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A catastrófica campanha dos Estados Unidos contra o terrorismo que teve início com a invasão do Afeganistão nos primeiros anos do século XXI é considerada hoje um dos principais fatores que levaram ao processo que causou o colapso da economia mundial em menos de meio século.
Iniciada com o pretexto de pôr fim ao terrorismo, essa política foi sistematizada em sucessivos governos, levando a uma ocupação quase total do Oriente Médio por forças americanas, à exceção do Estado de Israel e da Palestina. Posteriormente, com a emigração das populações locais, ela acabou se transformando num processo de colonização, e em 2030 a região foi oficialmente reconhecida pela ONU como colônia de exploração dos Estados Unidos da América.
Na América do Sul, depois de sucessivas crises políticas o Brasil entrou em estado de guerra civil com a generalização do crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro. Em 2011 as forças militares ocuparam as principais capitais do país, dando início a um estado de sítio que durou quase cinco anos. O movimento 9 de Julho proclamou a independência da República do Prata em 2015, separando do Brasil os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e fundindo-os com o Uruguai e a região nordeste da Argentina.
O restante do país permaneceu sob lei marcial até meados de 2016, quando as invasões de Venezuela e Bolívia finalmente levaram a ONU a enviar uma força de paz para restaurar a ordem à região, pondo fim aos focos de resistência no Rio de Janeiro. Com o fim da guerra civil, o país se viu finalmente em paz, porém dividido em seu cerne; Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia fundaram a Federação da Guanabara, enquanto os outros estados do nordeste do país fundaram a União do São Francisco. A Bolívia anexou grande parte do Pantanal, e o Brasil ficou reduzido a uma região limitada em torno da capital, Brasília. A Amazônia foi declarada pela ONU como zona de proteção ambiental e passou a ser considerada área internacional. A ela se seguiram outras regiões de grande diversidade natural, tais como o Pantanal (retomado da Bolívia em 2018), o Sahara e o Himalaia.
A Organização das Nações Unidas, por sua vez, depois de ver a sua autoridade minada pela arbitrariedade das ações norte-americanas, chegou à metade do século XXI como a autoridade máxima no mundo, graças ao apoio da União Européia, que com a decadência do dólar, tornou-se a segunda maior potência econômica do mundo em 2026, com a sua unificação política. Também serviram de lastro para o estabelecimento da ONU como autoridade mundial o apoio de China e Índia.
Esses dois países, através de extensos acordos de comércio e cooperação mútua, passaram a ser considerados um único país em 2025, tornando-se a maior potência mundial.
A África viu uma situação difícil e incômoda degringolar em uma série de conflitos armados entre tribos rivais em praticamente todos os seus países, o que acabou por culminar na Terceira Guerra Mundial em 2024. No entanto, com a Crise Energética em seu auge, poucas nações do mundo puderam ou ousaram enviar ajuda para qualquer um dos lados, o que acabou por manter o conflito cruelmente equilibrado até 2033, quando finalmente alguma ajuda internacional relevante foi enviada à Liga do Norte, desequilibrando o conflito em favor do grupo liderado pelo Egito.
No entanto, a guerra só foi declarada terminada em 2038, depois de 14 anos de conflito. A população africana fora reduzida em 70, transformando a África no continente mais esparsamente populado do mundo.
Com a economia esfacelada, tornou-se impraticável para Washington manter controle sobre um território tão grande, e aos poucos a unidade política do país ruiu; nada menos que quinze repúblicas passaram a existir entre o Oceano Atlântico e as Montanhas Rochosas.
No entanto, os ex-EUA não foram os únicos prejudicados com o fim do petróleo no oriente médio. Devido ao grande número de bens que continham algum tipo de subproduto, toda a indústria mundial teve que se reformular para encontrar alternativas – na maior parte dos casos, adotou-se políticas massivas de reciclagem de materiais, dando origem à cultura do lixo: famílias que anteriormente eram miseráveis e reviravam os grandes depósitos urbanos de lixo repentinamente viram-se obtendo lucros altíssimos com a recilagem de materiais, e logo isso se tornou uma indústria por si só. Além disso, a cultura do lixo também pregava o uso sempre maior de bens descartáveis, o que realimentava a máquina do reaproveitamento. A assim chamada “nova elite” passou a ser composta por, entre outros, membros oriundos das indústrias de reciclagem e de famílias que antes reviravam o lixo para sobreviver.
