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Lola Vegas
Tédio, tédio, tédio.
Calor, calor, calor.
Essas eram as duas coisas que ocupavam a mente quase sempre ociosa de uma garota aparentemente diferente, talvez um pouco normal que alguns chamariam de insana enquanto outros classificariam simplesmente como excêntrica.
Do alto de seus 18 anos de vida e 176 centímetros de altura, Lola Vegas portava-se e era tratada como a dona do mundo. E talvez fosse mesmo, afinal, sua família figurava anualmente no Top Dez dos Mais Ricos – sem falar no Top Dez dos Mais Sofisticados, Top Dez dos Mais Bonitos e toda uma outra série de listas Top Dez – graças aos bem sucedidos e milionários negócios que possuíam. Os avós eram donos de uma das redes de hotéis mais luxuosas do mundo. A mãe fez carreira no mundo jurídico, tornando-se uma renomada advogada e aspirando a cargos políticos. O tio, gay assumido, tornou-se um famoso designer, cujas criações não custavam preços com menos de três ou quatro dígitos. E o pai... bem, o pai não era importante – não era como se ele estivesse realmente interessado em Lola.
Mãos macias com finos dedos longos e unhas cuidadosamente feitas – de modo que as “francesinhas” rosa-choque estivessem absolutamente perfeitas – pegaram o celular do mais moderno modelo (o qual, com certeza, seria trocado na semana seguinte quando outro surgisse) que tocava o ringtone da semana: Girl All The Bad Guys Want do Bowling For Soup, uma banda EMO norte-americana. Um par de olhos castanhos encarou a pequena tela iluminada pela cor laranja, observando o nome e o número de quem estava ligando: Max, 555-8989.
Max era a forma curta como todos – ou ao menos aqueles que tinha permissão – chamavam Maxime Smith, uma loira platinada com olhos verdes, quase tão rica quanto Lola e igualmente narcisista. Ela era a melhor amiga de Lola, provavelmente a única, por ser tão pirada quanto a outra.
– São 11:30 da droga da manhã, Max. Eu fui dormir há cinco horas atrás , estou de ressaca e os dois ecstasies que eu tomei na Moonblade começaram a me deixar depressiva.
– Lola, eu disse que apenas um ecstasy era suficiente, mas você me ouviu? Não! E é isso que você leva por não ouvir à sua mais sábia amiga. – a loira respondeu do outro lado da linha num tom de voz igualmente sonolento.
Na noite anterior, Lola e Maxime tinham ido à boate mais cara e popular da cidade. Não era raro ver as duas na Moonblade, elas eram VIP’s lá – entravam quando quisessem, bebiam quanto pudessem e tudo de graça. Na verdade, as únicas coisas pelas quais elas tinham de pagam eram as drogas que elas compravam de um cara chamado Skip Joe: ecstasy, maconha, cocaína e o qualquer outra coisa que estivesse na moda.
– Tanto faz. Por quê você me ligou?
– Porque eu tenho novidades.
– Não quero saber. – Lola disse em seu tom de voz grogue e ligeiramente rouco. Geralmente ela estaria interessada em falar mal de quem quer que fosse, pois era isso que Maxime sabia fazer melhor, mas seria difícil manter uma conversa no estado em que a Srta. Vegas se encontrava.
– Vou contar assim mesmo. A mais nova grávida do pedaço é Sara Davies.
– Você tem certeza? – Lola perguntou, surpresa.
– Sim. Minha mãe estava com a Sra. Hamilton há meia hora atrás na nova loja da Gucci e encontraram a mãe de Sara que deixou a pequena novidade escapar. Conhecendo a Sra. Hamilton todos saberão da notícia antes do fim da hora do almoço.
Talvez isso não soasse tão surpreendente para alguém que não conhecesse a doce, gentil, inocente e educada Sara Davies. Ela era o epítome da perfeição para a maioria das pessoas. O fato dela não ser a virgem que todos juravam que ela era e estar grávida aos 18 anos fariam com que ela fosse rebaixada da posição de “queridinha” à “ovelha negra” da sociedade numa pequena fração de tempo.
– E por quê eu deveria me importar? – questionou Lola.
Talvez fosse a ressaca, mas a atraente ruiva não tinha ficado tão feliz com a descoberta do verdadeiro caráter e estupidez de Sara quanto teria ficado se Maxime tivesse lhe contado isso antes de irem à uma festa.
– Porque o pai é ele! – Maxime exclamou, ajeitando as lisas madeixas loiras ao olhar-se no espelho retrovisor de seu Audi TT vermelho. Os grandes óculos escuros que ela usava para esconder as olheiras cobriam quase todo seu rosto sardento e artificialmente bronzeado.
Ele. Com apenas aquela palavra Lola pareceu acordar completamente e ficar atenta às palavras da amiga. Ela imediatamente soube de quem estavam falando, embora as duas nunca mencionassem seu nome na raras vezes em que falavam sobre ele.
Ele era Pietro Ambrust, um moreno atlético de 21 anos, estudante de administração, modelo ocasional e filhinho de papai em tempo integral, cujas paixões eram carros, esportes e bonés Von Dutch. Pietro era também o ex-namorado de Lola e o único que tinha feito a ruiva pensar em algo mais. Até ele resolver partir para novas aventuras três meses antes. Sem ela.
