| Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search | Login Register Extras |
"Ah... casa." murmurou, sentindo o aroma familiar da sua bagunça particular. Eles já moravam ali há três anos, então o lugar estava razoavelmente ajustado ao modo de vida descontrolado do casal (isso ia ter que mudar).
Foi até o quarto, tirou os sapatos, trocou o jeans surrado por uma bermuda, deitou na cama e pegou um livro. 'Tecnologia de Aglutinadores, isso sim é que é assunto', pensou. O sujeito que tinha inventado essa coisa era realmente um gênio. Uma máquina que era capaz de montar outras máquinas, de acordo com o programa que elas tinham que executar. Totalmente modular, incrivelmente versátil. Uma obra de arte. Era o que tinha finalmente tornado possível a construção das naves espaciais que seu pai admirava tanto. "Essas coisas na minha época eram só ficção científica", ele dizia toda vez que via uma.
E agora, era a vez dele. E gêmeos logo de uma vez.
Afastou o livro e ficou olhando para o teto.
"Cacete..."
Ele próprio só tinha ficado sabendo há alguns dias. Ainda não tinha tido tempo de absorver a novidade completamente - e ele também não achava que um dia conseguiria.
Tomou fôlego, levantou da cama e foi até o telefone. Discou um número.
"Alô?"
"Oi mãe."
"Filho! Que coisa boa você ligar. Tava mesmo pensando em você."
"Que bom. Tá tudo bem por aí?"
"Tá sim, tudo como sempre. E você? Tá comendo direito?"
"Tô sim, mãe. Escuta, eu tô ligando pra avisar que a gente vai aparecer aí no fim de semana."
"Ai que coisa boa! E vêm vocês dois?"
"Sim, claro."
"Tá bom. Vou fazer aquela carne de panela que você gosta, então."
"Obrigado."
"Não precisa agradecer, filho. Se vocês forem trazer mais alguém, me avisa."
"Tá bom, mãe. Dá um abraço no pai."
"Tchau filho, fica com Deus."
"Tchau."
'Avisar se for levar mais alguém...' ele pensou consigo mesmo a respeito das palavras de sua mãe. Que irônico, eles realmente iam levar mais alguém, mas não iam avisar, não.
"Oi."
"Ah, olha você aí. Falou com a sua mãe?"
"Acabei de ligar pra ela."
"Ótimo. Então me ajuda a arrumar isso aqui."
E ela começou a juntar a louça. Ele, meio perdido, levou alguns segundos pra perceber o que estava acontecendo. Meio inerte, meio sem saber o que fazer, começou a ajudar a organizar a louça pra lavar.
"Deixa, eu já tô fazendo isso. Junta a roupa e coloca na máquina."
"Tá bom."
E lá foi ele, seguindo as ordens da "chefe da casa". Juntar as roupas e colocar na máquina até que seria uma tarefa fácil, se eles não tivessem o dom de espalhar a roupa deles pela casa inteira. Uma camiseta no quarto, uma blusa no sofá da sala, uma calça no banheiro... nossa, como eles eram bagunceiros (isso ia ter mesmo que mudar).
"Já tá melhor de humor?"
"Mais ou menos. Pelo menos não tô mal como na aula."
"Você precisa parar de acessar a neuronet no meio da aula. Se você prestar atenção tudo vai ficar mais fácil."
"Não pensa que eu não tentei. Mas não adianta, o assunto é ruim..."
"De novo essa bobagem? É exatamente a mesma coisa de antes, e você adorava isso."
Ele não sabia bem como responder. Ela tinha razão, pelo menos de certa forma, e ele não queria admitir. Mas também não ousava desmentir. E aí ela o abraçou, apoiando as mãos cruzadas em suas costas e se esticando para trás.
"Seu bobo", disse com um sorriso. "Só eu sei o quanto você é cabeça-dura. Quando você se propõe a fazer alguma coisa, nada te impede. Falta tão pouco pra você se formar!"
"É, eu sei... eu sei..."
"Então, se você sabe, não desista. Você é capaz de coisas maravilhosas. Eu sei."
Como é que ela fazia isso? Aquele sorriso sempre o derretia. Como num passe de mágica, tudo fazia sentido quando ela estava por perto.
Levantou sem acordá-la, foi até o banheiro, tomou uma chuveirada pra acordar, escovou os dentes, se arrumou e saiu, dando um beijo na testa dela, que continuava dormindo. Olhou por um momento para o rosto bonito deitado no travesseiro da cama, o sorriso de leve que ela sempre fazia quando dormia...
"Caralho, como eu tenho sorte."
Fechou a porta, e tomou o caminho da faculdade.