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Fiction » Mystery » Julie Franklin e o Tesouro de Flávio Creto font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sara Lecter
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Mystery - Reviews: 26 - Published: 02-08-06 - Updated: 02-13-07 - Complete - id:2108272

Julie Franklin e o Tesouro de Flávio Creto


Prólogo

Felippo Maria ergueu-se como único senhor do Ducado de Milão em 1413. Irmão mais novo de Giovanni Maria – morto um ano antes – e herdeiro da mais poderosa família de toda a Lombardia, os Visconti, recuperou os domínios de seu pai. Entretanto...”

Ela flagrou-se que lia o mesmo parágrafo pela terceira vez por causa do nome daquela família. Visconti. Clark a entregara um ótimo estudo sobre a cidade de Milão nos séculos XV e XVI, no qual havia tantas citações a eles e aos seus sucessores – os Sforza – que sua mente fora levada à exaustão. Ou talvez fosse o excesso de trabalho. Ela estava trancada no escritório desde o início da tarde e há horas Vicenzo pedira permissão para se recolher.

“Francesco Sforza foi o homem de confiança do Duque de Milão e da Rainha de Nápoles, Joana I. Sua relação próxima com Felippo Maria Visconti permitiu que desposasse sua filha, Bianca Maria, no ano de 1441 e, com a morte do sogro em 1450, assumisse o Ducado.”

Esforçando-se para manter as pálpebras abertas, Julie fez uma pausa e bebeu o último gole do Capuccino que esfriara sobre a mesa. Suas costas estavam doendo, sua mente estava confusa, seus olhos estavam se fechando sozinhos. A única coisa na qual ela conseguia se concentrar com nitidez era a imagem da própria cama, no final do corredor do andar de cima.

Seus amigos deveriam estar dormindo há muito tempo e por alguns instantes ela se permitiu pensar neles. Clark a estava auxiliando com as pesquisas históricas, Jessica viera à Paris resolver problemas pessoais e se hospedara na Île Saint-Louis a convite da prima, e finalmente Robert, que já há alguns dias investigava aquele que poderia ser o próximo trabalho da equipe.

Só mais duas ou três páginas, forçou-se ela, mas sua mente não foi capaz de se manter acordada por mais de cinco segundos. Adormeceu ali mesmo, debruçada sobre a mesa do escritório.


Abriu os olhos. Estava diante de uma janela da qual podia ver o Oceano Atlântico. Há pouco se abrigara naquele quarto de hotel, evitando o calor que fazia em Cádiz – sudoeste da Espanha – àquela época do ano. A cama fora arrumada enquanto estava na rua, e um travesseiro extra fora colocado sobre ela.

A praia estava cheia de turistas e o sol demoraria algumas horas para se pôr. Suas mãos suavam apesar de no quarto fazer pouco mais de 20 graus. Seus olhos estavam fixos no horizonte, quase não piscavam, e suas pernas cederam ligeiramente quando ela ouviu as duas batidas que precederam a abertura da porta.

– Apreciando a vista?

– É um pouco melhor à noite – ela respondeu mantendo-se de costas para o homem que se aproximava.

– Eu realmente não acredito que você fez isso.

– “Isso” o quê? Está falando da ânfora?

– Sim – ele parou de falar por alguns instantes, enquanto se aproximava do mini-bar – O que deu em você para ludibriar sua prima favorita?

– Ludibriar... – ela riu da sonoridade da palavra. – É apenas uma brincadeira entre nós. Antes de vocês dois se casarem ela me fez comprar uma espada chinesa nos arredores de Pequim. Jurou-me que pertencera a um nobre da Dinastia Ming.

– Jessica me contou essa história – foi a vez de ele rir, enquanto servia um copo – Disse que você acreditou nela e não sossegou até conseguir a tal espada...

Falsa! Não valia nem trezentos dólares. Paguei uma quantia e tanto por um pedaço de metal barato.

– E por despeito você a está iludindo com a tal ânfora?

– Contratei um professor de história aposentado, o tipo perfeito para bancar o antiquário espanhol... Vai atestar a autenticidade e dizer que um vaso de barro queimado que encontrei na feira atrás do porto é um tesouro arqueológico da época da fundação da cidade.

– Então não foi por acaso que você não parou de falar nessa lenda de que os Fenícios fundaram Cádiz depois de fugir dos Persas?

– Reconheço que planejei isso há algum tempo – ela falou devagar, finalmente se virando e encarando-o.

– Julie, Julie, Julie... – ele a abraçou pela cintura – sua brincadeirinha com a minha mulher vai me custar caro!

– Ah é? – Julie sorriu, apoiando os braços sobre os ombros dele – Até onde eu sei, Jessica paga as próprias contas...

Ele fingiu um efêmero olhar de desagrado que se desfez quando seu rosto se aproximou do dela.

“Só mais uma coisa – continuou Julie. – A fundação de Cádiz pelos Fenícios não é uma lenda. É a mais pura verdade.

