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Keyra Thomas: O Assassínio do Sem Abrigo, por Elyon Somniare
Prólogo
Michael Smith.
Quantos se recordariam desse nome? Poucos. E desses poucos não eram raros os que todos os dias se esforçavam por enviar esse nome para a névoa da mente, deixando-o aí perdido, onde não poderia nunca mais ser encontrado. Mas o dono do nome, esse, não era assim tão fácil de esconder... Ou seria? Mais um mendigo nas ruas, mais um pedinte... Não, esperem, não era um mendigo nem um pedinte. Não mendigava, não pedia esmola. Era um sem abrigo. O mesmo que agora analisava a entrada do prédio e concluía que era um sítio para passar a noite como qualquer outro. Desde que interditaram a Subway pedonal, o melhor sitio da cidade para se passar a noite, que perdera o seu local de dormida fixa. Andava agora de rua em rua, dormindo onde calhava. Aquilo, claro, era devido ao terrorismo. Tinham medo que um bombista suicida se misturasse com os sem abrigos para entrar ali e explodir com aquilo tudo. Uma idiotice. Se eles o quisessem fazer, faziam-no de dia quando aquilo estivesse apinhado e a “coisa” tivesse mais impacto. Fanáticos exibicionistas! Pegou no cartão que iria ser o seu colchão naquela cama dura que era a rua e naquele quarto imenso que era a cidade
Há quanto tempo andava ele naquela vida? Já perdera a contagem dos dias... que interessava isso? Era sempre tudo tão igual... excepto com a temperatura! Mas essa, de tão inconstante que estava... Já não importava saber em que estação do ano se estava. Lembrava-se, porém, do dia em que abandonara tudo, mulher, filhas, dinheiro, casa e empresa, em troca da que era agora a sua nova vida... Um dia limitara-se a acordar e a dar-se conta de que aquela não era a vida de liberdade com que sempre sonhara. Não enquanto vivesse naquela sociedade e nas suas regras. A sua liberdade era apenas possível vivendo fora da sociedade. Os sem abrigos viviam à margem da sociedade. Mas estava ele disposto a largar tudo pela sua liberdade? Estava. E depois de verem falhar psicólogos e psiquiatras, a família não teve outra opção que não a de admitir que Michael fazia aquela escolha de sã consciência e livre vontade. Havia homens assim...
- Esse lugar é meu – disse uma voz rouca e com as características próprias das que eram poucas vezes usadas. Michael abriu os olhos e deparou-se com as calças puídas e velhas de outro sem abrigo. Sentou-se no seu cartão, observando a face suja e dura do outro, onde uma barba negra cheia de nós se misturava com um cabelo igualmente emaranhado e negro, mas onde eram já visíveis algumas brancas. Aquele não tivera qualquer escolha sobre ser ou não um sem abrigo.
- Esse lugar é meu – repetiu o homem, impaciente.
- Não me parece que tenha aqui alguma coisa que...
Não continuou. A face tornou-se lívida ao ver o interlocutor sacar de um punhal velho mas afiado.
- Esse lugar é meu – disse pela terceira vez.
E a vacina do tétano que não está em dia!, pensou Michael Smith.