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“Eu Posso Quase Tudo”
Esta é uma obra de ficção, não possui fins lucrativos nem quaisquer outros interesses que não aqueles diretamente ligados à razão de ser do FictionPress. Embora original, é o que se poderia chamar de uma “continuação” ou “parte 2”, portanto, seria equivocado não avisar os senhores leitores de que os fatos narrados aqui tem completa ligação com a fic “Feito Para dar Errado”, e alguns detalhes não serão explicados de novo, somente sendo compreendidos em sua totalidade por aqueles que leram a primeira parte.
Prólogo
Roger acordou perturbado. Pulou sobre o corpo ao lado do seu, na cama, no ímpeto de alcançar o despertador. Estava atrasado. Muito atrasado. Ouviu alguns resmungos, não deu a menor importância a eles, vestiu uma calça, uma camisa de botões – que não fechou –, apanhou um par de sapatos e calçou-os no caminho da cozinha.
– Você está deplorável. – teve de ouvir.
– Estou terrivelmente atrasado. Por que não me acordou?
– Não quis interromper nada... – Roger virou os olhos enquanto mãos habilidosas fechavam sua camisa e arrumavam o colarinho.
– Aliás, não sou o único correndo contra o tempo, você não deveria estar na redação?
– Dormi demais. Agora vá lavar esse rosto, não quero chegar no trabalho com você nesse estado!
– Hmm... – Roger abraçou-a pela cintura, pressionando-a contra o móvel da pia, sobre o qual ela se sentou quando Roger a suspendeu. – Está com medo que insinuem alguma coisa se nos virem chegando juntos, atrasados e com cara de quem não dormiu nada?
Fernanda lhe abraçou e respondeu sorrindo:
– Tudo bem. Vou deixar você levar a fama de garanhão, de novo, às minhas custas. – e nisso Fernanda lhe deu um tapinha nas nádegas, pulou de volta para o chão e deixou a cozinha.
– Hei! – Roger protestou.
– E a garota? – Fernanda perguntou, já da sala.
– Deve dormir até tarde. Deixará a chave na portaria. Que tal ela? Razoável?
Fernanda deixou ver somente o seu rosto na abertura da porta, e com uma expressão admirada, respondeu:
– Linda!
– Isso foi um “parabéns”?
Ela riu.
– Não. Você já é presunçoso demais.
– Há-há-há. – Roger caçoou.
– Vá pedir aprovação das suas mulheres para a sua mãe! E agora vamos, antes que cheguemos no intervalo do almoço. Eu vou chamando o elevador...
– Ok, vou pegar uma bala de menta pra disfarçar e já te alcanço.
– Deveria escovar os dentes.
– Achei que você estivesse nos apressando – ele disse, enquanto o elevador iniciava a descida.
– Dez minutos a mais, dez minutos a menos...
– Bom, então eu vou voltar. – ele esticou o braço na direção do painel.
– Nada disso!
– Por quê?
– Agora já saímos.
Roger suspirou, dando os ombros.
– Me lembre de não morar com você por muito tempo.
Ambos sorriram.
– Há uma reportagem... – Roger iniciou, timidamente.
– Você insistirá nisso. – Fernanda constatou, exausta.
– Eu solicitei algumas coisas... na redação... falei com o Marco...
– Sei de tudo isso.
– Não posso voltar pra lá sem algo concreto.
– Eu compreendo.
– E então?
– O que quer que eu faça?
– Somos jornalistas, temos um compromisso com a verdade, Fernanda.
– Corta essa, Roger. Sabemos melhor que qualquer um que isso é uma grande besteira e que poucas coisas importam menos que a verdade no meio jornalístico.
– Que seja. Ok, eu paro com a hipocrisia. Marco vai querer uma reviravolta, um fato novo, uma grande história. Eu prometi isso a ele.
– Ouvi a conversa. Cheguei a pensar que você prometeria ressuscitar a Clara, tamanha a empolgação com o trabalho.
– Veja isso: temos uma história muito melhor do que imaginávamos! Um romance, um envolvimento, duas famílias diferentes, medo, uma morte cercada de significados... é perfeito!
– Perfeito? – Fernanda sentiu um enjôo repentino ao ouvir aquelas palavras. – Perfeito, Roger? Não estamos falando de uma matéria, uma simples reportagem. Há pessoas envolvidas nisso, é também a minha vida! O que você vai fazer? Expor a qualquer custo um segredo que nem os pais da Clara conhecem?
– Não deveria ser segredo. Não há nada de errado no que vocês fizeram. Não é crime gostar de alguém.
