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Fiction » Thriller » Faroeste Cabloco font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sora Seishin
Fiction Rated: T - Portuguese - Angst/Drama - Reviews: 6 - Published: 03-02-06 - Updated: 03-02-06 - Complete - id:2123897

Um fato. Dois homens. Dois pontos de vista.

Escrevi esse texto em 2001, como uma proposta de redação na escola, mas só agora me lembrei dele. A história é da música “Faroeste Caboclo” da Legião Urbana, e o meu texto conta os pontos de vista dos dois homens envolvidos.


FAROESTE CABOCLO – I

Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu

Já estava começando a me sentir tonto... Vi o sangue, quente, escorrendo pelas minhas mãos. Jeremias, aquele desgraçado, continuava a me encarar, com um sorriso irônico no rosto. O frio que eu sentia ficava cada vez maior. As bandeiras erguidas pelas pessoas presentes já não eram nada além de manchas coloridas. Como mesmo eu havia chegado até aqui, tão próximo do fim?

Ainda quando era criança, vi a morte do meu pai. Um tiro de soldado. Então o que eu iria fazer? Não tinha mais família nem para onde ir. Dinheiro para viver, eu conseguia na caixinha do altar da igreja. Meus sonhos eram ver o mar, viajar, conhecer tudo que eu via pela televisão. Mas o sol não nasce para pessoas como eu.

Com quinze anos, fui mandado para um reformatório. Um dos piores momentos da minha vida. Não conseguia entender como a vida funcionava, o porquê de tanta discriminação por causa de uma classe ou uma cor. Sentia-me sem rumo nesse mundo.

Sem conseguir achar as respostas que procurava, fui para Salvador. Com certeza, se não tivesse comprado essa passagem, minha vida não teria nenhum sentido. Lá encontrei um boiadeiro, que precisava ir a Brasília para visitar sua filha, mas ia perder a viagem e queria que eu fosse em seu lugar. Uma ótima oportunidade para um viajante sem rumo como eu.

Logo cheguei à linda cidade de Brasília e comecei a trabalhar como aprendiz de carpinteiro. Pensei que finalmente a minha vida estava se ajeitando, mas o dinheiro nunca era suficiente para mim.

Até que conheci Pablo na zona da cidade, um neto bastardo de meu bisavô, que morava na Bolívia. Como meu dinheiro não dava para me alimentar, e não podia mais esperar que as promessas dos políticos fossem cumpridas, comecei uma pequena plantação com sua ajuda.

Comecei a freqüentar muitas festas na cidade, me sentia bem, mas foi lá que conheci muita gente ruim também. Então cometi meu primeiro roubo, não tenho orgulho disso agora, mas na hora me achei muito poderoso por esse feito. Porém isso só me trouxe ao inferno, fui preso e humilhado, tratado como um animal. Meu coração ardia de vingança e ódio.

Foi então que conheci Maria Lúcia, uma linda menina. Eu a amava muito e de todos os meus pecados me arrependi. Queria casar com ela, ter filhos com ela, viver com ela para sempre. Voltei a ser um trabalhador honesto e lhe prometi o meu amor eterno.

Um dia um senhor de alta classe apareceu na porta de casa com uma proposta indecorosa, dizendo que esperava uma resposta. Mandei-o sair na hora. Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança. O velho me respondeu, com desprezo, que eu havia perdido minha vida. Infelizmente e contra minha vontade, mais tarde ele se provou correto.

Acabei me enterrando na bebida e quando fui voltar ao trabalho, já haviam colocado outro em meu lugar. Outra vez na rua, fui falar com o Pablo, que me arranjou um negócio em Planaltina. Lá conheci meu rival, o maldito Jeremias, que conseguiu acabar mais ainda com a minha vida. Pablo me trouxe então uma Winchester-22 para a minha própria proteção.

Mas eu só consegui pensar em Maria Lúcia, já estava em tempo da gente se casar. A saudade me trouxe de volta para casa, onde encontrei uma grande decepção. Maria Lúcia havia se casado com Jeremias e estava esperando um filho dele.

Tal era meu ódio que chamei o maldito para um duelo. Traição era uma coisa que não podia aceitar. Mataria Jeremias e aquela menina falsa para quem havia jurado o meu amor.

O duelo virou notícia na televisão. Quando cheguei ao lugar marcado, vi câmeras e o povo com bandeirinhas a aplaudir. E logo senti a sombra escura da morte. Um tiro me acertou por trás e senti o sangue quente na garganta. Jeremias, além de traidor, era um grande covarde.

Minha visão estava ficando cada vez mais fraca, mas ainda pude reconhecer Maria Lúcia no meio da multidão. Carregava a Winchester-22 e no mesmo instante jogou-a para mim. Dei cinco tiros naquele bandido traidor e derrubei a arma no chão. Senti-me cada vez mais pesado. Caí no chão, olhando Maria Lúcia se aproximar, chorando e pedindo perdão. Ainda não estava morto, mas estava próximo de me tornar só mais um nas estatísticas brasileiras. E, afinal, não havia cumprido o que queria quando vim para Brasília. Queria falar com o presidente para ajudar toda essa gente que só faz sofrer.



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