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Fiction » Romance » O Manual de Instruções font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Francisco M Neto
Fiction Rated: M - Portuguese - Romance/Sci-Fi - Reviews: 1 - Published: 02-08-06 - Updated: 02-09-06 - id:2108219

"O que você tá fazendo logado numa hora dessas? Você não deveria estar em aula?"

"É, eu sei. Eu tô na aula. Só não conta pra ninguém, tá?"

"Em plena aula?! Você tá louco? Se te pegarem você tá ferrado!"

"Por isso que você não pode contar pra ninguém."

O professor aponta para o quadro branco, na frente da classe. "Esfera." Um círculo se desenha no quadro, emergindo em seguida, flutuando sobre a mesa.

"Como vocês sabem", começa ele, "esta é a forma aproximada da Terra. Alguém sabe dizer porquê ela é assim? Isto é, por quê ela não tem outra forma?"

"Nossa, como eu odeio aula de Física. Faz eu me sentir um completo retardado."

"Você não é o único."

"É, mas pra você é opcional. Se você quiser, fica na física básica. Eu tenho que enfrentar isso aqui."

"Foi você quem quis fazer esse curso."

"É, mas eu não achei que precisasse tanto de Física!"

Puta curso concorrido. Ele tinha ralado muito pra entrar. Era o sonho de todo moleque naquela idade: engenharia espacial. Mas moleques são idealistas demais. Ficam tempo demais no mundo dos sonhos, e não medem conseqüências. E agora ele estava ali, naquela aula chata.

Tinha entrado no curso crente de que já ia sair voando pelo espaço, trabalhando nos aglutinadores de alguma estação espacial por aí.

"Que bobagem a minha. Cinco anos nesse curso e até agora nenhuma viagem de campo."

"Como você é volúvel. Ainda ontem você tava dizendo que era justamente isso o que você queria pro resto da vida."

"É, mas ontem eu não lembrava dessa aula. Agora é diferente."

"Diferente nada. Toma vergonha na cara e pelo menos tenta estudar. Você ia superbem de Física no fundamental. O quê que mudou de lá pra cá?"

"No fundamental eu tinha motivação."

Ele só olhava de vez em quando para a frente da sala. A esfera agora estava apoiada num plano, distorcendo a geometria dele como uma bola de boliche numa cama.

"Agora," dizia o professor, "se a massa dessa estrela for grande demais, ela passa da fase de supergigante vermelha..." e a pequena esfera se expandiu, ficando vermelha e enchendo toda a sala (que tinha pelo menos 50 alunos) "... tornando-se um buraco negro." E a imensa esfera vermelha se reduz a um ínfimo ponto, provocando tal deformação no plano onde estava apoiada que não dá pra ver o ponto onde ela ficou. "Nem a luz escapa de um lugar como esse."

"Bah. De que me interessa um lugar de onde nem a luz escapa? Eu nunca vou saber o que acontece lá dentro, mesmo."

"Nunca se sabe. As coisas sempre têm jeito. É o que você costumava me dizer."
"Mas isso é diferente. Um buraco negro não é uma pessoa. E não está apaixonado."

"Talvez. Mas tudo tem seu par."

O professor conjura outra holografia semelhante, mas de ponta cabeça. "Às vezes, um buraco negro se conecta com outro,
gerando uma conexão entre dois pontos distintos do espaço-tempo. É o objeto conhecido como 'buraco de minhoca', já que parece com um. Quem deu o nome foi Einstein, quando..."

"Buraco de minhoca... até parece uma criança cavocando na terra."

"Tá vendo? Até buracos negros têm sua alma gêmea."

"Você tá prestando atenção nisso??"

"Mas é claro! Tô sem nada pra fazer mesmo."

"Se pensou em usar isso como meio de transporte," continuou o professor, "mas depois que surgiu a tecnologia de escudo espaço-temporal isso foi posto de lado."

"Ah, finalmente tá acabando."

"Pra próxima aula, não esqueçam de estudar o capítulo sobre estados metaestáveis do espaço-tempo. Quem não entregar não vai poder fazer a prova. Até mais."

O professor se foi. Ele ficou ali ainda, observando o movimento das pessoas.

"To indo pra casa. Quer uma carona?"

"Não, pode ir. Ainda tenho umas coisas pra acertar aqui. Aproveita e liga pra sua mãe, avisando que a gente vai lá no fim de semana."

"Tá bom. E o quê eu digo pra ela? Oi mãe, você vai ser avó!?"

"Não, só fala que a gente vai. Quero dar a notícia dos gêmeos pessoalmente."

"Ok. Te vejo em casa."

"Se cuida."


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