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Fiction » General » Eu Posso Quase Tudo font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sara Lecter
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Drama - Reviews: 6 - Published: 08-04-06 - Updated: 08-04-06 - id:2224407

Eu Posso Quase Tudo”

Esta é uma obra de ficção, não possui fins lucrativos nem quaisquer outros interesses que não aqueles diretamente ligados à razão de ser do FictionPress. Embora original, é o que se poderia chamar de uma “continuação” ou “parte 2”, portanto, seria equivocado não avisar os senhores leitores de que os fatos narrados aqui tem completa ligação com a fic “Feito Para dar Errado”, e alguns detalhes não serão explicados de novo, somente sendo compreendidos em sua totalidade por aqueles que leram a primeira parte.


Nota da Autora: devo confessar minha profunda surpresa com a receptividade do final de “Feito Para dar Errado”, passadas algumas semanas desde a publicação. Receio que estivesse com uma certa reserva ao fazê-lo, afinal de contas, a história é baseada em um tema bastante polêmico em qualquer lugar do mundo. Ao que percebi, o saldo é positivo. A idéia de uma continuação não é exclusivamente minha. Há muito das opiniões de todos que enviaram reviews, e-mails, ou dispensaram um pouco do seu tempo com Sara Lecter no MSN. As principais reivindicações serão atendidas, e muito me surpreendeu que todas elas sejam referentes ao Roger. Essa personagem ganhará, finalmente, contornos mais firmes e, espero, uma convincente explicação para o seu comportamento na história anterior – onde, de fato, estava um tanto quanto ríspido. Contudo, “Eu Posso Quase Tudo” não é simplesmente uma explicação para as lacunas de “Feito Para dar Errado”, há aqui a tentativa de constituir uma trama diversa, e eu ficaria muito feliz se esta conseguisse prendê-los da mesma forma que a anterior o fez.

Prólogo

Roger acordou perturbado. Pulou sobre o corpo ao lado do seu, na cama, no ímpeto de alcançar o despertador. Estava atrasado. Muito atrasado. Ouviu alguns resmungos, não deu a menor importância a eles, vestiu uma calça, uma camisa de botões – que não fechou –, apanhou um par de sapatos e calçou-os no caminho da cozinha.

– Você está deplorável. – teve de ouvir.

– Estou terrivelmente atrasado. Por que não me acordou?

– Não quis interromper nada... – Roger virou os olhos enquanto mãos habilidosas fechavam sua camisa e arrumavam o colarinho.

– Aliás, não sou o único correndo contra o tempo, você não deveria estar na redação?

– Dormi demais. Agora vá lavar esse rosto, não quero chegar no trabalho com você nesse estado!

– Hmm... – Roger abraçou-a pela cintura, pressionando-a contra o móvel da pia, sobre o qual ela se sentou quando Roger a suspendeu. – Está com medo que insinuem alguma coisa se nos virem chegando juntos, atrasados e com cara de quem não dormiu nada?

Fernanda lhe abraçou e respondeu sorrindo:

– Tudo bem. Vou deixar você levar a fama de garanhão, de novo, às minhas custas. – e nisso Fernanda lhe deu um tapinha nas nádegas, pulou de volta para o chão e deixou a cozinha.

– Hei! – Roger protestou.

E a garota? – Fernanda perguntou, já da sala.

– Deve dormir até tarde. Deixará a chave na portaria. Que tal ela? Razoável?

Fernanda deixou ver somente o seu rosto na abertura da porta, e com uma expressão admirada, respondeu:

– Linda!

– Isso foi um “parabéns”?

Ela riu.

– Não. Você já é presunçoso demais.

– Há-há-há. – Roger caçoou.

– Vá pedir aprovação das suas mulheres para a sua mãe! E agora vamos, antes que cheguemos no intervalo do almoço. Eu vou chamando o elevador...

– Ok, vou pegar uma bala de menta pra disfarçar e já te alcanço.

– Deveria escovar os dentes.

– Achei que você estivesse nos apressando – ele disse, enquanto o elevador iniciava a descida.

– Dez minutos a mais, dez minutos a menos...

