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Quando os humanos dizem mal da sua vida, costumam reclamar de levar uma vida de cão. Dando uma vista de olhos à minha longa vida, concluo que não devo ser o exemplo de cão a que se referem. Não que seja um cão com pedigree! Conheço bem esses cachorros, muitas das minhas companheiras eram cadelas com pedigree e posso confirmar que não sou desses, nem no feitio, nem na comida. Do mesmo modo, também não sou um cão de caixote do lixo. Em geral, não gosto de extremos, e o meu dono, meu companheiro de vida e de velhice assemelha-se a mim nesse aspecto. Tivemos sorte, eu e o velho Ricardo, ao termo-nos calhado um ao outro na rifa – ele devia ter ficado com um dos meus irmãos, mas por uma distracção do criador acabou por ficar comigo –. Duvido que haja por aí uma relação cão/dono tão boa como a nossa. Conheço as suas frases típicas, as suas reclamações, o seu feitio, os seus pontos de vista... Ele conhece todos os meus latidos, ganidos, manias, truques... e mesmo assim o velho Ricardo ainda arranja maneira de surpreender! Tudo começou na última Terça-feira à noite, num inocente jogo de cartas. Eram apenas o velho Ricardo, o mirrado Malaquias e o João Grande (o nome deste é que me causa confusão... dou-lhe no máximo um metro e cinquenta), três velhos amigos de infância sentados numa mesa de mogno em frente à lareira na ociosidade da terceira idade (ou será antes da quarta?). Todas as Terças-feiras se reúnem para uma sessão de jogos de cartas; qualquer dia acabam viciados num casino a serem depenados que nem uns patinhos. Mas onde ia eu? Ah, sim, o jogo de cartas que acabou com o João Grande a desistir do jogo, alegando estar cansado do mesmo. Cá entre nós, eu acho que ele estava era cansado de ser “lisado” pelos outros dois.
- Dados, então? – sugeriu o velho Ricardo, incentivado pela maré de sorte. Normalmente, ele é que é o depenado.
- Não – decidiu o perdedor, com uma pontada de amuo, a meu ver. Deviam começar a jogar a feijões, evitava ressentimentos. – Com o azar de hoje até o Boxer me vencia! – Aqui um pequeno à parte: o Boxer sou eu, apesar de ser um belo de um rafeiro tamanho médio. Nunca saberei o que passou na cabeça do velho Ricardo para me baptizar deste modo, é um dos raros mistérios que ele tem em relação a mim. E já agora, a afirmação do João Grande é totalmente falsa, já que sem dedos não tenho propriamente facilidade em segurar as cartas, quanto mais em jogá-las!
- Fazemos o quê, então? – Boa pergunta a do Malaquias. Eu cá vou continuar deitadinho ao pé da lareira, como tenho feito até agora. É um óptimo passatempo, acreditem. Quentinho e tudo!
- Novela das nove – gracejou o velho Ricardo. Os outros dois riram daquela piada seca e sequíssima, percebendo a alusão à Dona Celestina do andar de baixo. O velho Ricardo nunca foi muito bom com piadas mas, por uma razão qualquer, acha que o é! Quando era mais novo trabalhava numa pública como professor; tinha a vexatória mania de lançar para a turma as suas piadinhas secas e rir-se logo em seguida com uma gargalhada estrondosa. Uns ficavam quietos a olhar para ele e o seu riso acabava por esmorecer, outros forçavam o gargalhar falso e educado. Estes últimos são os que considero culpados de ainda hoje ele se considerar um grande comediante. Ah! E o Malaquias e o João Grande também, mas esses julgo que lhe acham mesmo graça.
- Não, a sério – pediu o Malaquias. – Lembro-me quando era jovem...
- Oh sócio! – interrompeu o João Grande, para meu gáudio, que não estava propriamente interessado em ouvir o outro discernir sobre a sua juventude. – Agora que falas nisso, que aconteceu com o cadáver?
- O cadáver? Ah, o cadáver... quantos anos já lá vão... nem sei se me lembro direito... Mas foi uma grande história, foi sim senhor! E um grande mistério. Um grande mistério.
