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Fiction » Thriller » Faroeste Cabloco font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sora Seishin
Fiction Rated: T - Portuguese - Angst/Drama - Reviews: 6 - Published: 03-02-06 - Updated: 03-02-06 - Complete - id:2123897

FAROESTE CABLOCO – II

Mas acontece que um tal de Jeremias
Traficante de renome apareceu por lá

Aplausos. Gritos. E sangue. Era esse o resultado de um duelo com João de Santo Cristo, o maior traficante depois de mim que já havia existido em Brasília. Agora eu já não estava tão forte quanto antes e só consegui sentir o sangue vazando do meu peito. Então era isso. Nós dois estávamos morrendo, por que só um de nós era considerado um herói? Não era justo. Mas justiça foi algo que nunca me ensinaram. A justiça eu sempre tive que fazer com as minhas próprias mãos.

Desde que era criança, já reinava naquela cidade. Não tinha família nem lugar para morar. Minha vida eram as ruas, onde aprendi tudo o que sei hoje. Eu queria ter estudado e tido uma vida honesta, mas não tinha a oportunidade para fazer tudo isso.

Na adolescência já havia sido mandado para o reformatório duas vezes. O pior lugar que se pode imaginar. Ao contrário do que o nome diz, aquilo não “reforma” uma pessoa. Só serviu para trazer mais ódio e violência à minha vida.

Saindo de um inferno, acabei conhecendo outro. Caí na sarjeta, rodeado de maconheiros. Sem comida e sem dinheiro para viver, me rendi a essa profissão e me dediquei inteiramente a ela. Eu sabia que não era legal. Mas eu também não tinha outra escolha.

Logo meu negócio começou a crescer. Sentia-me bem demais. Orgulhoso até. Era respeitado na cidade inteira. Podia sentir o cheiro do medo por onde eu passava. Polícia, civil ou traficante, ninguém tinha coragem de chegar perto de mim.

Até que surgiu a notícia de que estavam tentando roubar o meu posto. Era um tal de João de Santo Cristo, que se dizia o maior traficante de Brasília. Desgraçado! Eu não podia deixar isso passar tranqüilo. O maioral sempre foi e sempre seria eu. O Santo Cristo dizia que não tinha medo de ninguém, mas eu queria ver se ele continuaria a pensar assim depois que eu acabasse com a sua vida.

Fui acertar com o Santo Cristo em sua casa e encontrei uma garota, chorando, inconsolável. Ele estava para se casar com essa menina linda, chamada Maria Lúcia. Dizia que a amava, mas a havia abandonado e se mudado para Planaltina. O que eu podia fazer? Fui ajudar Maria Lúcia e nos apaixonamos à primeira vista. Tomei-a como esposa e tivemos um lindo filho.

Um mês depois, o bandido voltou, dizendo que ia me matar. Desafiou-me para um duelo. Ri dele quando me disse isso. Com certeza ele devia estar tremendo de medo.

Queria mostrar a todos o meu poder. Chamei a televisão e logo o lugar combinado encheu de gente, segurando bandeirinhas, torcendo e aplaudindo. Já tinha combinado tudo com um companheiro de confiança. Aquele duelo deveria ser bem curto.

Logo Santo Cristo chegou. Fiz um sinal para meu amigo, só uma vez seria fatal. Logo o sangue de João começou a escorrer e senti o delicioso sabor da vitória.

Sabor este, que, infelizmente, duraria pouco. Foi tudo muito rápido. Senti cinco balas atravessando meu corpo. Despenquei no chão de terra, sentindo muita dor. Mas não a dor dos tiros, e sim a amarga dor da derrota.

Ainda consegui ver Maria Lúcia correndo para o Santo Cristo, que derrubou sua arma. Depois de tudo que havia feito por ela, ainda assim me traíra. O povo gritava muito, mas eu não conseguia mais distinguir suas vozes. Então percebi que nunca consegui construir uma vida para mim. Sempre me achei um rei, e agora sabia que nunca havia passado de um simples plebeu. Agora iria morrer e talvez nunca mais alguém fosse se lembrar do meu nome. Olhei para João, ensangüentado, do meu lado. Pelo menos não perderia essa luta sozinho.



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