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"Feito para dar errado"
Fiction criada por Sara Lecter em 16 de Setembro de 2005.
Prólogo
Clara saiu do carro e correu como uma louca. Usava um short jeans azul, tênis esportivo branco e somente a parte de cima de um biquíni, o boné que escondia seus cabelos castanhos – presos em um rabo de cavalo – e um óculos escuro que comprara recentemente. Viu os pais saindo da oponente casa no centro da propriedade, mas limitou-se a cumprimentá-los com um aceno e continuou vencendo a distância que a separava de Hélio e Constance, o casal que tomava conta do lugar quando seus pais não se encontravam na fazenda.
Abraçou-os afetuosamente, recebendo o mesmo carinho em retribuição. Olhou rapidamente em volta, entretanto não quis tecer comentário algum além da conversa de praxe, que envolvia o recente passeio e as novidades que ela jamais contaria... mas que deixaria subentendidas com sorrisos que Hélio e Constance entendiam muito melhor que os próprios pais de Clara.
“Maria Clara!” Ela ouviu a voz grossa do pai lhe chamando, deu meia volta e, enquanto observava Gabriel carregar sua mala do carro para a varanda, recebeu as boas vindas dos pais. Seu sorriso os deixou mais tranqüilos, e até ofuscou a pouca atenção que ela lhes deu.
Ao longe, do alto de uma colina que ficava à oeste, no ponto exato onde o sol se punha no final do mês de novembro, alguém observava aquela cena e, com um sorriso nos lábios, caminhava sem pressa em direção ao rio que corria próximo dali.
Poucos sabiam que aquele era o último verão que Clara passaria na casa dos pais...
Merda! Exclamou, mesmo sabendo que o motorista não ouviria. Aquilo era o tipo de coisa que só deveria acontecer em filmes ou livros de ficção policial; no entanto suas calças e sapatos estavam agora encharcados pelo spray alimentado pela água empoçada diante do ponto de ônibus. Não fora o único atingido. Ao seu lado, de terno e gravata, dois rapazes mórmons falavam em alguma língua que Roger não identificou perfeitamente em virtude de seus poucos conhecimentos na área lingüística, mas que poderia apostar ser dinamarquês. Um pouco atrás dele – e por isso menos atingida – estava uma garota de não mais que 13 anos, e Roger ficou se perguntando o que uma menina como aquela poderia estar fazendo na rua em um domingo à noite em que o mundo parecia estar vindo abaixo.
Exatos vinte e seis estafantes minutos se passaram até que ele descesse do ônibus e começasse a andar com pressa pelas labirínticas ruas do centro da cidade, à procura do bar onde marcara de encontrar alguém que parecia ser perfeita para o que ele queria naquele momento: elucidar a estranha morte de uma jovem...
O mundo não acabara no revellion do ano 2000, há quatro dias, e Fernanda riu ao jogar uma pedra no rio e pensar nesse dado curioso. Suspirando, olhou para o céu, abraçou os próprios joelhos e continuou sentada sobre uma grande pedra esverdeada pela umidade dos minúsculos pingos d’água que a cachoeira onde costumava esperar espalhava pelo lugar. Um vale atrás de uma colina, às margens de uma densa floresta sub-tropical onde quando criança, ela e sua melhor amiga procuravam bromélias como se fossem tesouros, e caramujos como se fossem troféus.
Ela queria que aquela fase nunca passasse. Acreditava com todas as suas forças que seria feliz assim para sempre... e o som dos passos de alguém se aproximando a fez sorrir como de costume, e a sentir seu coração batendo mais depressa. Valia a pena viver. Valia a pena acordar e sair da cama todos os dias... valia a pena ver o sol nascer da janela de seu quarto nos fundos de uma casa de tijolos vermelhos. Valia a pena estar ali... e sempre valia a pena acreditar naquilo que todos julgavam loucura.... todas as dúvidas se dissipavam quando ela ouvia o som daqueles passos...
– Você conhece o lugar, então? – perguntou ele, finalmente, vendo-a sorver o último gole de chope.
– Sim – ela estava monossilábica há cerca de cinco minutos, mas Roger parecia não se importar. Observava os olhos distantes dela e se perguntava se ela tinha para onde ir assim que a conversa acabasse.
– Morou lá?
– Ainda não entendi o que você pretende, Roger – foi a frase mais longa dita por Fernanda até então.
– Marco me autorizou a levar alguém comigo. Serão dois ou três dias na fazenda. Tudo o que temos de fazer é conseguir alguma informação que valha uma reportagem... – explicou ele, buscando o olhar dela.
– Vamos ser francos aqui, Roger. Você poderia ter escolhido qualquer outra pessoa... eu entendo, sabe? Mas... há o Carlos ou... enfim... sou apenas uma estagiária e até onde entendi, Marco está apostando alguma coisa nesse furo.
– Você não é tão “estagiária” assim, Fernanda – disse ele, estendendo a mão sobre a mesa e pondo-a sobre a dela. – É uma chance que estou querendo lhe dar...
– Por que eu?
– Por que não você?
Ela respirou fundo, desviou o olhar e retirou a mão debaixo da dele. Apanhou o copo mesmo sabendo que estava vazio. (“Quer que eu peça mais um?” ainda ouviu Roger oferecendo, mas recusou com uma efêmera expressão facial.). Estava claro para os dois que algo a incomodava, mas era difícil saber o que era. Por fim, aceitou viajar. Mas sabia que aquilo não lhe faria nada bem...
N/A 2: este prólogo é dedicado aos mórmuns que eu encontrei na rua, numa noite chuvosa, e que estavam mesmo falando uma língua estranha (u.u)... enfim... todo o resto do enredo surgiu como mágica na minha cabeça. Vá entender...
Sara Clarice Lecter.