Como é que não se lembra direito? Foi o ponto alto da vida dele! Duvido que tenha tido outra experiência qualquer mais próxima do empolgante que aquilo, velho hipócrita; queres é ouvir o velho Ricardo e o João Grande a pedincharem-te a história!... E é realmente isso que o João Grande faz enquanto o velho Ricardo dá umas cachimbadas.
- Bem, bem... já que insistem... vou fazer um esforço. Esta minha memória... coisa mais perra... – acedeu o exibicionista. – Era Verão, lembro-me, estávamos na festa do Santo protector da cidade. Devíamos ter uns 18, 19 anos...
- Íh!! Vocês ‘tão cheiinhos de açúcar! – gargalhou o Malaquias, observando Ricardo e João Grande, J.G., a devorarem rapidamente cada um sua fartura.
- Malaquias, sócio, vai p’ra casa – retorquiu o J.G.
- Yá, já passaste da tua conta – corrobou o Ricardo.
- Não. Olhem, ainda faço o quatro, vêm? Ainda faço o... Oh!
- Fazes tão bem que foste bater com o rabo no chão – resmungou Ricardo, ajudando-o a levantar-se. – Anda, que a gente leva-te a casa.
- Ná. Daqui não saio, nananinanão.
- Não podemos leva-lo contra vontade – atalhou o J.G. – A não ser que ele desmaie...
- Sugeres um martelo na cachola? – gracejou Ricardo, soltando logo em seguida uma gargalhada e sendo prontamente imitado por J.G. Malaquias olhava de um para outro, tentando perceber o engraçado “da coisa”.
- ‘Bora aos carrinhos de choque – decidiu o J.G. – Deixamo-lo aí, a cidade é pequena, toda a gente se conhece... não é por isso que se parte a ânfora.
- Isso, isso. Deixem-me a curtir a bebedeira, que coisa melhorzinha nã há! Nã, não há!
- Pois sim, sócio – ousou João Grande interromper o meu raciocínio. – Mas e depois? O que interessa é o depois!
-Depois... depois... – fingiu cismar o pançudo centro das atenções, enquanto o João Grande o observava avidamente e o velho Ricardo se mantinha ainda entretido com o cachimbo de madeira. – Ah, depois... uma confusão de cores e sons... Lembro-me da animação... de vaguear por aí... Ai esta memória, já não é o que era, só me recordo de estar na mata do Santuário, a vomitar de encontro a uma árvore com uma gigantesca dor de cabeça! Mas já lúcido.
Vêm isto? Ele mete-se nos copos e a árvore é que apanha com o vómito. Animais e plantas, sempre apanhamos com os restos dos humanos.
- E foi nessa altura... – incentivou o João Grande.
- E foi nessa altura que a encontrei.
- Mas que rai... Oh!?
- E ali estava ela, uma senhora jovem nos seus 40 anos, alta, loira, vestido de festa... – recordava saudosamente o Malaquias. Tinha uma expressão tão deliciada que me perguntei se por acaso não teria instintos sádicos...
- E nessa altura foste à polícia, não foi, sócio? – O típico João Grande. Sabem a cara daqueles putos a quem lhes dão o doce favorito quando não estão à espera? Tal e qual...
- Sim, claro que fui. A partir deste ponto as coisas estão muito mais nítidas na minha velha memória. Fugi dali a correr, desci a escadaria tão depressa que por cinco vezes ia caindo por ali abaixo embrulhado nos meus próprios pés, nestes mesmo que aqui vêm!
Haviam de ser outros...
– Quando finalmente cheguei à GNR, eles não queriam acreditar em mim, mandaram um agente verificar apenas por precaução, achavam que não passava tudo de alucinações de bêbado... Ah, mas não era não senhor! Haviam de ter visto a cara deles quando o agente confirmou a minha história! Uma pena ter deixado o telemóvel em casa, uma fotografia daquele momento...
