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Fiction » General » Feito para dar Errado font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sara Lecter
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Drama - Reviews: 26 - Published: 09-26-05 - Updated: 07-12-06 - Complete - id:2015275

Capítulo 6 – Feito para dar Errado

Fernanda identificou a silhueta de Roger avançando pela porta que acabara de quase arrancar. Encolheu-se na cama, indefesa e ao mesmo tempo se sentindo absolutamente idiota. Deveria ter contado a verdade assim que Roger sugeriu o trabalho. Ele teria feito perguntas demais, pensou. De qualquer forma, ele provavelmente as faria naquele momento; raivoso como estava...

– ERA DISSO QUE VOCÊ ESTAVA FALANDO??

– Roger, precisamos conversar.

– VOCÊ DEVERIA TER ME CONTADO!

– Eu não pude...

– Pelo-amor-de-Deus, Fernanda! Você conhecia ela... você morava aqui! Ela era sua melhor amiga, droga! E eu indo atrás de estranhos para conseguir pistas... com a fonte mais segura trabalhando na mesa ao lado! Céus!

– É assim que você pensa? Assim que me vê, agora? A sua fonte mais segura?

– Não foi isso que eu quis dizer, mas... por Deus, você poderia ter dito tanta coisa... afinal de contas, você sabe o que foi que aconteceu?

– Se soubesse, Roger, teria aceitado voltar pra cá?

– Eu não acredito nisso. Você é maluca, doente. Enganou-me esse tempo todo ficando em silêncio e dando desculpas! Era por isso que não poderia ser vista nas entrevistas, não é? Teriam reconhecido você... como eu fui idiota de acreditar na sua cara de... de... DISCIMULADA, é o que você é!!

– Roger... – Fernanda se surpreendeu ao constatar que conseguia parecer muito mais calma do que realmente estava. – eu reconheço que foi um grande erro esconder isso de você, mas entenda, não vi outra maneira de agir... Deixei de contar na primeira vez que conversamos e mantive a mesma versão ao longo do trabalho...

– Por quê?

– É um assunto sobre o qual eu não gosto de falar. Só isso.

– Como assim “só isso”?

– Seja sensato, Roger. Clara era muito importante pra mim...

– E o que foi que aconteceu? Certamente você deveria saber de todos os segredos dela...

Fernanda permitiu que todo o ar deixasse vagarosamente seus pulmões.


E quem era ele? – Fernanda estava sentada na grama, com as costas apoiadas em uma grande pedra cheia de musgos.

– Hum. Apenas um garoto da escola...- Clara respondeu, corando a face e rindo para disfarçar. Estava com a cabeça pousada sobre o colo de Fernanda, admirando a cascata que tanto fascinava as duas.

– Conheço os seus “apenas”... – Fernanda riu, alisando delicadamente o cabelo de Clara.

– Tá... acho que... que eu gostava dele na época. Pelo menos eu pensava que sim, não sei.

– Sei.

– Que foi? – Clara inclinou a cabeça para olhar Fernanda nos olhos.

– Nada.

– Como “nada”? Você ficou séria. Ficou com ciúmes do garoto?

Fernanda refletiu.

– Pode ser... mas... isso... bem, não seria correto, seria?

– Acho difícil considerarmos o que é e o que não é correto aqui.

– O que eu senti foi muito parecido com o que dizem ser ciúmes.

– Já sentiu isso antes?

– Você já? – Fernanda devolveu a pergunta.

– Ontem. Àquela hora em que o Gabriel chamou seu pai de “sogrinho”.

– Ele faz isso há cem anos, Clara. E você bem sabe que não tem a menor chance...

– Não importa. Não gostei – Clara fechou a cara, cruzando os braços.

– Hei...olhe pra mim, sua boba.

Fernanda esperou que Clara obedecesse, sorriu timidamente e articulou uma pequena frase, apenas movendo os lábios, em silêncio. Clara não precisaria ser especialista em leitura labial para decifrar, e antes de erguer levemente o próprio tronco, sussurrou um “eu também te amo” que Fernanda jamais esqueceria, assim como o beijo que trocaram em seguida.


– Não, eu não sabia de todos os segredos dela.

– Não faz idéia de por que ela fez isso? Aliás, se é que foi um suicídio, afinal de contas, viemos para cá verificar isso também...

– Você quer mesmo saber, Roger?

– Claro! – ele estava impaciente.

Fernanda se levantou, ainda bastante abalada, caminhou até a cômoda que ficara ali, junto com o restante dos móveis, coberta por um grande lençol branco, puxou a primeira gaveta e, sob o olhar atento e curioso de Roger, atirou-a no chão, produzindo um estrondo.

Com o impacto da queda, a gaveta que parecia vazia, desprendeu uma parte, revelando o fundo falso. Roger se abaixou, apanhando uma das fotos entre os envelopes e papéis dobrados.