Fernanda desviou o olhar para a paisagem fora do carro, em silêncio.
“Não há nada de anormal no que aconteceu.
– Hipocrisia de novo. Quantas pessoas acredita que pensam como você?
– Mais do que você imagina. Não estou sendo idealista. Confesso que imediatamente a idéia causa estranhamento, mas nada que dure mais que alguns instantes quando se pondera a situação.
– A questão é muito mais complicada quando se está dentro do problema... – Fernanda reviveu boa parte dos acontecimentos em alguns segundos, imersa em pensamentos.
– Não estou duvidando disso. – Roger tirou uma das mãos da direção e afagou o braço de Fernanda, notando o quão perturbada ela ficava ao falar daquilo. – Só acho que, depois de tudo, talvez esteja na hora de superar. Você guardou isso sozinha por anos...
– Jogar a merda no ventilador agora não vai ajudar. Definitivamente não vai.
– Continuar fugindo do problema também não.
– Eu não fujo do problema. É sério. Talvez tenha tentado fazer isso na fazenda, mas foi uma forma de defesa. Você não pode imaginar as coisas que eu senti voltando àquele lugar. O modo mais fácil de enfrentar foi ignorar até onde foi possível.
– Mas você não está mais lá. Não precisa mais ignorar. E também não está mais sozinha.
– Eu não voltara ao lugar até essa manhã. Ao rio, quero dizer. Foi a primeira vez. Não fui ao enterro.
– Despeça-se dela, Fernanda. Você precisa.
– Eu sei...
– Quer que eu vá com você? – Roger se referia ao cemitério.
– Não, obrigada.
– Certo.
– Preciso fazer isso do meu jeito. Sem reportagem, sem mídia, sem...
Roger também precisava fazer aquilo do jeito dele. E o jeito dele não incluía voltar à redação de mãos vazias e encarar Marco, o chefe, como se nada tivesse acontecido. Roger tinha objetivos na carreira que só seriam alcançados se ele sacrificasse algumas coisas que poucas pessoas poriam a perder. Essa era a diferença entre ele e os jornalistas que teria de superar para concretizar seus sonhos. Bastava saber até que ponto ele seria capaz de chegar. E para infelicidade dele, Marco descobriria seus limites bem cedo, e Roger seria muito cobrado a partir de então...
– Hmm, a noite foi longa, receio. – Roger não gostou nem um pouco do olhar que Marco dirigiu à Fernanda, que acabara de se sentar, a cinco mesas de distância.
– Quer falar comigo?
– Sim. – Marco se levantou. – Vamos até a minha sala.
Roger teve pouco tempo para planejar uma reação. Tinha quase certeza que a conversa com o chefe não seria nada agradável.
– E então?
– Sente-se.
– Se é sobre o-
– Não. – Marco estava sério. Muito mais sério do que o normal. – Você está ciente que me deve uma depois do que aconteceu, não?
– Vá direto ao ponto.
– Tivemos uma reunião recentemente. A diretoria, eu quero dizer.
– Sim, eu entendi.
– Você está bem cotado por lá...
– Não gosto de insinuações e rodeios, Marco.
– Você vai subir rápido. Muito rápido. Fez os jogos certos, um bom trabalho aqui, um agrado no diretor ali... usou sua aparência para conquistar a simpatia de todas as mulheres...
Roger não pôde deixar de sorrir ao lembrar que muitas delas valeram à pena.
“A questão é saber até onde vai o seu poder.
– Eu posso tudo aqui dentro, Marco. E posso quase tudo em qualquer lugar. Sei exatamente o que você quer. Se a sua preocupação é ficar aqui enquanto eu vou pra lá – Roger apontou para o elevador que levava aos escritórios. – pode ficar tranqüilo. Estamos juntos nessa.
– Ótimo.
– Era só isso?
– Por enquanto sim.
– Com licença.
Infelizmente, para Roger, não seria somente aquilo...
P.S.2: digamos que muito desta história seja baseado em sensações, reflexões e pensamentos gerados por dois filmes em particular: Kamchatka (filme argentino de Marcelo Piñeyro) no qual são narradas algumas conseqüências do golpe militar na Argentina (1976) sob a ótica de um menino de 10 anos, filho de um casal perseguido pela ditadura; e La Dolce Vita (filme italiano de Federico Fellini), que mostra o cotidiano de um jornalista italiano da década de 1950, seus conflitos, suas dúvidas, sua popularidade com os estranhos e omissão com as pessoas que realmente o amavam. A quem me indicou ambos – e assistiu comigo – dedico também essa “estória”.
Sara Clarice Lecter, 04 de agosto de 2006.