- Quem era a senhora? – perguntou o velho Ricardo, saindo do seu próprio silêncio. Modéstias à parte, tinha de ser o meu dono a fazer finalmente uma pergunta decente.
- Oh, era a dona daquele hotel, como se chamava? Ai, esta minha memória... tenho o nome na ponta da língua... “O Retiro”, é isso! Era a Senhora Dona Josefina d’O Retiro.
- Pois sim, claro, mas ó sócio, quem a matou? – interveio ansiosamente o João Grande. Sou da opinião que ele podia ter sido mais feliz na vida se fosse menos impaciente. E vai logo perguntar quem a matou! A senhora pode ter-se suicidado, ou não? E quem garante que não foi um ataque cardíaco? Tem acontecido a muito boa gente... e a muitos bons cães. E o Malaquias ainda não disse de que morreu ela, apenas disse que encontrou o cadáver.
- Ah, isso... – sussurrou o Malaquias com um sorriso que considerei como sendo absolutamente sádico. – Julgava-se ser o marido.
Afinal sempre confirmou o assassinato... alto lá, julgava-se?
- Julgava-se? – Eu não digo que o velho Ricardo e eu nos entendemos perfeitamente?
- Sim, julgava-se. Tinha imensos motivos... herança, ciúme... parece que a respeitável senhora mantinha um amante... o marido afirmou não saber nada sobre esse assunto. Disse que a esposa era um exemplo de honestidade e fidelidade a seguir... Deve ter sido um rude golpe para ele.
- Ó sócio, o homem podia estar perfeitamente a mentir! Quantos não há por aí que são excelentes actores? Olha que eu, que tenho este gostinho por policiais, sei da coisa! Quando eles afirmam não saber da traição é porque sabem e há muito! Mas muito mesmo!
- Sim, talvez, mas parece que o homem tinha álibi...
- De que morreu ela? – interrompeu o velho Ricardo, atirando uma argola de fumo para o ar.
- Estrangulamento.
- Estrangulamento?! – repetiu o velho Ricardo, assumindo uma expressão de choque. – Morte terrível!
- Sim, sim... se não me falta a memória, a polícia concluiu que o assassino teria sido um homem devido à força de braços necessária para estrangular a mulher. Havia indícios de que ela se debatera, o que dificultaria o objectivo do assassino. Poucas mulheres teriam essa força de braços.
- Pobre senhora... – suspirou o velho Ricardo, perdido nas suas memórias. – O que deve ter sofrido...
- Aposto que foi o mordomo! – exclamou João Grande, naquela sua inteligência característica.
- O mordomo? – admirou-se Malaquias.
- Sim! Então, ó sócio, não vês que naqueles policiais que fazem o mordomo é que sempre o culpado?
- A Senhora Josefina não tinha mordomo – respondeu secamente Malaquias. Tenho de lhe fazer jus, ele é terrívelmente paciente com o João Grande e as suas manias de grande detective.
- Oh!
- Mas o que podíamos fazer – continuou o Malaquias, como se assaltado por uma grande ideia. – Era lançar hipóteses, detalhadas e verosímeis, sobre o que se passou realmente! Nunca se chegou a descobrir quem foi! Tanto o marido como o amante tinham álibis, e o filho... bem, esse também tinha, nessa noite tinha saído com um grupo de amigos. Sempre era qualquer coisa diferente do que jogar às cartas.
- E do que ver a novela das nove – atalhou o velho Ricardo, com mais uma estrondosa e muito característica gargalhada, interrompida pelo som da campainha e uma voz autoritária e feminina.
- Ricardo? Oh, Ricardo!, velho vizinho, abre-me lá porta, tu ou um dos teus amiguinhos que eu sei muito bem que estão todos aí dentro a fazer nenhum!
