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Fiction » Thriller » Assassinato meio ao contrário font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: gabrory
Fiction Rated: T - Portuguese - Suspense/Adventure - Reviews: 2 - Published: 05-07-06 - Updated: 05-07-06 - id:2169115

Assassinato (meio) ao contrário

E então descobriu-se que o assassino era o mordomo. Já era o centésimo décimo quarto dia de investigações, o delegado estava prestes a optar por arquivar o processo, e eis que James, o mordomo, aparece na delegacia para confessar a autoria do crime.

No momento do depoimento, o delegado mal podia disfarçar seu alívio por poder finalmente desvendar o segredo do caso. Ele já nem se mostrava mais interessado nas descrições pormenorizadas do assassinato que James insistia em dar. Após tanta dor de cabeça, tanta reconstituição mirabolante e tantos depoimentos vazios, parecia óbvio que o assassino fosse mesmo o mordomo. E era perfeitamente deduzível a maneira como o golpe tinha sido desferido. James tinha acesso a todas as dependências da casa. Era perfeito.

Talvez para fugir dos clichês dos livros e filmes de suspense, a polícia nem sequer desconfiara que o mordomo, um velho senhor de cabelos brancos e andar curvado, pudesse ter asassinado seu patrão a golpes de machado. Mas era essa a realidade, e o delegado encarregado das investigações estava exultante.

James só decidira confessar o crime porque, quando cometera o assassinato, seu objetivo era o de fazer com que os demais habitantes da casa percebessem a sua existência. Como todo assassino cruel e inconseqüente, James agira com a intenção de ser descoberto. Só que ele nem imaginava que sequer seria incluído no rol de suspeitos do crime. Quando ficou sabendo pela filha do ex-patrão que o processo corria o risco de ser suspenso por falta de suspeitos e provas, James correu à delegacia para prestar seu depoimento. Afinal, de que adiantava matar se ele não fosse ganhar o reconhecimento pela morte que realizara?

O crime tinha sido considerado perfeito. Tanto que ninguém desconfiara de sua autoria até então. James conhecia bem os hábitos de seu patrão, e sabia exatamente em que lugar da casa ele estaria em toda e qualquer hora. Assim, foi muito simples pegá-lo no momento em que chegava em casa, ainda na rua, após o trabalho. A idéia do machado tinha sido inspirada num filme que passara na sessão da tarde alguns dias antes. Brilhante idéia. Simples, efetiva. James já tinha que usar luvas para o cargo de mordomo de qualquer jeito, tudo o que ele teve de fazer após desferir o golpe foi providenciar uma maneira de se livrar das evidências impressas na luva, o que fora bastante fácil: ele simplesmente mandara sua roupa completa para a lavanderia no dia seguinte, como sempre fazia. Como o machado era usado semanalmente pelo jardineiro da casa, a polícia permaneceu pelo menos 6 meses perseguindo o rapaz, o que deu um prazo suficiente para James se convencer de que não se arrependia do crime. Sim, tinha valido a pena. Ao menos agora, sem as ordens severas do patrão, os demais habitantes da casa haviam percebido a sua existência.

A morte fora planejada durante pelo menos 20 dos 40 anos de servidão incondicional de James à família Moura da Matta. Não é que ele recebesse algum tratamento indevido ou tivesse que trabalhar demais, o problema era que, para a família, James simplesmente não existia. Ele sentia que sua função, embora útil, não era valorizada. Ele nunca recebia sequer um sorriso de satisfação por parte dos moradores da casa. E seu patrão, o senhor Rubim, era um caso à parte. Magnata das telecomunicações, Rubim era um capitalista típico, daqueles que têm um bigodinho impecável na cara, fumam charuto, e são completamente insensíveis para com assuntos que não digam respeito ao mundo dos negócios. James detestava o olhar de seu patrão, que enxergava a todos como se visse o mundo de cima, de um patamar exclusivo onde só ele pudesse estar. Até sua esposa era tratada com desprezo.

Os planos para o assassinato intensificaram-se após a demissão de Rita, a cozinheira mais velha da casa, após ter deixado cair um fio de cabelo na comida. James irritou-se tanto pela demissão por motivo fútil que tomou as dores da colega de trabalho. Assim como James, Rita também vivia na casa, nas dependências de empregados. Eles eram vizinhos de quartos, e, embora não conversassem muito (durante as horas de trabalho, era proibido falar, a menos que se fosse solicitado), James sentia um carinho especial por Rita, pois era ela a única pessoa contratada mais ou menos na mesma época que ele. Os demais empregados eram todos mais recentes, coisa de 10 anos ou menos. Rita trabalhava para a família há pelo menos 30 anos.

Na mesma época, o jardineiro tinha se desentendido com a família após uma tentativa frustrada de manter relações sexuais com a filha mais nova do senhor Rubim. Embora estivesse claro para todos que fora a menina quem provocara o rapaz, a família tentou manter as aparências não só através da demissão do rapaz, mas também mediante a implantação de um processo de abuso contra o empregado.

Obviamente que a jovem também se revoltou com a família, pois no fundo gostava do rapaz, e gostaria de tê-lo sempre por perto para satisfazer seus desejos adolescentes mais nefastos.

Paralelo a isso, pouco tempo antes, o senhor Rubim havia se envolvido num processo contra uma empresa de telecomunicações da Itália, com representações no Brasil. A empresa tinha manifestado publicamente o interesse em adquirir um provedor de Internet em São Paulo, mas Rubim tinha sido mais rápido e fechara o contrato por meios escusos. O grupo italiano, descontente, havia decidido mover uma gigantesca ação contra a empresa de Rubim, não só acusando-o de violar o contrato de preferência, como também acusando-o de inúmeras outras irregularidades que supostamente estariam acontecendo em sua empresa por conta da má gestão de seu proprietário.

Como se não bastasse, nem mesmo um mês antes disso havia sido divulgado pelas colunas sociais um romance que Rubim mantinha secretamente com uma cabeleireira de um bairro de classe média numa cidade do interior. A esposa de Rubim estava furiosa, bem como a família da cabeleireira, que acusava Rubim de tê-la deixado desamparada e sem dinheiro, depois do tanto que ela tinha investido para estar com ele. A cabeleireira também estava com raiva, e já tinha se envolvido numa briga de proporções homéricas com a esposa de Rubim.

Com tudo isso, quem iria imaginar que seria logo o mordomo quem iria se revoltar, pegar um machado e matar seu patrão tarde da noite com uma machadada?



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