No entanto, a cultura do lixo não foi suficiente para impedir a crise energética que assolou o mundo. Além disso, apesar de as reservas na Venezuela, na Bolívia e no Canadá, as únicas remanescentes no mundo, terem capacidade para fornecer petróleo e gás natural ainda por algumas décadas, a visível alteração no clima terrestre finalmente levou a ONU, em 2022, a declarar crime contra a humanidade a exploração e a utilização de qualquer tipo de combustível fóssil, além de estabelecer limites rígidos para a produção dos gases conhecidos como “classe estufa” em qualquer atividade humana.
Por volta de 2015, haviam sido descobertos os materiais fotoativos, que vieram a possibilitar a fabricação de células solares com eficiência fotoelétrica superior a 80, tornando possíveis finalmente as usinas de energia solares. Além disso, a evolução da tecnologia de supercondutores permitiu um avanço sistemático na tecnologia de fusão nuclear. No entanto, esses avanços só ficaram disponíveis para a geração de energia por volta de 2040, no auge de uma crise energética que abalou o mundo. Sem energia suficiente para suas fornalhas, a indústria teve seu ritmo violentamente reduzido, e a fabricação de bens de consumo como eletroeletrônicos e automóveis ficou praticamente estagnada. A maior parte da energia elétrica ainda disponível, provinda de usinas hidroelétricas e nucleares, era direcionada para as indústrias mais essenciais, e o consumo residencial e comercial foi submetido a um racionamento rigoroso; boa parte do mundo voltou a se iluminar com velas.
O uso frenético de combustíveis fósseis nas últimas décadas de progresso norte-americano e a não-adesão dos EUA ao Protocolo de Kyoto até 2019 foram os grandes responsáveis pelas alterações geográficas no mundo naquele período. Os gases do efeito estufa provocaram o derretimento da calota polar antártica e, com isso, a maior parte das cidades litorâneas do mundo desapareceu. A América Central desapareceu e a alteração nas correntes marítimas provocou o congelamento da Europa no inverno. O Sahara, antigamente um imenso deserto, gradualmente se transformou uma imensa região tropical, com florestas perto da costa e uma imensa planície no interior, onde atualmente se localiza a Nova Holanda.
A Amazônia passou por esse processo milagrosamente intacta, uma vez que a alteração das correntes no Atlântico foi contrabalançada pela mudança das correntes do Pacífico. Ao sul, a Cordilheira dos Antes se tornou uma região de praias tranqüilas. No entanto, o extremo sul da América desapareceu e o Estreito do Atacama se localiza onde antes ficavam as regiões sul da Argentina e do Chile. Na América do Norte, a costa oeste desapareceu, com o Oceano Pacífico avançando até o sopé das Montanhas Rochosas. O Canadá se transformou numa imensa região gelada, coberta por tundras e onde a subsistência das populações locais tornou-se muito difícil.
Na Europa, a Holanda desapareceu; antigamente ela já ficava abaixo do nível do mar, e com o derretimento da calota antártica não houve engenharia capaz de construir diques que mantivessem o mar fora, fazendo com que toda a população do país fosse exilada para outras regiões, sendo reunificada somente tempos depois com o estabelecimento da Nova Holanda. Noruega, Suécia e Finlândia, bem como a Sibéria, se transformaram em zonas temperadas, enquanto a Europa passou a congelar completamente durante o inverno, à exceção do Sul da Espanha e da Itália.
O período que se seguiu à Era dos Extremos, contrastando com a primeira metade do século XXI, foi um período de constância e estabilidade. Com as numerosas mudanças ocorridas até 2046, as nações do mundo concentraram-se em se adaptar à nova situação. Assustadas com as conseqüências devastadoras da guerra na África, as potências mundiais foram firmes na insistência em negociações pacíficas. O Conselho de Segurança da ONU, agora sem membros permanentes, promulgou a Constituição Mundial, um conjunto simples de regras que, além de incluir a Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano, fazendo menção a outras regulamentações semelhantes, e com uma série de leis que toda nação deveria cumprir.
Decididas a evitar a todo custo qualquer guerra, a República do Prata, a Europa e a Chíndia, principais membros do Conselho de Segurança, incluíram na Constituição a previsão de isolamento total e irrestrito a qualquer nação, instituição ou bloco que declarasse guerra aberta ou velada sem aprovação unânime do Conselho de Segurança.
No entanto, mesmo com a diminuição nas mudanças geopolíticas no globo, a segunda metade do século XXI não foi uma época de muita prosperidade. Ainda muito abalada devido à crise de energia, a indústria se recuperou apenas lentamente, e várias regiões industriais antes prósperas se tornaram decadentes. O êxodo industrial iniciado nas décadas de 20 e 30 se tornou uma preocupação quando a população rural superou 60 do total mundial, o que levou a ONU a adotar medidas de emergência para evitar que a falta de mão de obra prejudicasse ainda mais a já fragilizada recuperação da indústria, tão necessária para o fornecimento de subsistência para uma população crescente.
