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O Menino que nasceu na Guerra, por Elyon Somniare
- Mãe, porque nasci aqui?
Estranha pergunta, esta, a do menino. Mas, de facto, porque nascera ele ali? Não deveria ter tido o direito de nascer num outro lugar? Num lugar de vida?
E, tanto tempo depois da pergunta que ficara sem resposta, continuava a não se poder dizer que aquele sítio fosse bonito. Talvez tivesse sido, um dia, há muito tempo atrás. Antes de ele ter nascido. Antes de ele ter perguntado. Mas agora... pouco restava dessa provável beleza. Era uma tendência muito peculiar, essa, a que o Homem tinha de destruir o belo... Mas, ao todo, afinal, o que era o belo? Ele não sabia. Nascera já naquela terra cinzenta e fria. Crescera nela. Vivera nela. Nada mais sabia para além do que a Guerra, essa ferida aberta, lhe ensinara. E que lhe ensinara Ela? Tanta coisa... Tanta dor... Tanto desespero... Não se podia dizer que aprendera pouco. Mas aprendera o quê? Nada mais sabia do que o mau. E o que era o mau? Como podia saber o que era o mau se não sabia nada sobre o bom? O que era o bom?
- Mãe, porque nasci aqui?
Os gritos soaram. O pânico tomou o lugar do receio. Novo ataque; novas mortes. Para onde ir? Estava sozinho. Sem pai; sem mãe. Sem irmão; sem irmã. Todos pela Guerra levados. Ficara ele. Para quê? Para assim continuar a viver... Mas o que era viver? Correr e esconder-se? Sobreviver e matar? Ferir e magoar? Como poderia saber o que era a vida se apenas via morte? Se apenas conhecia aquela devassidão que o rodeava desde a exacta altura em que soltara o primeiro berro neste Mundo que era o seu?
Na guerra, um menino,
O menino nascera na guerra...
O menino viveu na guerra!
E só conhecia as palavras matar,
Maldade, egoísmo, ferir, magoar...
As botas dos soldados batiam, pesadas, de encontro ao chão, fazendo levantar a poeira daquela cidade morta. Escondido nos escombros o menino observava o que se passava em seu redor. O ruído daquelas coisas, que diziam ser bombas, assustava-o. O instrumento em si aterrorizava-o, ou não já tivesse visto casas e outras construções de grande porte a desmoronarem-se como se de areia se tratassem ao serem atingidas.
O menino encolheu-se ainda mais. A perda voltara a rodeá-lo; quantos mais homens não a sentiriam? Mas ele nada mais conhecia do que aquela realidade que era a sua. Já não lhe doía. A outros, talvez, mas não a ele que já tudo perdera e nada mais do que aquilo conhecera. E, no silêncio que se seguiu ao ataque (os outros soldados, os soldados da frente inimiga, não podiam esperar, era necessário levar a Guerra para outros lugares), o menino começou a pensar “Não há mais nada além disto? Não há nada diferente do que eu sei?”, pois parecia-lhe tão estranho que num Mundo que diziam ser tão grande, e num Homem que diziam ser tão racional, nada mais houvesse que não fosse a Guerra...
E quando passa um batalhão, soldados dos seus, nervosos, agitados, preocupados com a defesa do próximo ataque inimigo (mas quem era o inimigo?) e com a batalha que eventualmente travariam, o menino sai dos escombros, o menino sai do esconderijo, e pergunta:
- Não há nada diferente do que eu sei? Não existem palavras diferentes das que eu sei?
E perguntava aos homens:
- Não há outras palavras,
Diferentes das que eu sei,
Que signifiquem
O que ainda não encontrei?
Mas os homens limitaram-se a olhá-lo e a seguir o seu caminho. Que criança era aquela, com tão estranhas perguntas? Que criança era aquela, que ao invés de refúgio, buscava respostas? Porquê e para quê pensar durante a Guerra, quando havia tanto para fazer e tantos seres para matar?
E o menino ficou sem a resposta saber. Porque teriam eles tanta pressa, que não o pudessem esclarecer? Pois, afinal, não estava o menino com a curiosidade que das crianças é típica? Pois, afinal, não custava pouco uma simples palavrinha?
- Por favor, não nada diferente do que aquilo que eu sei?
Mas ninguém lhe respondia, ocupados como estavam, naquela vida que não era vida, que não era nada. Naquela vida que lhes fora dada – por quem? – pela Guerra, pela dor, pelo medo...
Mas os homens não o ouviam
Com a pressa de ir matar!
E o menino pensava:
- Terão eles assim tanta pressa,
Que não me possam escutar?
Ou ensinar-me aquilo
Que eu ando a procurar?
Passaram dias, surgiram semanas, correram meses. E o menino crescia, sem esclarecido ser. Sem resposta a uma pergunta ter. Saíra do lugar onde nascera – que lhe restava lá? – e percorrera toda a terra em violenta guerra, procurando por aquilo que era diferente do que sabia. Mas ninguém o ouvia, demasiado ocupados em ouvir a Guerra. Que interessava se houvesse algo diferente do que conheciam? Para eles nada mais havia. Ferir o outro para viver o eu. Sobrevivência. Instinto animal. Instinto humano. Qual a diferença?
Já não sabia, o menino, a quem perguntar, quando viu, um dia, numa esquina, sentado, sem perna, óculos escuros, veterano de guerra, antigo combatente. Já nada lhe restava, a não ser a si mesmo, que outro homem, pois, poderia saber se havia algo diferente do que sabia o menino?
- Senhor, por favor, não há nada diferente daquilo que eu sei?
O soldado vitimado olhou-o, de expressão escondida nos óculos.
- Amor e Fraternidade. Viver em paz e comunidade. Ser respeitado e respeitar o outro como a nós mesmos. Nunca ouvistes estas palavras?
Mas um dia – finalmente,
Um homem ouviu o menino
E perguntou-lhe:
- Sabes o que quer dizer,
Amor e Fraternidade?
Foi a vez de o menino o olhar admirado. Que palavras eram aquelas? Que estranhos sons eram aqueles que lhe ensinava o estranho homem sentado na calçada? Seria aquilo que tão intensamente procurara? Seria aquilo que nenhum homem, servo e escravo da Guerra, sabia ou conhecia? Eram aquelas as palavras que tantos ignoravam? Era aquilo que havia para além do que o menino sabia?
- Só isso? – perguntou o menino, sem saber se o que o inundava era felicidade, infelicidade ou um simples cansaço de viagem. Não se podia dizer que tivesse andado pouco.
- Só? Estas palavras são aquilo que sempre procuraste. Achas que são “só”?
- E onde ficam? Vivem longe?
- Não. – respondeu o veterano de guerra, pousando-lhe a mão no coração. – Vivem aqui.
E o menino: - Não conheço –
Sem saber que aquelas palavras
Eram as que ele
Sempre quisera encontrar.
Não só dedicada à minha mãe, como feita PARA a minha mãe, que faz amanhã, dia 19de Maio, anos! É o presente de aniversário. Para quem achar estranho um presente baseado num tema tão medonho que é a Guerra, opoemaem volta do qual se desenrola a historia foi escrito por ela (mãe) quando tinha mais ou menos a minha idade, achei mais engraçadoe mais pessoal assim. PARABÉNS MÃE! Bjs;P