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Julie Franklin e o Tesouro de Flávio Creto
Nota da Autora: tradicionalmente epílogos não têm título. Decidi não contrariar isso, mas se este tivesse, seria “O Começo da Vingança” – sei que é brega:P – quem sabe ainda use esse título em algum capítulo da terceira parte.
Alemanha, algumas semanas depois.
A sentença cumprida por Eric Jacob Hellfeld na Penitenciária de Frankfurt lhe dava direito a duas tardes por semana no pátio de convivência. Há cerca de um ano ele aproveitava essas ocasiões não apenas para tomar sol, mas também para conversar com um senhor de idade conhecido apenas pela alcunha de “Professor Tom”.
Thomas Walfried – pelo menos fora com essa identidade que a justiça alemã o condenara – estava preso há mais de dez anos e era a figura mais requisitada da prisão. Conhecia todos e todos o conheciam. Fora o único de quem Jack se aproximara nos anos de reclusão, por puro interesse, é verdade. Especialista em diversos tipo de crime, Tom mantinha o costume de passar adiante suas habilidades. Rezava a lenda na cadeia que ele era perfeitamente capaz de arquitetar diversos tipos eficientes de fuga e só não os punha em prática porque nada tinha a fazer fora daquele lugar. Não tinha família, perdera os amigos e tinha muito mais a ganhar com a possibilidade de conviver com outras mentes criminosas como a dele.
Se as prisões de todo o mundo eram conhecidas como cursos intensivos de ilicitude, Tom era o mais perfeito exemplo de monitor. Sua meticulosidade, no entanto, o impedia de ensinar qualquer um. Ele trocava informações por partidas de xadrez, gamão e pôquer. Caso perdesse, responderia qualquer pergunta. O problema, contudo, era que ele era muito bom. Um dia, entediado, desafiou o introspectivo Jack, encontrando finalmente adversário à altura. Nascia ali uma frutífera parceria.
Ciente de que conquistara a amizade do velho, Jack traçou com ele um plano que gestava sozinho desde que fora preso. Desde que fora, segundo ele, traído. Contou ao professor Tom detalhes pensadamente escolhidos de como criara uma equipe de gênios capaz de conseguir grandes quantias de dinheiro de maneira aparentemente legal. Tom se mostrara sinceramente surpreso com a engenhosidade do sistema e, ainda mais, com a forma simples com que Jack se deixara apanhar. Simples para ele, é claro, já que o plano da Interpol – em conjunto com a Scotland Yard – fora bastante inteligente.
– Estou cumprindo o final da minha pena, você sabe. – disse Jack, apagando o vigésimo cigarro daquela tarde e eliminando a segunda torre de Tom.
– Eu sei o que pretende. – Tom não tirou os olhos do tabuleiro e movimentou seu derradeiro cavalo.
– Não posso deixá-los com a impressão de que venceram.
– Estou falando do jogo, tenha paciência. Não deixarei que capture meu rei com um mísero peão.
– É mesmo? Cheque! – Jack anunciou, como era a praxe do jogo, a iminência de vencer.
– Hum. – Tom foi surpreendido. – Sabe, Jack, se você fosse tão bom nisso quanto é no xadrez, saberia o que fazer.
– Explique melhor. – ele viu o professor adiar a derrota movendo um dos bispos.
– A dama, meu jovem. Você a usa tão bem no tabuleiro...
– Continue. – Jack reposicionou a segunda peça mais importante do seu plantel. – Cheque, de novo!
Tom derrubou propositalmente o seu rei, o que no xadrez significa que estava encerrando a partida com derrota, e se levantou.
– Nosso tempo acabou.
– Não. Ainda temos quinze minutos.
– Apenas pense no que eu disse, filho. A vingança que planeja é apenas um meio de conseguir o que você realmente quer. Submeter a dama é um grande lance, mas a partida só acaba quando rola a cabeça do rei inimigo. Até sábado.
Daquela tarde até o dia em que foi solto, Jack praticamente não dormiu. Quando aspirou finalmente o ar da liberdade, sabia exatamente o que fazer.
FIM
precedida por Julie Franklin e o Mistério do Falso Conde
continua...
Sara Clarice Lecter!