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Martha, a minha adorada dona, fazia longas e demoradas festas no pelo de Rufus, o meu grande amigo labrador, enquanto eu me sentava, descansada, em frente à lareira e sentia o calor mergulhar-me naquele estado de dormência do qual, quase ninguém, me podia resgatar. Ao olhar para Rufus, sentado ali, no círculo do calor da luz, acariciado pela moça mais simpática da aldeia, de estômago cheio e com o pelo cheiroso, apercebi-me de que todos os provérbios são sinédoques; afinal, ser tratado “abaixo de cão” não me parecia nada mau, comparado com a maneira como Rufus era tratado.
Rufus era o cão mais popular que eu alguma vez conheci, nas minhas sete vidas de gato. O famoso labrador nunca crescera muito – talvez lhe tenha rogado uma praga, não me lembro – e o pelo branco dele era tão branco quanto os meus olhos são azuis. Martha sempre adorara o cão que os pais lhe haviam oferecido pouco antes de viajarem para o Ocidente, há mais de seis anos.
- Fifi?! Anda cá, bichana... – chamou Martha, aliciando-me com um novelo de lã rosa. Eu já não era propriamente uma cria para brincar com aquelas coisas, Martha sabia-o, mas não conseguia resistir quando ela o “guiava”, obrigando-me a saltar de um lado para o outro da sala.
Para que conste – e para não gerar confusões – o meu nome não é Fifi, mas sim Fiona, mas Martha sempre achou que “Fiona é um nome de humanos, não de uma gata linda como tu”... Realmente, o nome de Fifi é que não se adapta a mim! Sendo eu a gata aventureira que sou, não poderia ter um nome um pouco melhor do que ‘Fifi’?!
Lentamente estiquei as patas, levantando a minha linda, longa e peluda cauda branca, e encaminhei-me lentamente para junto da ruiva. À minha volta, o quarto mergulhado no calor das chamas da lareira, bailava com as sombras das velas cor-de-rosa espalhadas pelo quarto, numa dança monótona mas assustadora, como naquele dia em que Rufus ficou famoso.
- Rufus toma conta de mim! – declarou ela – esquecendo-se de mim, a pobre gata que sempre a protege! – mais certa do que imaginava.
A porta fechou-se com um breve ruído e Martha voltou à brincadeira que estava a ter com o pobre Rufus, que ainda era um cachorro, enquanto eu adormecia embalada pela caixa de música que tocava, longe, uma música lenta e triste.
Como um relâmpago num céu azul, rasgando as nuvens e gerando um rebuliço, alguém bateu à porta fortemente. Saltei, assustada, e Martha largou rapidamente a brincadeira, dirigindo-se para a porta. Tentei impedi-la, roçando-me nas suas pernas, mas a criança estava determinada.
- Calma, Fifi, é só a avó... Voltou atrás porque se esqueceu de alguma coisa – sossegou--me, parecendo confiante.
Desci as escadas ao lado dela, e “patinhas de lã” era uma coisa que não se podia aplicar ao barulho que eu fazia cada vez que dava um passo. O meu caminhar, usualmente calmo e elegante, mais parecia o marchar dos elefantes do circo, ao som do ribombar do meu pequeno coração. Dizem “faro de cão”, mas eu sei que o cheiro da pessoa por trás da porta não era da avó Joanne de certeza, era mais forte, sujo e muito agressivo.
- ‘Vó, de quê é que te esqueceste? – perguntou Martha, na inocência dos seus 10 anos, abrindo a porta.
A figura negra não respondeu, afastando com um braço forte a minha pobre Martha do caminho. Percebendo que algo estava errado, tentei, em vão, passar pelas altas pernas do homem na ombreira da porta; infelizmente, como “de noite nem todos os gatos são pardos” o homem viu-me e, bastando-lhe um passo, puxou-me pelo rabo – realmente, estes humanos; parece que não sabem o quanto custa manter o pelo limpo! – com as suas mãos imundas.
- Não vais a lado nenhum... Não hoje... – reclamou com forte hálito a álcool, atirando-me de volta para casa.
Dizem que “quem não tem cão caça com gato”, mas uma vez que o gato – ou seja, a minha pessoa – jazia no chão, depois de uma forte pancada, pelo que o cachorro teve de entrar em acção e, mais eficazmente que eu – “um olho no prato e outro no gato” ficou mais um olho no gato e outro na criança, pelo que faltava um olho para o cão –, escapou-se pela porta dois segundos antes de esta se fechar, sobre o peso das largas mãos do estranho.
Depois disso só sei o que se passou lá dentro, o resto foi o que compreendi dos latidos eufóricos de Rufus a quando da chegada da polícia.
O homem puxou Martha por um braço até à sala, onde a mandou sentar e manter-se calada. Martha anuiu em silêncio, os seus profundos olhos verdes enchendo-se de lágrimas que eu não podia limpar – porquê é que os gatos não têm polegares? – e o seu rosto sardento imobilizado de medo.
Caminhei, lentamente, até Martha e deixei-me cair, pesada, no seu colo. Em questão de segundos, em parte devido à pancada, adormeci.
- È isso mesmo, tenho a gaiata e daqui não saio sem o dinheiro do resgate! – gritou o bruto do humano, fazendo-me acordar sobressaltada. Se alguma vez ouviram dizer “não acordes o gato que dorme”, é melhor obedecerem, pois gatos como eu acordam extremamente mal-humorados!
Mal o sequestrador pousou o telefone e se voltou para trás, ouvi com os meus ouvidos apurados, o trinco da porta a abrir-se de mansinho. Saltei determinada do meu pouso, em direcção às pernas da figura negra que olhava para Martha com olhar ameaçador. As minhas belas garras enterraram-se-lhe na pele, rasgaram-lhe as calças e com um grito baixou-se, ficando de costas para a porta.
Olhei por momentos, vitoriosa, para o monstro que era aquele humano, antes de pousar o meu olhar felino nos salvadores de Martha. À frente, numa corrida surda, vinha Rufus, com a cauda a abanar; seguia-se-lhe um oficial da polícia com a arma apontada ao vulto negro no chão, onde o homem – se é que se pode chamar homem àquilo – gemia alto, e ainda os velhos cá de casa, “mais assustados do que um rato” – embora nunca tenha reparado que os ratos se assustem muito.
Dizem que “cão que ladra não morde”, mas Rufus havia alertado o polícia para o rapto de Martha com um latido e, ao chegar perto do raptor, cravou-lhe os caninos no braço direito – afinal o cão é inteligente! – fazendo-o ganir de dor.
O polícia – que é dono do meu amigo Charlie – tirou um par de algemas do bolso traseiro – e eu que pensava que os animais é que tinham traseiros! – algemando o criminoso.
Rufus ficou conhecido nesse preciso momento. No dia seguinte, juntamente com uma notícia da sentença do homem, vinha uma foto do labrador branco que havia salvo uma criança. Nesse dia chegaram vários presentes a casa de Martha, todos eles dirigidos a Rufus; o melhor havia sido, sem sombra de dúvida, a coleira azul que ainda hoje, o miúdo traz presa, acabando com o provérbio que “cão de raça não usa coleira”.