Já viram três velhotes a encolherem-se todos perante uma voz fina, esganiçada mas mesmo assim com o tom da autoridade bem latente? Bem, eu já e garanto-vos que é bem melhor que passar a tarde a ver “Os 101 Dálmatas” e “A Dama e o Vagabundo”, ainda para mais se depois ficam a olhar uns para os outros, a ver qual deles é o Sr. Coragem que vai abrir a porta... Eu explico, não quero que fiquem às aranhas, se é para ficarem com alguma coisa então que fiquem às pulgas... espera, perdi-me, onde é que ia? Ah, já sei, explicar o súbito ataque de medo que assolou os três velhotes. Isso tem apenas uma única explicação: a Dona Celestina do andar de baixo, a Raiz do Terror para os três pobres velhotes de coração frágil (ou talvez não assim tão frágil)! Básicamente, a distinta senhora é uma velhota com riscas, perdão, madeixas vermelhas e rosa choque pelo cabelo amarelado e rebelde – no ponto de vista dela. No meu ponto de vista pende mais para o desgrenhado –, trazendo três furos em cada orelha, um piercing na sobrancelha e outro no umbigo, uma tatuagem de uma enorme borboleta no fundo das costas – que com a flacidez e rugas que a pele foi ganhando com a idade parece-se agora mais com um sinal de STOP do que com uma borboleta –, trajando uma calças de cintura descida que salientam os actuais pneus na barriga e, no Verão, uns tops que, diga-se de passagem, não a favorecem em nada. Resumindo, a Dona Celestina é uma “respeitável idosa” com a mania que ainda é jovem. Juntando a esta triste figura, temos ainda o facto de a Dona Celestina ter sido em jovem uma daquelas raparigas muito dadas ao sexo oposto... ainda hoje acredita que é capaz de conseguir as mesmas vitórias do passado e os velhotes de todo o prédio encontram-se sempre receosos das suas “subtis” investidas. Pessoalmente, gosto dela. Tem sempre umas latas de biscoitos saborosos.
- Ricardo José!
O velho Ricardo suspirou e levantou-se, temeroso da triste prova que iria passar... Sim, eu sei que estou a dramatizar, mas a verdade é que me divirto com isto, os seres humanos são tão engraçados!
- Finalmente, meu velho preguiçoso! – guinchou a Dona Celestina. – Por momentos julguei que ia ter de chamar os bombeiros para arrombarem a porta.
- Acho que eles só fazem isso quando é com a nossa própria casa e não com a casa dos vizinhos – argumentou o velho Ricardo, ainda um pouco encolhido e batendo nervosamente com o cachimbo de encontro aos dentes.
- Oh! Eu tenho os meus métodos – retorquiu a senhora com um piscar de olhos. Recuso-me a pensar em que métodos estaria ela a falar. – Mas vamos deixar-nos de rodeios e ir logo ao que interessa que eu... Pelas energias positivas! Aquilo é um ecrã plasma!? Mas isso é de quando a minha avó era viva! Ó Ricardo, não me digas que estás assim tão atrasado, aquilo surgiu quando eu ainda usava fraldas!
- Lamento desmenti-la, mas penso que surgiu quando andava a finalizar o secundário...
- Pormenores, pormenores... – apressou-se a respondeu a Dona Celestina. – Como dizia, vamos ao que interessa! Imagina tu, Ricardo José, que cancelaram “Pétalas de Rosa” por causa de um acidente qualquer com umas pontes! Como se isso interessasse alguma coisa em comparação com o episódio de hoje do “Pétalas de Rosa”! Não concordas, Riri?
Riri? Não pude deixar de soltar um latido animado. Não fui o único! Uns risinhos abafados indicavam que o Malaquias e o João Grande reagiram da mesma maneira que a minha distinta pessoa – ou distinto canino – ao ouvirem soar o “Riri” com que a Dona Celestina baptizara o velho Ricardo.
- Com certeza, com certeza... suponho que “Pétalas de Rosa” seja a novela das nove? – inquiriu educadamente o velho Ricardo, esforçando por ignorar os risos dos companheiros e o rubor que lhe subira às faces envelhecidas. – Não vejo no que lhe posso ser útil...
- Ora, na companhia, mas é claro! Pelas energias positivas, em que foi que pensou, hein? – Nova piscadela de olhos atrevida acompanhada por um sorriso divertido. – Ou pensas que não sei que às Terças-feiras é a reunião “de família”? Fazem o quê, já agora? Jogam às cartas? Monopólio? Trivial? Ou lêem a Playboy?