– Bom, então eu vou voltar. – ele esticou o braço na direção do painel.

– Nada disso!

– Por quê?

– Agora já saímos.

Roger suspirou, dando os ombros.

– Me lembre de não morar com você por muito tempo.

Ambos sorriram.


Fernanda adormecera no banco do carona. Roger bem que gostaria de fazer o mesmo. Dirigia com cautela, não pregara o olho durante toda a noite, mas felizmente a rodovia estava pouco movimentada e não enfrentara maiores problemas. Abasteceu o carro em um posto recém inaugurado, ficou dez minutos na loja de conveniência e acordou Fernanda lhe afagando o antebraço, oferecendo um improvisado café e tentando agir normalmente, o que revelara quase impossível. Os dois foram parar em uma fazenda abandonada para investigar o suicídio de uma adolescente e escrever uma boa reportagem que lhes daria prestígio no emprego; acabaram esboçando um envolvimento no qual Roger descobriu não só que Fernanda conhecia todas as personagens do trágico evento como era também a chave que elucidava o mistério. Ela acabara de lhe contar. E Roger achava que jamais se recuperaria do choque.

– Há uma reportagem... – Roger iniciou, timidamente.

– Você insistirá nisso. – Fernanda constatou, exausta.

– Eu solicitei algumas coisas... na redação... falei com o Marco...

– Sei de tudo isso.

– Não posso voltar pra lá sem algo concreto.

– Eu compreendo.

– E então?

– O que quer que eu faça?

– Somos jornalistas, temos um compromisso com a verdade, Fernanda.

– Corta essa, Roger. Sabemos melhor que qualquer um que isso é uma grande besteira e que poucas coisas importam menos que a verdade no meio jornalístico.

– Que seja. Ok, eu paro com a hipocrisia. Marco vai querer uma reviravolta, um fato novo, uma grande história. Eu prometi isso a ele.

– Ouvi a conversa. Cheguei a pensar que você prometeria ressuscitar a Clara, tamanha a empolgação com o trabalho.

– Veja isso: temos uma história muito melhor do que imaginávamos! Um romance, um envolvimento, duas famílias diferentes, medo, uma morte cercada de significados... é perfeito!

– Perfeito? – Fernanda sentiu um enjôo repentino ao ouvir aquelas palavras. – Perfeito, Roger? Não estamos falando de uma matéria, uma simples reportagem. Há pessoas envolvidas nisso, é também a minha vida! O que você vai fazer? Expor a qualquer custo um segredo que nem os pais da Clara conhecem?

– Não deveria ser segredo. Não há nada de errado no que vocês fizeram. Não é crime gostar de alguém.

Fernanda desviou o olhar para a paisagem fora do carro, em silêncio.

“Não há nada de anormal no que aconteceu.

– Hipocrisia de novo. Quantas pessoas acredita que pensam como você?

– Mais do que você imagina. Não estou sendo idealista. Confesso que imediatamente a idéia causa estranhamento, mas nada que dure mais que alguns instantes quando se pondera a situação.

– A questão é muito mais complicada quando se está dentro do problema... – Fernanda reviveu boa parte dos acontecimentos em alguns segundos, imersa em pensamentos.

– Não estou duvidando disso. – Roger tirou uma das mãos da direção e afagou o braço de Fernanda, notando o quão perturbada ela ficava ao falar daquilo. – Só acho que, depois de tudo, talvez esteja na hora de superar. Você guardou isso sozinha por anos...

– Jogar a merda no ventilador agora não vai ajudar. Definitivamente não vai.

– Continuar fugindo do problema também não.

– Eu não fujo do problema. É sério. Talvez tenha tentado fazer isso na fazenda, mas foi uma forma de defesa. Você não pode imaginar as coisas que eu senti voltando àquele lugar. O modo mais fácil de enfrentar foi ignorar até onde foi possível.

– Mas você não está mais lá. Não precisa mais ignorar. E também não está mais sozinha.

– Eu não voltara ao lugar até essa manhã. Ao rio, quero dizer. Foi a primeira vez. Não fui ao enterro.

– Despeça-se dela, Fernanda. Você precisa.

– Eu sei...

