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Fiction » Fable » O gato do mago font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: K - Portuguese - General - Reviews: 11 - Published: 04-14-06 - Updated: 04-14-06 - Complete - id:2153211

O gato do mago, por Elyon Somniare


Há muito tempo atrás, no tempo dos meus bisavôs e trisavós, existia um mago de tão grande arrogância que acreditava ter o poder de criar um ser vivo da máxima perfeição. Claro que pessoas como eu ou vocês sabem que tal coisa é uma idiotice, pois se a Natureza se recusou a tamanha atrocidade, como poderia o Homem atrever-se a tal? Mas o facto é que depois de muitas e muitas tentativas, o mago conseguiu criar do nada um ser, ou melhor, um gato de aparente perfeição. Contudo, a felicidade deste mago não durou muito, pois acontecia que no laboratório do mago trabalhava nas limpezas uma velha muito velha, que condoída de ver ali encarcerada tão perfeita criatura negra de olhos cor de ervilha, fez uma coisa muito feia e que não deve ser tomada como exemplo para ninguém: roubou o gato.

Durante bastante tempo o gato foi a luz dos olhos da velha e do marido, que nunca tinham visto na vida mais perfeita criatura, mas, com o passar dos anos, o homem começou a torcer o nariz à gula e preguiça do gato que era, com efeito, um grande lambareiro que apenas não tinha preguiça para assaltar a cozinha. Ora, um dia, o homem chegou a casa e encontrou a velha a soluçar, chorando o chouriço que o gato roubara e que seria o jantar. Encontrando ali o motivo para pôr o gato a voar pela janela, o homem pegou no cacete e o gato, ai o gato!, foi vê-lo a andar de rabanete! E desta primeira aventura do gato do mago só resta, nos dias de hoje, uma canção infantil um pouco incompleta e já com alguma fantasia. Por esse motivo, e por ser uma boa história, achei por bem narrar aqui as restantes aventuras, pois se um gato tem sete vidas, este gato tem sete pecados. Prossigamos então, que desses pecados surgiram as suas aventuras.

Nenhum gato com decência gosta de andar de rabanete, e este gato então muito menos! Não é pois de estranhar que na primeira oportunidade, o gato do mago se escapulisse da casa da velha e do marido para não mais voltar, dando assim a si mesmo a oportunidade de demonstrar o seu segundo e terceiro pecados: inveja e luxúria. Isto porque na casa da velha nunca uma gata lá entrara, já para não falar no laboratório, e quando o gato do mago se viu cá fora à descoberta do mundo, não pode deixar de ficar fascinado com uma bonita gata branca das redondezas. Isso foi um grande aborrecimento para a bela gatinha que, como uma respeitável gata de família, não viu com bons olhos felinos as investidas do gato do mago. Por sua vez, o gato do mago, no seu desejo de luxúria, sentiu nascer dentro de si a inveja, considerada por muitos o pior dos pecados por suscitar a pratica de demais pecados. E, de facto, assim foi. Movido pela inveja, o gato do mago fez o pecado sem perdão de assassinar o esposo da bela gatinha, que se viu depois vítima da luxúria do gato do mago.

A esta altura já terão dado conta do falhanço que o mago tivera nos seus intentos e que afortunado era por o nunca ter descoberto! Igualmente afortunada seria eu se pudesse dizer que as coisas ficavam por aqui, mas ai de mim! Não disse eu que eram sete vidas e sete pecados? Pois venham os outros três, que outra hipótese não tenho!

Só um gato muito estúpido se atreveria a ficar naquela cidade em que o conheciam depois da atrocidade cometida, e, tendo o gato do mago muitos defeitos, estupidez não tinha de certeza. Não é pois também de admirar que naquela mesma noite se tivesse feito à estrada, sem intenções de lá voltar, pois como já disse e volto a dizer, não era de modo algum um gato estúpido, e sabia muito bem a longa memória que os da sua raça detinham. Para dizer a verdade, não andou lá muito, pois era um gato preguiçoso, que só não o era quando lhe convinha não o ser. Em todo o caso, foi ao amanhecer que chegou perto de um riacho muito calmo e lisinho, tão liso que parecia um espelho. E, mais uma vez, o gato do mago demonstrou a sua imperfeição, porque, asseguro-vos, nunca vi ninguém a embebedar-se tanto com uma imagem como aquele gato se embebedou com o próprio reflexo. Nunca até então se tinha visto reflectido em parte alguma e, quando isso aconteceu, achou que nunca vira criatura mais perfeita (o que em parte até era verdade, porque, como já disse, o mago criou-o com aparente perfeição). Não tardou porém, que um bando de ratinhos do campo, muito brincalhões e insensatos, se rissem da figura do gato do mago, ou não o observassem já há várias horas, comentando entre si a parvoíce da sua soberba. E, mais uma vez, o gato do mago sentiu nascer dentro de si um novo sentimento: a ira. Ora, vocês e eu sabemos que gatos caçam ratos, mas também sabemos que o fazem quando o que querem é comer e não têm o quê, logo, era de esperar que o gato do mago, bem alimentado como estava com o chouriço roubado, os tivesse ignorado e seguido em frente – ou até mesmo tivesse continuado a admirar-se –, contudo, dominado pela ira, o gato do mago não tardou a tornar o riacho calmo e liso na testemunha da mais violenta chacina da história dos gatos e dos ratos, um episódio que ambas as partes vieram a lamentar mais tarde.

Mas, no episódio dos ratinhos, não se ficou por aqui a criatura de aparente perfeição! Já estando o mal feito, e satisfeito no estômago, como podia o gato do mago tirar partido da caçada? E, como a dar resposta à pergunta, surgiu na curva do caminho, magro e esfomeado, o gato Jeremias, um gato de bom coração mas de grande miséria, que vendo ali tal repasto suplicou ao gato do mago que lhe doasse um único ratinho para enganar a fome. Mas qual quê! Mergulhado naquela que era a sua avareza, o gato do mago recusou-se a bom recusar a separar-se daquilo que era seu e que, com efeito, não precisava. Ficou então provada a imperfeição daquele que era perfeito, e se sete vidas eram, sete pecados foram.


N/A: Uma short que escrevi paraum concurso de uma editora... ainda não sei os resultados mas o mais provavel é que tenha sido desclassificada: apesar de ter mandado por Correio Azul já tinha passado um dia da data estabelecida e não se me aceitam o trabalho. Bjs;P



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