- Costumamos jogar às cartas – murmurou Malaquias num fio de voz e parecendo realmente assustado com o facto de a senhora se ter instalado, com uma notável à vontade, note-se, no lugar à sua frente. – Mas hoje resolvemos resolver um crime.
Ele sempre foi muito bom a português, não haja dúvida... “Resolvemos resolver”? É o que eu chamo um verdadeiro achado!
- Um crime? A sério? – inquiriu a Dona Celestina, endireitando-se súbitamente e esbugalhando os olhos. Um mau sinal para o trio de enrugados. Ela não pretendia sair dali muito cedo.
- A sócia lembra-se daquele cadáver que o Malaquias encontrou na mata? O da Senhora Dona Josefina? – explicou o João Grande. – Pois é desse mesmo que estávamos a falar. Aqui o sócio Malaquias ia começar a narrar os factos apurados pela polícia. Com isso íamos fazer e apresentar as nossas sugestões uns aos outros.
- Iam? Ó meu João, iam e vamos! Falar no passado porquê, pelas energias positivas, se ainda o vamos fazer? – respondeu a Dona Celestina. – Começa lá então, Malaquias. Senta-te aqui, Riri! E tu, cachorro, está caladinho, sim?
Achei o último comentário tremendamente desnecessário. Eu sei que a senhora tem a mania do comando, mas eu estava calado, a dormitar com as orelhas espetadas para ouvir a conversa! E foi uma tremenda má educação tratar-me por “cachorro”.
- Muito bem, muito bem... esta minha memória... não sei se sou capaz de explicar tudo direitinho como realmente foi, a minha memória...
- Deixa-te de teatrinhos e vomita logo tudo! Fazemos assim, eu faço as perguntas e tu respondes, entendidos?
A Dona Celestina é realmente uma mulher muito impaciente.
- S...s...sim...
- A que horas morreu a mulher?
- Entre as onze e meia e a meia-noite.
- Suspeitos?
- Marido, amante e filho.
- Álibi?
- Têm todos. O marido estava a três quilómetros de distância a tratar de negócios, confirmado pelo empresário, o filho estava com um grupo de amigos, confirmado por quase todos eles – e eram cerca de 23 – e o amante encontrava-se em casa a olhar para o ar, confirmado pela mulher-a-dias que tinha direito a um quartinho na casa do patrão pelo contrato.
- Causa da morte?
- Penso que já a disse... mas a minha memória...
- Pelas energias positivas! É claro que se disseste eu ainda não estava cá, usa a cabeça, homem!
- Estrangulamento, sócia – apressou-se a esclarecer João Grande.
- Pelas energias, é obvio o que se passou. Quem a matou não foi nenhum dos suspeitos, foi a melhor amiga.
- A melhor amiga? A Carla? – admirou-se o velho Ricardo, tirando o cachimbo da boca por uns momentos. Admito que também fiquei aparvalhado. A Carla? Aquele nico de gente?
- Claro! É óbvio. A Carla estava apaixonada pelo marido da Josefina, e sabem como nós, mulheres, contamos tudo às nossas melhores amigas, pelo menos a minha melhor amiga contava-me tudo, antes de ter ido deste mundo e ser levada pelas energias.
- Ou pensas que ela te contava... – murmurou o Malaquias de forma a que só eu, com a minha audição muito mais apurada do que a de um simples ser humano, pudesse ouvir.
- Então, – continuou a Dona Celestina completamente a leste do comentário do Malaquias “da pouca memória” – a Carla sabia quase de certeza do amante da Josefina e como estava apaixonada pelo marido da amiga irritou-se por ela estar a prendê-lo pelo laço matrimonial quando, na opinião da Carla, não lhe dava o devido valor.
- E por causa disso matou-a? É isso que a sócia acha?
- Pensa um bocadinho, João Grande, e vê se eu não tenho razão. Daquela maneira ficava livre para avançar à conquista do marido da Josefina.
