quatro cores saindo das mãos da garota em sua direção e fechou os olhos. Podia sentir a energia aproximando-se dela, a aura negra desaparecendo do lugar onde Ônix permanecia para juntar-se a força dos elementos riscando o céu em sua direção.

- Não! – Ônix gritou, percebendo tarde demais os planos de Morgan. Baixou as mãos correndo como se pudesse parar o que tinha começado – Você não pode!

- Eu já fiz. – Morgan sorriu, os olhos prateados brilhando na noite escura pouco antes de ser atingida pela energia negra.

Ônix caiu de joelhos, os olhos abertos em espanto enquanto a força da explosão a atirava para trás, fazendo-a colidir com o tronco de uma das arvores a alguns metros atrás. Abriu os lábios, o ar sendo expelido de seus pulmões com a força do impacto.

- Eu estava tão perto... – Murmurou, sentindo a vista embaçada pelas lágrimas de dor e frustração que escapavam de seus olhos.

Uma risada ressoou na clareira no momento que Ônix perdeu os sentidos. Uma luz intensa cortou o céu, subindo o máximo possível antes de tomar uma forma conhecida. Cabelos negros serpenteavam ao sabor do vento, olhos prateados brilharam intensamente observando as quatro esferas flutuando a seu redor.

- Ela não pode nos encontrar... Espalhem-se. – Morgan sorriu, observando as quatro esferas cortarem o céu, cada uma deixando uma trilha com sua cor.

Fechou os olhos, cansada demais para pensar no que deveria fazer. Sentiu o corpo mudar de forma, tornando-se novamente um brilhante relâmpago cortando o céu e soube que não havia mais nada a ser feito a não ser esperar.

Um sorriso curvou seus lábios, enquanto duas palavras repetiam-se em sua mente.

‘Eu ganhei.’



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