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Fiction » Essay » De Coração font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: esmalte
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Drama/General - Reviews: 1 - Published: 06-14-06 - Updated: 06-14-06 - Complete - id:2192547

De Coração.

Era um daqueles dias quentes de verão, do tipo em que se vive momentos inesquecíveis que se tornam doces memórias alguns anos mais tarde. Era um daqueles dias ensolarados de verão que faziam qualquer pessoa acreditar que valia a pena viver, que nada ruim poderia acontecer. Era ilusão. Não demorou para que uma jovem mãe tivesse a sensação de que seu bem mais precioso pudesse ser tirado de si a qualquer momento. Pelo menos foi assim que ela se sentiu ao ouvir o experiente medico dizer que seu filho tinha um problema de coração que só seria solucionado com um transplante.

Elisa chorou naquela noite depois de ter certeza que seu filho, Marcos, já estava dormindo. Ela não tinha tido coragem de contar a Marcos o diagnostico dado pelo medico. Marcos tinha apenas treze anos, era cruel demais. Mas, por mais que ela quisesse proteger o filho, sabia que teria de contar a ele. Como explicaria o fato de que Marcos não poderia mais jogar bola com os amigos ou nadar no clube? Como explicaria o surgimento de tantas privações se não lhe falasse sobre seu problema? Não havia escapatória. Teriam de encarar aquela situação adversa e inesperada.

Foi quando Marcos surpreendeu sua mãe. Com a serenidade e sabedoria de alguém que parecia ter vivido bem mais do que apenas treze poucos anos, o garoto não se deixou abalar pela notícia. Queria mostrar à mãe que, enquanto ele estivesse vivo, ainda haveria esperança. Ainda havia chances de ele viver muito mais, afinal de contas, Marcos ainda nem tinha se tornado astronauta. E a doação de órgãos? A professora de Marcos tinha falado sobre este assunto em uma das aulas de biologia. Talvez ela soubesse de alguma maneira de ajudar o garoto.

Os colegas de Marcos e sua professora, Maria Ana, ficaram muito tristes com a notícia sobre o estado de saúde de Marcos. Alguns se conformaram e sentiram pena; outros foram contagiados pelo espírito de mudança do menino e propuseram a ajudar como pudessem. Alguns carregavam a mochila dele, outros deixaram de jogar futebol na hora do lanche para que ele não se sentisse sozinho e era freqüente alguém trazer notícias e informações que tinham relação com a doação de órgãos.

Elisa e o médico de Marcos tinham inscrito o garoto na lista de espera de doação de órgãos. O Doutor William tinha explicado que o ideal seria uma lista única e o mesmo sistema operando no país todo, o que evitaria fraudes e diminuiria o tempo de espera em alguns casos, mas essa não era a situação do Brasil. O relato de fraudes desse sistema era mais comum do que qualquer outra coisa. Sem falar no número de doações, que era muito baixo.

Marcos, Elisa e os amigos do garoto decidiram então se juntar a uma organização não governamental que lutava pela conscientização das pessoas para que estas doassem mais e um maior número de pessoas pudesse ser atendido. Eles faziam parte de campanhas ativamente: distribuíam panfletos, organizavam palestras, visitavam hospitais, levavam esperança a quem não tinha. Em poucos meses, Marcos e sua causa ganharam destaque, embora o garoto estivesse cada vez mais fraco. Ele usava cadeira de rodas para se locomover e precisava de ajuda para realizar tarefas básicas, mas mesmo assim não se abateu. Não pararia de lutar e não perderia a esperança nem se ficasse preso num quarto de hospital.

Isso aconteceu alguns dias depois de Marcos comparecer a um programa dominical de televisão. Era um daqueles programas com altos índices de audiência e que todo mundo assiste por que não se tem nada melhor para fazer num domingo à tarde. No domingo seguinte, o apresentador reprisou um pedaço da matéria e Marcos assistiu deitado em cama de hospital, enquanto trocava figurinhas com um primo e a mãe chorosa conversava com a tia do garoto. Elisa debulhou-se em lagrimas quando todos no quarto ouviram o apresentador anunciar que Marcos tinha encontrado um doador.

Os detalhes eles souberam depois. Um espectador tinha se comovido com a história de Marcos e decidido doar o coração de seu filho ao garoto. O filho de Jorge tinha sofrido um acidente na mesma época em que Marcos tinha sido diagnosticado e estava em coma desde então. Após assistir ao programa, Jorge tinha entendido que a missão de seu filho era garantir que uma mãe não sofresse como Jorge. Os médicos não tinham dado nenhuma esperança de que seu filho sairia do coma, mas mesmo assim ele tinha deixado os aparelhos ligados. Agora ele entendia o porquê: a vida de seu filho salvaria a de Marcos. Ao menos era isso o que todos esperavam.

Vários exames foram feitos, era preciso ter certeza de que Marcos e o filho de Jorge eram compatíveis. A expectativa tinha crescido de maneira insuportável e foi um choque ver os resultados: Marcos não poderia receber o coração do garoto. Ao invés disso, ele seria doado para uma garotinha de dez anos no sul do país.

Elisa não conseguiu se segurar e acabou chorando na frente do filho. Seu filho estava fraco e abatido, cada momento poderia ser o último e suas esperanças iam se acabando conforme os dias e horas passavam. Ela estava tão imersa em seus próprios pensamentos, que se surpreendeu ao sentir a mão de Marcos lhe acariciar o ombro, antes que o filho abraçasse a mãe.

"Não tem problema. Talvez a garotinha precisasse mais dele do que eu," o garoto lhe disse ao pé do ouvido. "Eu posso esperar mais um pouco. Não vai demorar. Não se preocupe, mãe."

Depois daquele dia, Elisa só chorou novamente três ou quatro semanas depois e somente após o Doutor William lhe sorrir carinhosamente e anunciar que a operação tinha sido um sucesso. A avó paterna de Marcos estava tão inconformada com a idéia de perder um neto que acabou ficando doente. Ela tinha morrido durante o sono e com um sorriso nos lábios, pois sabia que seu neto poderia viver tanto quanto ela.



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