- Isso está tudo muito bem – interrompeu o Malaquias. – Mas asseguro-te que a Carla não tinha força suficiente para estrangular a Senhora Dona Josefina. A morta devia ter o dobro do peso da Carla, já para não falar do tamanho! Não, a Carla era demasiado miudinha para o fazer.
- Além disso, as mulheres preferem usar veneno – acrescentou o velho Ricardo. – É mais limpo, e sendo a Carla a melhor amiga da Dona Josefina, não lhe seria difícil faze-la tomar uma bebida com veneno de ratos.
- Talvez... – admitiu a Dona Celestina de má vontade. Cá por mim, acho que ela anda a ver novelas a mais, toda aquela intriga amorosa e de esquemas maquiavélicos que acabam em morte... Aposto que a pobre da Carla até sentia repulsa do marido da Dona Josefina! Sim, porque ele verdadeiramente repulsivo, só aqueles bigodes que se enchiam de pingas de vinho quando ia à caneca!
- Sócios! – exclamou o João Grande. – Já sei quem foi!
- Não venhas outra vez com a do mordomo – resmungou o Malaquias.
- Não, estive a pensar e agora acho que foi o filho!
- Tem álibi confirmado por 23 pessoas – contestou o velho Ricardo.
- Isso mesmo, sócio! Entre tantas pessoas, que já deviam estar bastante bebidas, como acontece nessas festas, era fácil um deles escapar-se por uns minutos e voltar sem que ninguém tenha dado pela sua falta!
- É uma hipótese – admitiu o Malaquias.
- Pelas energias, ele deve ter apanhado a mãe com o amante no momento da infidelidade e num acesso de raiva... – começou a fantasiar a Dona Celestina. Deviam-lhe proibir as novelas.
- O amante não saiu de casa a noite toda. Confirmado pela empregada – interrompeu o velho Ricardo num tom monótono.
- Bem, sócios, ouçam lá, então. E se o filho já soubesse há muito tempo do que se passava com a mãe? E tivesse guardado todo o rancor dentro de si com medo de destruir a família? Hein?
- É uma hipótese – concordou o Malaquias. Tão original que ele é nas suas concordâncias!
- E ouçam, ainda não acabei! Naquela noite, viu a mãe dirigir-se à mata. Pensou que ela ia ter com o amante... isso conjugado com o rancor que guardava dentro de si e o efeito do álcool... BOOM! Era uma vez uma Dona Josefina!
- Sim... – murmurou o Malaquias com ar pensativo. – Ele era bastante mais forte que a mãe... Poderia tê-lo feito, apesar de a adorar... Isso tudo conjugado...Mas a polícia deve ter pensado nessa hipótese. Devem ter investigado o caso a fundo.
- Talvez as energias positivas o tivessem protegido.
- Oh Dona Celestina! – exclamou o velho Ricardo.
- Oh o quê? Não acredita nas energias positivas?
- Sou ateu.
- E por isso é que tem aquele fogão automático velhíssimo? Actualize-se homem!
- O que é que o fogão tem a haver com o facto de o Ricardo ser ateu? – murmurou Malaquias para o João Grande.
- Bem, sócios – apressou-se a declarar o João Grande. – Parece-me que o segredo do homicídio da Senhora Dona Josefina vai continuar a ser isso mesmo: um segredo. Não podemos fazer muito mais do que lançar conjecturas do que terá acontecido.
É a esta parte do relato que eu, narrador canino, queria chegar. É de facto surpreendente o comportamento humano, mas, perdoem-me, estou a deixar-vos intrigados. Passarei imediatamente a explicar-vos e posso assegurar de que será uma narração sem falhas de memória, apesar de se ter passado tudo quando eu era um cachorrinho acabadinho de ser desmamado.