Verdade seja dita Lola não era do tipo de se importar em ser largada, ela sabia que sempre iria encontrar algo melhor, mas depois daqueles sete meses com Pietro ela duvidava que encontraria algo mais perfeito.
– Sara transou com ele?
– E engravidou nos três meses em que saíram juntos!
– Eu não sabia...
– Você não soube do ataque de ciúmes que ela teve no jantar do aniversário de casamento dos pais dele no fim de semana passado?
– Eu não fui àquele jantar! – Lola respondeu, lembrando porque não tinha ido.
Na noite anterior à celebração Pietro a convidara para irem a uma festa, onde ficaram completamente doidões até altas horas da manhã antes de irem para o apartamento dele e passarem o resto do dia na cama – não necessariamente dormindo. Os dois combinaram de se encontrar após o tal jantar, mas ele nunca apareceu.
Ficou claro porque Pietro não voltara após o jantar. Sara com certeza deveria ter ficado possessa com o atraso dele e deveria ter contado da gravidez. Lola conhecia todas as histórias, qualidades e defeitos de Pietro; ele certamente teria lhe falado do bebê se soubesse. Os dois até falaram em reatar o namoro.
Num impulso, Lola despediu-se de Maxime e discou a combinação de números que era o telefone de Pietro: 555-0104. No primeiro ela sentia-se totalmente segura do que estava fazendo. No segundo toque ela ainda não sabia muito bem o que iria dizer. No terceiro toque ela quase desistiu, mas isso não era de seu feitio – sem falar que foi naquele instante em que atenderam a chamada.
– Alô? – disse não a voz sensual e grossa do jovem Ambrust, mas sim a voz fina e melodiosa que ela sabia ser de Sara Davies. – Lola? – ela perguntou quando não ouviu nenhuma resposta. Por um milésimo de segundo a ruiva se perguntou como Sara sabia que era ela, mas logo em seguida ocorreu-lhe que ela havia checado o identificador de chamadas.
– Sara! Hum... posso... falar com Pietro?
– Sobre o quê? – a outra perguntou, embora aquela não fosse a hora de ter ataques de ciúmes.
– É particular para falar a verdade.
– Você já sabe que eu estou grávida?
– Ah... sim. Parabéns. Pietro deve ter ficado muito... surpreso.
– Definitivamente. Ele foi tão bom para mim...
– Pensando bem, eu ligo outra hora... – Lola a interrompeu.
– Lola, ele não é o pai! – Sara exclamou repentinamente evitando que a outra desligasse o celular.
– O quê?
– Ele só disse que é!
– Mas, a sua mãe... – ela começou, mas não continuou.
– Disse que ele é o pai, não?
– Disse à mãe de Maxime e à Sra. Hamilton e a quem mais quisesse ouvir ou não! – Lola concordou e então fez uma pausa – Mas... então, quem é o pai?
– O irmão de Pietro. Eu sabia que Marco era casado quando nos envolvemos, mas as coisas saíram do controle, então Pietro e eu fingimos estar juntos para despistar os outros enquanto Marco se divorcia. Pietro não lhe contou porque seu irmão fez com que ele jurasse não contar a ninguém.
Marco Ambrust de trinta anos era o oposto de seu irmão caçula: loiro de olhos mel, responsável e confiável. Ele tinha se casado três anos antes, mais por conveniência do que qualquer outra coisa, mas ainda assim o envolvimento dele com a jovem Davies seria mal visto quando revelado – seria o assunto mais comentado por pelos menos uma semana toda.
– Isso não faz sentido! Por quê você está me contando tudo? Eu achava que você não gostasse de mim. – Lola confessou.
– Nós não somos melhores amigas ou mesmo amigas, mas sei que Pietro gosta de você e eu só quero vê-lo feliz.
– Ele gosta de mim? – as palavras escaparam dos lábios rosados de Lola antes que ela pudesse conte-las.
– E como! Ele nunca teria terminado com você há três meses se não fosse toda a confusão entre Marco e eu. No jantar dos pais deles eu não estava com ciúmes de Pietro, porque sabia que ele estava com você; eu discuti com ele para manter o ato. Ele pode não admitir, mas ele ama você. – Sara afirmou como quem dizia a coisa mais óbvia do mundo.
Lola sentiu seus lábios curvarem-se num sorriso contente e satisfeito; um sorriso como há tempos ela não sorria. Ela ouviu Sara se despedir como se fosse algo distante e um breve silêncio antes de outra pessoa falar.
– Oi, Loly. Tudo bem? – Pietro perguntou suavemente.
E foi naquele momento que tudo pareceu voltar a ser tão perfeito quanto tinha sido há três meses atrás. Ela sabia que era apenas uma questão de tempo antes de ter Pietro Ambrust, o homem que ela amava quase tanto amava a si mesma, de volta a seu lado.
– Melhor agora.
¬ A música mencionada é Girl All The Bad Guys Want da banda Bowling For Soup, a qual realmente é americana, mas não tem nada de emo.
¬ O estilo de Maxime é uma referência à personagem principal do filme Legalmente Loira (2001).
¬ Os números de telefone mencionados não existem.