Quando o sol se pôs, a cama precisava ser feita novamente.


– Julie...? Julie...? Julie!?

Ela acordou com uma voz amigável chamando seu nome. Seu ombro era sacudido por uma mão firme, porém carinhosa.

– Ahn?

– Julie, venha, eu te levo para a cama. Está tarde, você não vai conseguir ler mais coisa alguma.

– Só mais meia hora, Rob. Estou quase terminando – ela esfregou os olhos e expreguiçou-se demoradamente.

– Nada disso. Vamos!

Antes que Julie pudesse protestar, Robert a tomou nos braços, subiu as escadas e a levou até o quarto, pousando-a sobre a cama.

– Eu agüentaria mais um pouco – resmungou ela, sonolenta, se acomodando sob o cobertor.

– Eu sei. Agora trate de repousar, está bem?

– Aham... – a voz dela denunciava que estava prestes a adormecer.

Robert ainda beijou-lhe a testa antes de puxar-lhe o cobertor até os ombros e deixar o quarto sem fazer barulho. Passava de 5 horas da manhã...


No dia seguinte, 9 de Janeiro de 2006, Julie só deixou o quarto para almoçar. Robert e Clark tinham algumas novidades sobre as quais falaram durante a refeição, enquanto Jessica permaneceu calada, à exemplo da prima. Durante a tarde, fria e nublada, todos ficaram em casa, temerosos, já que a neve do dia anterior provocara transtornos no centro de Paris.

Começava a anoitecer quando Robert entrou no escritório de Julie, trazendo algumas informações sobre um aurífice austríaco que poderia ser a pessoa que a equipe vinha procurando há alguns dias.

– Você deu detalhes do caso a ele?

– Claro que não, Julie.

– Então o que o leva a crer que ele pode fazer o trabalho?

– Me fiz passar por colecionador – explicou Robert. – Negociamos por e-mail, ele disse que poderia reproduzir qualquer peça.

– Qualquer uma? Até mesmo as-

– Imagino que sim.

– Continue negociando com ele – os olhos de Julie brilharam. – mas não peça nada, ainda. Creio que terei de chamar o Caio mais cedo, desta vez.

– Caio? O que tem em mente, Julie?

– Temos de nos assegurar da confiabilidade do tal aurífice. Muito dinheiro terá de ser empregado nessas duplicatas. Não quero correr nenhum tipo de risco.

– Compreendo. E quanto ao resto do trabalho?

– Continuo pesquisando – Julie apontou para as anotações sobre a mesa – mas acredito que já estudei o suficiente sobre o herdeiro dos Sforza e dos Visconti. De qualquer forma, nosso principal objetivo não é descobrir os motivos do crime e nem a identidade do assassino.

– Sei...

– Também tenho refletido sobre o melhor modo de nos aproximarmos do empresário. Busquei um furo ou coisa assim em suas empresas, e embora os tenha encontrado, não consigo pensar numa forma nos utilizarmos disso...

– Não procure demais, Julie. Receio que você acabará encontrando muito mais do que gostaria embaixo do tapete desse Vittorini.

– Me consiga as réplicas, Rob – ela se levantou, caminhando em direção a porta. – Do atual proprietário das verdadeiras, cuido eu!


Bianca Viviani Santi sorriu sem graça ao tropeçar na calçada. Estava sozinha, mas não pôde conter o instinto de olhar para trás e verificar se ninguém a vira. Aquela rua, nos subúrbios de Milão – norte da Itália – costumava ficar deserta depois das nove da noite, pelo menos no inverno. E fazia muito frio quando ela dobrou a esquina rumo a um beco escuro, segurando firmemente a bolsa Louis Vuitton e se praguejando por estar fazendo aquilo. Poderia estar a quilômetros daquela ruela suja e fétida, talvez bebendo um bom vinho com seu noivo em uma mansão alpina, ou quem sabe até andando descalça pelas areias quentes de alguma praia paradisíaca. Ainda deve ser dia no Caribe, pensou ela, caminhando apressada. Isso mesmo, Caribe! É para onde eu vou quando tudo isso terminar. Mas estava apenas começando quando uma pesada porta de metal se abriu, e a jovem italiana foi convidada a entrar...


Nota da Autora: apenas um prólogo. Sem pretensões de ser uma grande história e muito menos uma história grande.

N/A 2: capítulo sem betagem, sinto muito, mas não quis esperar. Alguém conhece uma beta-reader disponível?

N/A 3: quanto à lenda citada na lembrança com a qual Julie sonha no início do capítulo, é verdadeira. Cádiz foi fundada no século XII a.C. (há 3 mil e 200 anos, portanto) com o nome de Gades, pelo povo que hoje conhecemos como Fenícios. Gades é considerada por muitos historiadores “a primeira cidade do Ocidente”.

Sara Clarice Lacter.



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