Como é óbvio num cão tão surpreendente como eu, adaptei-me rapidamente e sem problemas ao meu novo lar e gostei especialmente do velho Ricardo, que na altura não era velho nenhum mas sim um marmanjão na “flor da idade”. E é também óbvio que um cão libertino como eu aprendesse rapidamente que quando os seres bípedes diziam que “Não!”, “Cão mau!” e “ Não faças isso!” então é porque se está a fazer as coisas mais divertidas que um cachorro pode fazer. Neste contexto, não é de admirar que um cachorrinho de apartamento tivesse fugido de casa e se tivesse lançado à aventura de andar pelas ruas barulhentas, iluminas e de cheiro a fritos da festança anual da cidadezinha. Não tardei a encontrar o Ricardo, que naquela altura, lamento dize-lo, nem se apercebeu de mim no meio daquela barafunda de ruídos e humanos. Mas eu, eu sim, vi-o e segui-o quando ele foi para os carrinhos de choque com o João Grande, deixando o Malaquias sozinho na sua viagem pelo álcool.
Os carrinhos de choque, confesso, não são a minha diversão favorita. Olho para aquela miudagem toda e imagino-os na estrada, a guiarem um carro como guiam aquelas diversões... Não é de admirar a quantidade de companheiros meus que são atropelados nas estradas! E quando isso aconteceu a uma potencial namorada... uma cadela muito catita a quem eu estava de olho... Foi um choque muito profundo. Nunca mais me esqueci de olhar para ambos os lados antes de atravessar uma estrada, acreditem. Mas tudo isto para dizer o quê? Que o João Grande é um péssimo condutor? Por acaso até é, mas a intenção não era essa, o que eu queria dizer é que após umas voltinhas com o João Grande ao volante é registada uma tendência para ir aliviar, como dizer... A bexiga? Alçar a perna, como dizem os da minha raça. E isso aplica-se quer ao companheiro do lado quer ao próprio João Grande.
Segui um deles até à mata por puro instinto. Não sabia se era o João Grande ou o Ricardo porque a visão canina não é muito boa e o meu olfacto não estava nos melhores dias... andava com as narinas meio entupidas e aquele cheiro a fritos ocupava tudo o que conseguia cheirar... Mas tive a visão e audição suficientes para ver e ouvir o que se passou naquele sítio isolado. Quer fosse o Ricardo, quer fosse o João Grande, aquele humano não tinha ido ali para se aliviar! Tinha ido ali para um encontro previamente marcado, e pelos vistos um encontro que correu muito para o torto! Mal podia acreditar quando vi a Dona Josefina surgir por entre as árvores e beijar o rapaz... Mas fiquei muito mais incrédulo quando eles começaram a discutir... Ele estava a chantageá-la! E com uma quantia nada pequena! Permaneceram naquela discussão durante uns tempos, cada vez mais exaltados... Gosto de pensar que não foi um crime premeditado... que ele não a queria realmente matar, mas o facto, é que no calor do momento o fez... E quando se apercebeu do que fizera... Nunca ouvi nem nunca mais ouvirei um silêncio tão pesado e tão... silencioso como aquele.
E tão rápido como começou e aconteceu, acabou. O homicida voltou aos carrinhos de choque e ao amigo, fingindo que não se passara nada mais do que uma mijadela na mata. Eu fui a única testemunha. E sabia quem fora o assassino. Naquela altura na mata... durante aquela discussão... reconheci a voz... E é realmente surpreendente como o velho Ricardo consegue agir com tanta naturalidade quando os amigos debatem o crime que cometera há tantos anos, em sua casa e à frente dele. Como ele próprio participava nesse debate. João Grande tinha razão ao afirmar que a morte da Senhora Dona Josefina ficaria para sempre como um segredo. Quem poderia suspeitar do calmo e pacifico velho Ricardo? Quem poderia suspeitar que ele era o segundo amante da Senhora Dona Josefina, que ele a chantageara e que num impulso por ela lhe negar mais dinheiro a matara? Como única testemunha, nada posso dizer, e mesmo que pudesse... Gosto do velho Ricardo.
N/A: Esta história é dedicada a duas pessoas: à minha mãe, que me incentivou o "bichinho" dos policiais, e a Agatha Christie, a Rainha incontestavel dos romances policiais e dos misterios