“Você não mudou nada – ele disse, sorrindo ao ver que era uma foto de Fernanda e Clara, abraçadas, em algum lugar que ele imaginou ser na fazenda, não muito longe da sede.

Ela não respondeu. Esperou pacientemente que ele virasse a foto e lesse o recado no verso. E fazendo isso, Roger se abaixou novamente em seguida e apanhou alguns envelopes. Havia vários deles...


Fernanda estava muito irritada, ainda. Clara, segundo ela, tinha fases insuportáveis. E, segundo ela, também, estava em mais uma delas. Estavam namorando há 4 meses e mesmo não tendo dividido aquilo com os outros, a idéia de que a relação tornara-se séria ficava cada vez mais amadurecida. “Saco!” ela gritou, atirando-se na cama. Passara pelos pais sem lhes dar atenção e fora direto para o quarto. “Não vou jantar” decidiu mentalmente, enterrando a cabeça no travesseiro. Quando se convenceu de que era inútil tentar pegar no sono, abriu um de seus cadernos de aula e começou a escrever. Não pensou em fazer uma carta, um texto, algo organizado. Simplesmente deixou sua mão materializar as palavras que estavam na sua cabeça. Estava decidida e terminar. Não estava mesmo dando certo como no começo. Mas não teria coragem de fazê-lo pessoalmente.


– O que é tudo isso?

– Você não está vendo? Ainda preciso explicar?

Roger deixou o quarto e só voltou meia hora mais tarde.

– Isso contraria tudo o que eu planejara...

– Tentei lhe alertar de que não seria bom investigar isso. Sinto muito.

– Alguém sabe disso? Soube, na época? Os pais dela ou...

– Ninguém.

– Céus... – Roger esfregou as têmporas demoradamente. – Nem ao menos perguntei se você quer tocar no assunto...

– Não quero.

Meio sem jeito, ele abraçou Fernanda com força, permanecendo assim por bastante tempo, notando o quanto a respiração dela estava difícil, pesada. Demoraria para entender tudo aquilo, mas sua prioridade, ali, era parar de pressionar. Por um momento se recordou do chefe de redação e das explicações que teria de dar pelo fracasso do trabalho... droga!


José Marcos, ou Zé Marcos, era um daqueles jornalistas despojados, arrojados, um homem com uma espécie de faro especial por boas matérias. Trabalhava no melhor jornal da cidade desde o nascimento do primeiro filho – que viria a ser o único – sempre sonhando com o dia em que teria seu próprio periódico. Havia quem dissesse que esse dia não tardaria a chegar. Tanto esmero e arrojo seriam recompensados. Contudo, todos os dias, Zé Marcos tinha de explicar à esposa a importância do que fazia e a necessidade de passar muito tempo fora de casa.

“Não me casei com um médico” ela costumava dizer, no começo. “Já não quis um para poder ter um marido em casa”.

“Tenho uma matéria muito importante essa semana...”

“Você tem matérias importantes todas as semanas, Zé Marcos!”

“É a ditadura, Helena. Não podemos nos calar... de uma maneira ou de outra, a população tem de ficar sabendo as atrocidades do regime!”

“Eu não quero saber de nada disso! Seu filho não quer saber de nada disso! Quantas vezes já lhe disse que os militares são perigosos? Você quer ser torturado como alguns dos seus colegas já foram?”

“Eu passaria por isso se ajudasse Roger a crescer num país livre” ele disse, olhando para a foto do filho pequeno.

“Então vá cuidar disso longe da sua família.”

“Está me obrigando a escolher, Helena?”


Roger suspirou cansado.

– Você está bem? – Fernanda perguntou.

– Temos de ir embora daqui. Não há mais trabalho.

– E então? O que você vai escrever na matéria?

“Você quer ser um grande jornalista, meu filho? Pois nunca deixe que interesses pessoais atrapalhem. Não case, não tenha família. Se quiser ter filhos, os tenha com alguém que não roube o seu tempo e não acostume as crianças a sua presença. Um jornalista de verdade é um homem inteiramente livre pra fazer o que quiser... doa a quem doer.”

– Você falaria sobre isso?

– Não mencionei nem mesmo no inquérito policial. Por que o faria para a imprensa?

– Estou pedindo. É uma ótima chance para a minha carreira.

– Não posso. Devo isso à Clara.

– Ela está morta.

– Mas eu não estou – Fernanda se levantou e deixou o quarto.

– Aonde você vai?

Sumir daqui... – ela respondeu já do corredor.

– Ainda não amanheceu, Fernanda.

Dane-se.


Quando ele a encontrou, Fernanda estava diante da cachoeira, observando o cair da manta d’água. O sol estava nascendo.

– Foi aqui. – ela disse, enquanto ele se aproximava.

– Fernanda-

– Dizem que foi mais ou menos a essa hora... um pouco antes do sol nascer. Clara costumava dizer que era seu momento predileto.

