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Julie Franklin e o Tesouro de Flávio Creto
“Felippo Maria ergueu-se como único senhor do Ducado de Milão em 1413. Irmão mais novo de Giovanni Maria – morto um ano antes – e herdeiro da mais poderosa família de toda a Lombardia, os Visconti, recuperou os domínios de seu pai. Entretanto...”
Ela flagrou-se que lia o mesmo parágrafo pela terceira vez por causa do nome daquela família. Visconti. Clark a entregara um ótimo estudo sobre a cidade de Milão nos séculos XV e XVI, no qual havia tantas citações a eles e aos seus sucessores – os Sforza – que sua mente fora levada à exaustão. Ou talvez fosse o excesso de trabalho. Ela estava trancada no escritório desde o início da tarde e há horas Vicenzo pedira permissão para se recolher.
“Francesco Sforza foi o homem de confiança do Duque de Milão e da Rainha de Nápoles, Joana I. Sua relação próxima com Felippo Maria Visconti permitiu que desposasse sua filha, Bianca Maria, no ano de 1441 e, com a morte do sogro em 1450, assumisse o Ducado.”
Esforçando-se para manter as pálpebras abertas, Julie fez uma pausa e bebeu o último gole do Capuccino que esfriara sobre a mesa. Suas costas estavam doendo, sua mente estava confusa, seus olhos estavam se fechando sozinhos. A única coisa na qual ela conseguia se concentrar com nitidez era a imagem da própria cama, no final do corredor do andar de cima.
Seus amigos deveriam estar dormindo há muito tempo e por alguns instantes ela se permitiu pensar neles. Clark a estava auxiliando com as pesquisas históricas, Jessica viera à Paris resolver problemas pessoais e se hospedara na Île Saint-Louis a convite da prima, e finalmente Robert, que já há alguns dias investigava aquele que poderia ser o próximo trabalho da equipe.
Só mais duas ou três páginas, forçou-se ela, mas sua mente não foi capaz de se manter acordada por mais de cinco segundos. Adormeceu ali mesmo, debruçada sobre a mesa do escritório.
A praia estava cheia de turistas e o sol demoraria algumas horas para se pôr. Suas mãos suavam apesar de no quarto fazer pouco mais de 20 graus. Seus olhos estavam fixos no horizonte, quase não piscavam, e suas pernas cederam ligeiramente quando ela ouviu as duas batidas que precederam a abertura da porta.
– Apreciando a vista?
– É um pouco melhor à noite – ela respondeu mantendo-se de costas para o homem que se aproximava.
– Eu realmente não acredito que você fez isso.
– “Isso” o quê? Está falando da ânfora?
– Sim – ele parou de falar por alguns instantes, enquanto se aproximava do mini-bar – O que deu em você para ludibriar sua prima favorita?
– Ludibriar... – ela riu da sonoridade da palavra. – É apenas uma brincadeira entre nós. Antes de vocês dois se casarem ela me fez comprar uma espada chinesa nos arredores de Pequim. Jurou-me que pertencera a um nobre da Dinastia Ming.
– Jessica me contou essa história – foi a vez de ele rir, enquanto servia um copo – Disse que você acreditou nela e não sossegou até conseguir a tal espada...
– Falsa! Não valia nem trezentos dólares. Paguei uma quantia e tanto por um pedaço de metal barato.
– E por despeito você a está iludindo com a tal ânfora?
– Contratei um professor de história aposentado, o tipo perfeito para bancar o antiquário espanhol... Vai atestar a autenticidade e dizer que um vaso de barro queimado que encontrei na feira atrás do porto é um tesouro arqueológico da época da fundação da cidade.
– Então não foi por acaso que você não parou de falar nessa lenda de que os Fenícios fundaram Cádiz depois de fugir dos Persas?
– Reconheço que planejei isso há algum tempo – ela falou devagar, finalmente se virando e encarando-o.
– Julie, Julie, Julie... – ele a abraçou pela cintura – sua brincadeirinha com a minha mulher vai me custar caro!
– Ah é? – Julie sorriu, apoiando os braços sobre os ombros dele – Até onde eu sei, Jessica paga as próprias contas...
Ele fingiu um efêmero olhar de desagrado que se desfez quando seu rosto se aproximou do dela.
“Só mais uma coisa – continuou Julie. – A fundação de Cádiz pelos Fenícios não é uma lenda. É a mais pura verdade.
Quando o sol se pôs, a cama precisava ser feita novamente.
Ela acordou com uma voz amigável chamando seu nome. Seu ombro era sacudido por uma mão firme, porém carinhosa.
– Ahn?
– Julie, venha, eu te levo para a cama. Está tarde, você não vai conseguir ler mais coisa alguma.
– Só mais meia hora, Rob. Estou quase terminando – ela esfregou os olhos e expreguiçou-se demoradamente.
– Nada disso. Vamos!
Antes que Julie pudesse protestar, Robert a tomou nos braços, subiu as escadas e a levou até o quarto, pousando-a sobre a cama.
– Eu agüentaria mais um pouco – resmungou ela, sonolenta, se acomodando sob o cobertor.
– Eu sei. Agora trate de repousar, está bem?
– Aham... – a voz dela denunciava que estava prestes a adormecer.
Robert ainda beijou-lhe a testa antes de puxar-lhe o cobertor até os ombros e deixar o quarto sem fazer barulho. Passava de 5 horas da manhã...
Começava a anoitecer quando Robert entrou no escritório de Julie, trazendo algumas informações sobre um aurífice austríaco que poderia ser a pessoa que a equipe vinha procurando há alguns dias.
– Você deu detalhes do caso a ele?
– Claro que não, Julie.
– Então o que o leva a crer que ele pode fazer o trabalho?
– Me fiz passar por colecionador – explicou Robert. – Negociamos por e-mail, ele disse que poderia reproduzir qualquer peça.
– Qualquer uma? Até mesmo as-
– Imagino que sim.
– Continue negociando com ele – os olhos de Julie brilharam. – mas não peça nada, ainda. Creio que terei de chamar o Caio mais cedo, desta vez.
– Caio? O que tem em mente, Julie?
– Temos de nos assegurar da confiabilidade do tal aurífice. Muito dinheiro terá de ser empregado nessas duplicatas. Não quero correr nenhum tipo de risco.
– Compreendo. E quanto ao resto do trabalho?
– Continuo pesquisando – Julie apontou para as anotações sobre a mesa – mas acredito que já estudei o suficiente sobre o herdeiro dos Sforza e dos Visconti. De qualquer forma, nosso principal objetivo não é descobrir os motivos do crime e nem a identidade do assassino.
– Sei...
– Também tenho refletido sobre o melhor modo de nos aproximarmos do empresário. Busquei um furo ou coisa assim em suas empresas, e embora os tenha encontrado, não consigo pensar numa forma nos utilizarmos disso...
– Não procure demais, Julie. Receio que você acabará encontrando muito mais do que gostaria embaixo do tapete desse Vittorini.
– Me consiga as réplicas, Rob – ela se levantou, caminhando em direção a porta. – Do atual proprietário das verdadeiras, cuido eu!
N/A 2: capítulo sem betagem, sinto muito, mas não quis esperar. Alguém conhece uma beta-reader disponível?
N/A 3: quanto à lenda citada na lembrança com a qual Julie sonha no início do capítulo, é verdadeira. Cádiz foi fundada no século XII a.C. (há 3 mil e 200 anos, portanto) com o nome de Gades, pelo povo que hoje conhecemos como Fenícios. Gades é considerada por muitos historiadores “a primeira cidade do Ocidente”.
Sara Clarice Lacter.