– Quer que eu vá com você? – Roger se referia ao cemitério.

– Não, obrigada.

– Certo.

– Preciso fazer isso do meu jeito. Sem reportagem, sem mídia, sem...

Roger também precisava fazer aquilo do jeito dele. E o jeito dele não incluía voltar à redação de mãos vazias e encarar Marco, o chefe, como se nada tivesse acontecido. Roger tinha objetivos na carreira que só seriam alcançados se ele sacrificasse algumas coisas que poucas pessoas poriam a perder. Essa era a diferença entre ele e os jornalistas que teria de superar para concretizar seus sonhos. Bastava saber até que ponto ele seria capaz de chegar. E para infelicidade dele, Marco descobriria seus limites bem cedo, e Roger seria muito cobrado a partir de então...


Roger percebeu que olhos seguiram sua passagem por toda redação. Trazia no rosto um sorriso incomum, já que sua maior marca era o mal-humor matutino. Quando chegou a sua mesa, Marco a ocupava, brincando irritantemente com uma bolinha de papel, a qual era atirada para cima e apanhada em seguida.

– Hmm, a noite foi longa, receio. – Roger não gostou nem um pouco do olhar que Marco dirigiu à Fernanda, que acabara de se sentar, a cinco mesas de distância.

– Quer falar comigo?

– Sim. – Marco se levantou. – Vamos até a minha sala.

Roger teve pouco tempo para planejar uma reação. Tinha quase certeza que a conversa com o chefe não seria nada agradável.

– E então?

– Sente-se.

– Se é sobre o-

– Não. – Marco estava sério. Muito mais sério do que o normal. – Você está ciente que me deve uma depois do que aconteceu, não?

– Vá direto ao ponto.

– Tivemos uma reunião recentemente. A diretoria, eu quero dizer.

– Sim, eu entendi.

– Você está bem cotado por lá...

– Não gosto de insinuações e rodeios, Marco.

– Você vai subir rápido. Muito rápido. Fez os jogos certos, um bom trabalho aqui, um agrado no diretor ali... usou sua aparência para conquistar a simpatia de todas as mulheres...

Roger não pôde deixar de sorrir ao lembrar que muitas delas valeram à pena.

“A questão é saber até onde vai o seu poder.

– Eu posso tudo aqui dentro, Marco. E posso quase tudo em qualquer lugar. Sei exatamente o que você quer. Se a sua preocupação é ficar aqui enquanto eu vou pra lá – Roger apontou para o elevador que levava aos escritórios. – pode ficar tranqüilo. Estamos juntos nessa.

– Ótimo.

– Era só isso?

– Por enquanto sim.

– Com licença.

Infelizmente, para Roger, não seria somente aquilo...


P.S.: a esperada continuação. A partir do primeiro capítulo a trama é revelada, o cotidiano de Roger na redação, suas ambições profissionais e – por que não – sua polêmica tentativa de evitar a qualquer custo o destino de seu pai, idealista, sonhador, cuja única herança foi o conselho de evitar o mesmo “erro”: colocar a vida pessoal à frente da carreira. Fernanda, antes objeto de desejo, é agora a conselheira perfeita para uma carreira em ascensão, uma amiga fiel e... bom, se contar mais, estraga. Basta dizer que pode ser ela mesma a semente da discórdia, o contraponto, a personificação da parte de Roger que não almeja deixar tão de lado os interesses pessoais.

P.S.2: digamos que muito desta história seja baseado em sensações, reflexões e pensamentos gerados por dois filmes em particular: Kamchatka (filme argentino de Marcelo Piñeyro) no qual são narradas algumas conseqüências do golpe militar na Argentina (1976) sob a ótica de um menino de 10 anos, filho de um casal perseguido pela ditadura; e La Dolce Vita (filme italiano de Federico Fellini), que mostra o cotidiano de um jornalista italiano da década de 1950, seus conflitos, suas dúvidas, sua popularidade com os estranhos e omissão com as pessoas que realmente o amavam. A quem me indicou ambos – e assistiu comigo – dedico também essa “estória”.

Sara Clarice Lecter, 04 de agosto de 2006.



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