Essas medidas incluíram investimento massivo na renovação da rede mundial de geração de energia, com investimento pesado na instalação de usinas solares e na pesquisa em fusão nuclear. Além disso, foram promovidos programas de reurbanização e repopulação das antigas zonas industriais. Foi iniciado também um programa de colonização, cujo objetivo era redistribuir a população mundial, evitando desgaste excessivo em regiões superpopulosas.
Graças aos incentivos para estabelecimento de novas indústrias e ao gradual reestabelecimento do fornecimento de energia, esses projetos começaram a surtir efeito, desacelerando a queda da população metropolitana e aos poucos fazendo-a voltar a crescer. Até 2090, mais de 85 do número de pessoas que haviam migrado para o camplo havia retornado às cidades. Principal alvo da campanha de colonização da ONU, a África recebeu a maior parte dos contingentes vindos do campo, formados principalmente por famílias que haviam perdido tudo durante as crises do petróleo e de energia, e que anteriormente haviam formado o movimento de êxodo industrial.
Temendo novas crises no fornecimento mundial de energia, os programas de incentivo à construção de usinas solares perduraram por quase meio século, estabelecendo uma cobertura de 0,5 da superfície terrestre com as familiares placas azuis dos concentradores, formando uma rede mundial capaz de fornecer energia para os cinco continentes de forma ininterrupta. A tecnologia de fusão nuclear, anteriormente promissora para a geração de energia elétrica, foi direcionada para a alimentação dos meios de transporte.
Completamente abandonada desde a década de 2020, a exploração espacial voltou a ter importância por volta de 2075, devido à busca por mais recursos naturais, necessários para abastecer uma população que já ultrapassava os 12 bilhões de pessoas.Várias agências espaciais se propuseram a estabelecer colônias de exploração em outros planetas do Sistema Solar num prazo de 50 anos. Estava oficialmente dada a largada para a corrida pela colonização do Sistema Solar. Até 2090 tanto a AENC (Administração Espacial Nacional da China) quanto a AERP (Agência Espacial da República do Prata) e a AEE (Agência Espacial Européia) já haviam estabelecido centros de pesquisa permanentes em território lunar.
Paralelamente a esses desenvolvimentos, tensões cresciam entre os países dos ex-EUA. Dois blocos com orientações diferentes, um desenvolvimentista e outro conservador, logo se formaram e uma polarização entre norte e sul surgiu na América do Norte. O sul era formado por países que seguiam a tradição da religião puritana dos primeiros colonizadores da região, do século XVIII. Os países do norte, por sua vez, em sua maioria não tinham religião oficial e era liberais quanto a temas considerados tabu no sul, tais como aborto, eutanásia, liberdade sexual, não-proibição às drogas e clonagem humana.
Tais diferenças começaram pequenas e contornáveis; mas logo a convivência de duas culturas tão diferentes gerou conflitos locais na região fronteiriça entre países de dos dois blocos. Não querendo ingerir na soberania dos países da região, a ONU não interferiu, esperando que uma solução diplomática fosse logo alcançada entre os próprios envolvidos. No entanto, o que se viu foi o aumento das tensões e a generalização da intolerância entre as duas populações, ao ponto de as duas coalizões estarem a ponto de declararem guerra entre si.
Reagindo à pressão de organismos internacionais, a ONU reagiu a essa situação e interviu na região, declarando a região fronteiriça entre sul e norte como zona diplomática internacional em 2095, mantendo sempre uma distância de 500 km entre as fronteiras norte e sul.
Esse acontecimento levou o Parlamento Geral da ONU a considerar seriamente pela primeira vez a idéia de unificação. Inicialmente resistentes à idéia, aos poucos os países membros foram entrando na discussão e gradualmente a idéia foi se fortalecendo, até que em 2098 chegou-se à decisão de adotar uma unificação parcial, deixando as decisões de cunho estritamente local sob responsabilidade dos governos regionais. Essas decisões incluíam a língua oficial de cada Estado, manutenção da cultura e do meio ambiente, entre outras. Uma Assembléia Constituinte foi estabelecida naquele mesmo ano para reelaborar a Constituição Mundial.
A Constituinte levou pouco mais de dois anos para elaborar o novo texto, e em 1º de janeiro de 2101 foi declarada estabelecida a Confederação Terrestre.