– Ouça, eu-

– Estávamos bem naquela época. Acabáramos de decidir por ficarmos mesmo juntas. Conversaríamos com nossos pais assim que a oportunidade surgisse. Mas foi demorando... demorando... e ninguém mais tinha tanta certeza quanto antes. A faculdade dela começou, eu ainda ficaria aqui, não tinha esse tipo de plano.

– Você não precisa me contar, Fernanda.

– E um dia, quando eu não percebera o que estava acontecendo com ela, Clara bateu na janela do meu quarto. Passava de quatro da madrugada. Ela estava chorando, parecia sufocada. Eu dei pouca importância, ela tinha altos e baixos no humor, acabei me habituando com eles. Eu estava morrendo de sono e mal ouvi o que ela disse. Clara percebeu meu descaso, nos beijamos e eu voltei a dormir. Achei que ela tivesse feito o mesmo, voltado pra casa, entrado sem acordar os pais.

Fernanda sentou-se na grama.

– Às vezes estamos preocupados demais com nós mesmos que não enxergamos a outra pessoa. – Roger se sentou ao lado dela.

– Era uma conversa trivial pra mim. Estava com sono, quis deixar para o dia seguinte.

Roger sentiu os primeiros raios de sol iluminarem o seu rosto.

“Mas nunca houve um dia seguinte...


You know how us Catholic girls can be
We make up for so much time a little too late
I never forgot it, confusing as it was
No fun with no guilt feelings
The sinners, the saviors, the loverless priests
I'll see you next Sunday

We all had our reasons to be there
We all had a thing or two to learn
We all needed something to cling to
So we did

I sang Alleluia in the choir
I confessed my darkest deeds to an envious man
My brothers they never went blind for what they did
But I may as well have
In the name of the Father, the Skeptic and the Son
I had one more stupid question

We all had our reasons to be there
We all had a thing or two to learn
We all needed something to cling to
So we did

What I learned I rejected but I believe again
I will suffer the consequence of this inquisition
If I jump in this fountain, will I be forgiven
We all had our reasons to be there
We all had a thing or two to learn
We all needed something to cling to
So we did

We all had delusions in our head
We all had our minds made up for us
We had to believe in something
So we did

(Alanis Morissette, Forgiven, 1995)

FIM


N/A: Perdoada

Você sabe como nós, meninas católicas podemos ser
Nós nos formulamos por tanto tempo, um pouco tarde demais
Nunca esqueci isto, confuso como era
Não há diversão sem sentimentos de culpa
Os pecadores, os salvadores, os padres sem amantes
Eu te verei domingo que vem

Todos nós tínhamos nossos motivos para estarmos lá
Todos nós tínhamos uma coisa ou duas a aprender
Todos nós precisávamos de algo para agarrar
Assim fizemos

Eu cantei Aleluia no coral
Eu confessei meus piores pecados a um homem invejoso

Meus irmãos, eles nunca seguiram à risca o que faziam
Mas eu posso, bem como, seguir
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
Eu tinha mais uma pergunta estúpida

Todos nós tínhamos nossos motivos para estarmos lá
Todos nós tínhamos uma coisa ou duas a aprender
Todos nós precisávamos de algo para agarrar
Assim fizemos

O que eu aprendi, rejeitei, mas eu acredito de novo
Eu sofrerei as conseqüências desta inquisição
Se eu pular nesta fonte, eu serei perdoada?

Todos nós tínhamos nossos motivos para estarmos lá
Todos nós tínhamos uma coisa ou duas a aprender
Todos nós precisávamos de algo para agarrar
Assim fizemos

Todos nós tínhamos desilusões em nossa cabeça
Todos nós tínhamos nossas formuladas por nós
Nós tínhamos que acreditar em algo
Assim fizemos.

N/A 2: Acima, a tradução da música que encerra o capítulo – e a história. A princípio pensara em fazer um epílogo, mas o plano de uma continuação abarca qualquer explicação. Portanto, aqueles que gostariam de saber o que houve com Fernanda e Roger, podem acompanhar a próxima história, onde ambos são – novamente – personagens principais. O início dela está ainda nesse capítulo, é a conversa entre Zé Marcos e Helena, os pais de Roger.

N/A 3: Quem sabe um dia eu re-publique esse capítulo, com uma parte de agradecimentos. A todos que deixaram reviews, dedico essa história. Gostaria de receber opiniões e sugestões para o próximo enredo envolvendo Roger e Fernanda. Em tempo: levei em consideração as colocações sobre o Roger estar grosso e insensível demais no final da história. Garanto que ele melhora daqui pra frente. A não ser, é claro, quando as lembranças do pai o atormentarem de novo...

Sara Clarice Lecter.



© Copyright 2005 Sara Lecter (FictionPress ID:456660).


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